A judoca Telma Monteiro revelou esta segunda-feira, numa publicação na rede social Instagram, que a selecionadora nacional Ana Hormigo foi despedida por e-mail um dia antes de a equipa nacional viajar para uma competição de apuramento olímpico.."Amanhã vou viajar para a competição a minha primeira depois da cirurgia ao joelho. Hoje a federação despediu a treinadora Ana Hormigo, por e-mail, no dia antes da equipa viajar! Sem a equipa ou a própria saber de forma antecipada. Em semana de competição de apuramento olímpico!", escreveu a mais medalhada judoca portuguesa, revelando ainda que os atletas que escreveram a carta aberta a denunciar os problemas com a Federação Portuguesa de Judo "terão esta semana para se retratarem ou serão levados a tribunal"..Telma Monteiro adiantou ainda que no sábado os treinadores foram informados de que alguns atletas "deixaram de ter verba do projeto olímpico", que é gerido pela federação, "para realizar o planeamento" que estava traçado. A judoca explicou que este ano já pagou do seu bolso estágios internacionais e pagou ainda as despesas relativas à cirurgia que realizou. "O seguro que a federação me mandou acionar não cobriu (mandei um mail há uma semana sobre o assunto, não me responderam) e agora pelo que percebi, se quiser cumprir o meu plano desportivo por inteiro, vou ter de pagar também", sublinhou.."Com ações destas a federação, continua a demonstrar o pouco respeito que tem pelos atletas, pelas pessoas e a demonstrar que tipo de gestão desportiva exercem. Já nem somos só nós a dizer, são as ações a demonstrar que tudo o que dizemos é verdade!", frisou Telma Monteiro..Também Bárbara Timo, medalha de bronze nos últimos Mundiais no Uzbequistão, também lamentou no Instagram a saída de Ana Hormigo. "A 48 horas de viajar para o Grand Slam de Abu Dhabi descubro que a treinadora da seleção portuguesa foi dispensada", disse considerando que, com tudo aquilo com que os atletas se têm de preocupar, "não há beneficios" em lidar com estas "atitudes". "É insustentável buscar o topo quando quem lidera quer pôr-nos para baixo sempre", acusou..Rochele Nunes também usou as redes sociais para expressar a indignação, garantindo que os atletas sofrem "cada vez mais represálias e ameaças". E ainda aproveitou para deixar uma palavra Ana Hormigo: "Obrigada por inúmeras vezes lutar por nós quando já não tínhamos mentalidade para lidar com tanto stress.".O presidente da Federação Portuguesa de Judo afirmou, à agência Lusa, que a selecionadora Ana Hormigo não foi despedida, mas sim afastada das seleções, explicando que o caso está entregue aos advogados do organismo.."Após o comunicado que a Ana Hormigo fez, achámos todos nós que ela se deveria ter demitido antes. Estava a trabalhar comigo há quase seis anos e, com aquele comunicado e as atitudes que tem tido ultimamente, não nos dá confiança. Demonstrou que não tem condições para trabalhar a este nível e com estes atletas", disse Jorge Fernandes..Jorge Fernandes esclareceu que a até agora selecionadora nacional foi informada que deveria entrar em contacto com os advogados da FPJ, sem que tenha sido despedida.."Na minha opinião, e penso que ela deve pensar o mesmo, não há condições para ela continuar. A treinadora não fala comigo, não fala com os dirigentes e isto é intolerável. Estamos a dois anos dos Jogos e queremos arrumar a casa, mudar o que está mal e melhorar o que está bem, para podermos fazer o período de qualificação e chegar aos Jogos nas melhores condições. Não foi despedida, foi afastada para já das seleções e vamos ver como o caso se vai resolver", referiu..Em agosto, uma carta aberta assinada por sete dos 10 atletas do projeto olímpico da modalidade criticava Jorge Fernandes, acusando-o de discriminação e ameaças, no que dizem ser um "clima insustentável e tóxico"..O presidente da FPJ explicou que o seu trabalho é o de gerir os destinos do organismo e destacou o resultado da Assembleia Geral realizada no domingo, quando o orçamento e o plano de atividades para 2023 foram aprovados por maioria e a sua liderança reforçada, referindo que Telma Monteiro se deve "focar" no desempenho desportivo.."Fui eleito para gerir a FPJ e vou continuar. Em relação à atleta Telma Monteiro, a atleta devia estar mais focada na prova que vai ter no fim de semana e em outras do que andar nas redes sociais contra quem foi eleito para criar as melhores condições para que ela possa ter melhores prestações do que tem tido ultimamente", apontou..No verão, Telma Monteiro, Catarina Costa, Patrícia Sampaio, Rochele Nunes, Bárbara Timo, Anri Egutidze e Rodrigo Lopes escreveram uma carta, na qual acusavam o dirigente de opressão, discriminação e ameaças, lamentando o "clima insustentável e tóxico"..Poucos dias depois, Hormigo solidarizou-se com os judocas, afirmando que os mesmos "estão exaustos" e que "não querem estar sujeitos a um sistema que nem se digna a ouvi-los"..Jorge Fernandes explicou que os atletas têm direitos e deveres e não podem "denegrir a imagem das pessoas", recusando novamente as acusações que lhe foram feitas na carta aberta.."Os atletas não têm o direito de denegrir a imagem das pessoas, nem dizerem o que querem. Têm direitos e deveres que têm que cumprir, tal como eu. Acusarem-me de racista ou xenófobo vão ter de provar isso, e sobre os pedidos de reunião que dizem que fizeram vão ter de provar", afirmou..Já em relação às verbas do projeto olímpico, o presidente da FPJ explicou que "não existe dinheiro para tudo" e que existem mais atletas para além de Telma Monteiro.."O plano da Telma era impensável, uma coisa de loucos. A Telma pedia para ir para Abu Dhabi, seguir para a Austrália para fazer um estágio e no fim de semana a seguir competir em Baku. Isto, desportivamente, era um desastre", disse..Jorge Fernandes aludia ao desgaste provocado pelo jet lag, além do valor financeiro em viagens e estadias.."A Telma foi das melhores atletas do mundo, mas temos mais atletas, como Jorge Fonseca, Catarina Costa, Barbara Timo e mais uma série de atletas. O dinheiro não é elástico, não dá para tudo. Temos andado sempre a pedir adiantamento das verbas, mas não temos o dinheiro que a Telma gostava", concluiu o presidente da FPJ..A presidente da Comissão de Atletas Olímpicos (CAO), Diana Gomes, revelou-se esta segunda-feira "extremamente preocupada" com o "grito de revolta" de Telma Monteiro, em rutura com a federação, apelando aos judocas em situação idêntica que "confiem na tutela".."É mais do que um desabafo, sem dúvida. É um grito de revolta. Estou preocupada, preocupadíssima com os resultados e a preparação destes atletas. Trata-se de carreiras olímpicas. Deixa-me extremamente preocupada", assumiu a dirigente, em declarações à Lusa.."É muito duro de ver, principalmente tendo sido atleta e também ter vivido questões semelhantes. Acima de tudo é conseguir utilizar o que nos pode deitar abaixo para nos tornar mais fortes. E então no judo... há-de ser um exercício de tática, mas também de impulso. Têm de usar estas motivações em seu proveito próprio", aconselhou..Diana Gomes sugere aos judocas que "utilizem, para proveito próprio, a raiva que vão sentido com estes problemas".."É a única forma de conduzir tudo que está a acontecer. A nível pessoal, das suas carreiras, a nível mental, a carga que estão a receber é altíssima. Têm mesmo de virar o jogo a seu favor", desafiou.."O que podem fazer? Têm de confiar na tutela. Consegui saber que já estão a averiguar a situação. O que tinha sido acordado, se o consenso a que chegaram está a ser cumprido. Sei que estão atentos, extremamente preocupados também. E sei que já estão em movimento. Temos todos de confiar que daí sairá um resultado para os atletas nesta situação extrema", sublinhou a presidente da CAO..A dirigente recorda que o investimento do projeto olímpico "existe porque há atletas e é feito na sua preparação, não nas federações em si", pelo que entende que a situação tem de ser "realmente averiguada", algo que, conta, "o IPDJ (Instituto Portugês do Desporto e da Juventude) já está a fazer"..No verão, sete judocas -- Telma Monteiro, Catarina Costa, Patrícia Sampaio, Rochele Nunes, Bárbara Timo, Anri Egutidze e Rodrigo Lopes - escreveram uma carta, na qual acusavam o presidente da FPJ de opressão, discriminação e ameaças, lamentando o "clima insustentável e tóxico" que estavam a viver..Poucos dias depois, a selecionadora nacional Ana Hormigo solidarizou-se com os judocas, afirmando que os mesmos "estão exaustos" e que "não querem estar sujeitos a um sistema que nem se digna a ouvi-los".."Os atletas têm uma oportunidade única nas suas vidas de fazer as suas carreiras, representar o seu país e mostrar a sua melhor performance, enquanto nas federações os presidentes e direções vão sendo substituídas e lá continuam", desabafou..Diana Gomes disse ainda que tem conhecimento de que há mais atletas "descontentes" com a gestão de Jorge Fernandes, além dos sete que assinaram a carta aberta.