“Foi um dia maravilhoso.” A frase é de Filipe, adepto do Torreense, e resume de forma simples aquilo que ainda se sente esta segunda-feira em Torres Vedras. Depois de uma noite de celebração histórica, marcada pela conquista da Taça de Portugal frente ao Sporting, a cidade acordou mais silenciosa, mas profundamente orgulhosa. O ambiente é agora de calma, contemplação e uma felicidade difícil de disfarçar, ainda que acompanhada de algumas olheiras e poucas horas de sono. O Torreense fez história e a cidade parece ainda estar a tentar perceber a dimensão do feito. “Foi um feito inédito, algo em que todos acreditávamos um bocadinho. Lá no fundo era difícil, mas foi espetacular”, resume Filipe, enquanto ainda revive as emoções de um domingo que dificilmente será esquecido pelos torrenses. Ao percorrer o centro da cidade nesta segunda-feira, o contraste com a noite de domingo torna-se evidente. O trânsito circula normalmente, os cafés voltaram à rotina e os comerciantes abriram portas como em qualquer outro início de semana. Ainda assim, pequenos detalhes denunciam que esta não é uma segunda-feira qualquer. Poucos adeptos exibem sinais visíveis de pertença ao emblema azul-grená, mas os que o fazem parecem carregá-los com um orgulho renovado. Alguns mantêm a camisola vestida desde a noite anterior, outros ostentam discretamente um boné ou um cachecol comemorativo. E nesses poucos consegue-se perceber facilmente uma felicidade difícil de conter. A frase mais repetida continua a ser a mesma: “Ainda não acredito.”Iara, adepta do clube, não esconde o entusiasmo ao falar do momento vivido. “É fantástico. É um orgulho imenso. Após 70 anos conseguir conquistar a Taça de Portugal… foi uma festa rija”, resume, ainda com o entusiasmo bem presente, embora reconhecendo o ambiente mais tranquilo vivido esta segunda-feira. “Agora está tudo mais calminho”, admite, depois de uma noite onde, garante, houve celebração tanto no Jamor como em Torres Vedras. Mesmo sem grande ostentação clubística nas ruas, o entusiasmo sente-se de outras formas. Na loja oficial do Torreense, a procura pelos artigos comemorativos disparou nas últimas horas. Em particular, os cachecóis produzidos especificamente para a final da Taça de Portugal — alusivos ao Jamor e criados especialmente para a ocasião — tornaram-se rapidamente objeto de desejo entre adeptos e colecionadores. Ao longo desta segunda-feira, eram já poucos os exemplares disponíveis, numa corrida que mostra como a conquista histórica rapidamente ganhou lugar no imaginário coletivo dos torrenses.Filipe foi precisamente um dos adeptos que passou pela loja do clube para garantir um dos últimos artigos comemorativos. “Já vim buscar dos últimos do Jamor, acho eu, porque já estão a acabar”, contou, antecipando desde já o próximo desafio da equipa. Porque apesar da euforia, há um pensamento que começa lentamente a ganhar espaço: a luta pela subida de divisão. .Mas enquanto a cidade ainda vive a ressaca emocional da conquista, dentro do clube o foco parece já ter mudado de direção. Apesar da dimensão histórica da vitória na Taça de Portugal, o Torreense sabe que a época ainda está longe de terminar e que existe um objetivo igualmente importante: o acesso ao principal escalão do futebol português.Esta segunda-feira, a equipa treinou à porta fechada, num registo mais ligeiro, sobretudo de recuperação física, depois do desgaste da final e das intensas celebrações que se prolongaram madrugada dentro. Entre trabalho regenerativo e recuperação muscular, o treino foi leve, mas sem desviar atenções do essencial. O pensamento está totalmente virado para a segunda mão do play-off de acesso à Liga principal, num encontro que pode transformar uma época histórica numa temporada absolutamente inesquecível. Depois do empate sem golos na primeira mão frente ao Casa Pia, os torreenses querem juntar à conquista da Taça e ao acesso direto à Liga Europa, a subida de divisão.Para Filipe, não há dúvidas sobre a importância do próximo jogo. “O jogo de quinta-feira será muito mais importante do que o da Taça”, afirma, defendendo que a possibilidade de subida pode representar um marco ainda maior para o clube e para a cidade. “Estamos com esperança de que o Torreense suba de divisão e nos leve outra vez à loucura.” A serenidade que hoje domina Torres Vedras parece quase incompatível com as imagens vividas poucas horas antes. Porque a noite de domingo ficará inevitavelmente gravada na memória coletiva do concelho.Logo após o apito final, a cidade explodiu numa celebração espontânea difícil de descrever. O som das buzinas tomou conta das ruas, caravanas improvisadas começaram a circular pelas principais avenidas e centenas de pessoas saíram espontaneamente de casa para celebrar um feito que parecia improvável. Muitos tinham acompanhado a final através de ecrãs gigantes, cafés ou reuniões familiares e, quando a vitória se confirmou, o sentimento foi de pura incredulidade.“Fomos a pensar que talvez íamos perder, mas tivemos uma boa surpresa”, admite Iara, assumindo aquilo que muitos adeptos sentiam antes do jogo frente a um dos candidatos habituais aos grandes troféus nacionais. “Contra o Sporting, um dos melhores de Portugal, era um bocado difícil”, reconhece, sublinhando, no entanto, que a vitória acabou por saber ainda melhor por causa desse favoritismo do adversário. Mas talvez o momento mais simbólico tenha acontecido já depois da meia-noite. O regresso do autocarro da equipa transformou-se numa autêntica procissão popular. Centenas de pessoas aguardaram junto à Câmara Municipal e acompanharam a chegada dos novos heróis da cidade. O percurso até ao estádio foi feito praticamente em marcha lenta, tal era o entusiasmo dos adeptos.O autocarro acabou mesmo por ser escoltado por centenas de pessoas, num ambiente de cânticos, aplausos e bandeiras agitadas no ar. Famílias inteiras, jovens, idosos e crianças caminharam lado a lado, acompanhando a equipa numa celebração que parecia não querer terminar.“Ontem, foi a noite toda. Era uma multidão”, recorda Filipe, ainda impressionado com a dimensão da festa. Para o adepto, o impacto vai muito além do futebol. “É muito bom para Torres Vedras, para o comércio, para tudo. Mexe com tudo.” E acrescenta: “O clube recolocou Torres Vedras onde devia estar sempre.” .A chegada ao estádio foi o culminar de uma noite inesquecível. Houve abraços, discursos improvisados, jogadores emocionados e uma comunhão rara entre equipa e adeptos.Para Giovana a conquista representa muito mais do que um troféu. “É um orgulho enorme ver o Torreense chegar onde está a chegar e conquistar tudo o que tem conquistado”, afirma, lembrando também o crescimento das restantes modalidades e do futebol feminino. “É incrível para Torres Vedras. Temos de estar todos felizes e apoiar cada vez mais o Torreense.” A adepta e jogadora de futsal do Torreense acredita que o impacto do clube vai muito além do relvado. “Traz mais visibilidade aqui à zona de Torres Vedras. Acho que é muito bom”, refere, insistindo que o ADN do clube continuará intacto independentemente do patamar competitivo. “O Torreense é mesmo assim: acreditar sempre até ao fim. Acreditar, acreditar, acreditar e lutar até ao último segundo. O Torreense não desiste nunca.” Essa crença parece agora transferir-se diretamente para quinta-feira. Se a Taça de Portugal já entrou para a história, o próximo desafio já ocupa o pensamento dos adeptos. Iara acredita plenamente na subida. “Agora é que temos de acreditar ainda mais. Claro que é possível”, garante. “Vai estar tudo a apoiar.” .Torreense faz história no Jamor e vence Sporting após prolongamento para conquistar Taça inédita.Torreense e Casa Pia empatam no primeiro jogo do play-off da I Liga