Taça da Liga. Arouca e Ac. Viseu desafiam poderio de Sporting e FC Porto

Contra todas as previsões, Académico de Viseu e Arouca marcam presença na Final Four que amanhã começa em Leiria. Do outro lado estão os dragões que nunca venceram o troféu e os leões que têm no treinador Rúben Amorim um "papa taças".
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Nas 15 edições já disputadas na Taça da Liga apenas em duas ocasiões a vitória final fugiu a um dos quatro emblemas que têm dominado o futebol português neste século. Sucedeu logo na primeira edição, quando o Vitória de Setúbal, ainda com algum vigor, se impôs ao Sporting de Paulo Bento no desempate por penáltis, e na 10ª edição, com o Moreirense a afastar o Benfica (que vencera as três finais anteriores) antes de bater o Sp. Braga na final graças a um golo de penálti em cima do intervalo.

Devido à realização do Mundial no inverno, este ano a prova disputou-se em moldes diferentes daqueles que tem sido hábito, com oito grupos e quartos-de-final para apurar os finalistas - permitindo assim às equipas dos dois escalões profissionais manterem-se em atividade durante esse período - e projetou mais dois outsiders que vão tentar a sua sorte e engrossar o palmarés da denominada, desde 2018/19, Allianz Cup (já foi Carlsberg Cup e Taça CTT, além de um período em que não teve patrocinador): Académico de Viseu, da II Liga, e Arouca.

O primeiro embate joga-se esta terça-feira em Leiria, cidade encarregue da organização da "Final Four" pelo terceiro ano (além da final de 2014), e coloca frente a frente o Sporting, atual detentor do troféu, e os arouquenses, com quem já perdeu esta época. Quarta-feira será a vez do FC Porto de Sérgio Conceição defrontar os viseenses, orientados pelo seu ex-colega Jorge Costa e que somam apenas quatro participações no primeiro escalão do futebol português (a última em 1988/89) e são o primeiro clube do segundo escalão a atingir a fase decisiva, depois da UD Oliveirense, em 2017/18, que perdeu com o V. Setúbal (0-2).

Numa prova "desenhada" para favorecer as quatro equipas mais fortes do futebol português - que, mesmo assim, só em duas ocasiões disputaram em conjunto a Final Four que se joga desde 2016/17, altura em que o vencedor da Taça da Liga passou a ser considerado o "Campeão de Inverno" numa jogada de marketing -, não deixa de ser extraordinário o feito do Académico de Viseu em marcar presença em Leiria. Apesar de não ter enfrentado nenhum dos tubarões, o clube viseense venceu um grupo com duas equipas da I Liga (Famalicão e Estoril) e ainda afastou outra nos quartos-de-final (Boavista).

Desde a chegada de Jorge Costa ao comando técnico (sucedendo a Pedro Ribeiro e Pedro Bessa), no início de setembro quando a equipa vegetava no 17º posto do segundo escalão, o Académico tem feito uma época impressionante. Apesar de ter perdido na estreia (2-1 na Amadora), aquele a quem chamavam "Bicho", nos seus tempos de jogador, arrancou para uma sequência impressionante que já vai em 20 jogos sem qualquer derrota - mesmo que os últimos dois tenham acabado em empate, sempre foram 14 vitórias neste período -, colocando a equipa na luta pela promoção (além de ainda estar na Taça de Portugal e na Taça da Liga), isto apesar de o técnico ter dito no último sábado não ser candidato a nada.

Fundado em 1914, o Académico de Viseu só regressou aos escalões profissionais em 2013, depois de anos muito difíceis em que chegou a cair no futebol distrital. Nestes anos, o melhor que conseguiu foi um terceiro lugar (2017/18) e só a compra de 51% da SAD em 2021 por parte da HOBRA (empresa alemã especializada em investimentos desportivos, com ligações ao milionário Dietmar Hopp, grande responsável por colocar o Hoffenheim no mapa do futebol alemão) parece ter dado um novo impulso ao futebol dos beirões.

"O nosso investimento está planeado a longo prazo no futebol português e estamos entusiasmados com a missão de acompanhar este clube e os seus adeptos numa trajetória futura", referiu Mariano Maroto López, administrador da empresa, aquando da concretização do negócio. "Nas conversações chegámos rapidamente à conclusão de que a abordagem a longo prazo da empresa e seus representantes são uma excelente opção para o Académico e para nós", garantiu António da Silva Albino, presidente do clube que ficou como administrador da SAD. E, para já, assim parece ser.

Já o Arouca, fundado em 1952, saltou para a ribalta quando Carlos Pinho, o empresário da construção civil que chegou à presidência do clube em 2006, teve a visão de contratar Jorge Gabriel para adjunto da equipa (foi promovido na época seguinte a técnico principal) que atuava no Distrital de Aveiro. A chegada do apresentador de televisão, que tirara o curso de treinador, deu um impulso mediático aos arouquenses que, no aspeto desportivo, tiveram uma ascensão meteórica para uma localidade com apenas cerca de 20 mil habitantes, chegando à I Liga em seis épocas e acabando mesmo por conseguir qualificar-se para as pré-eliminatórias da Liga Europa de 2016/17, nas quais só caiu aos pés do Olympiacos, no prolongamento.

A cumprir o oitavo mandato na presidência, Carlos Pinho viu a equipa descer nessa mesma época ao segundo escalão, mas não desistiu. A aposta em Armando Evangelista em 2020 foi certeira, com o técnico vimaranense (que no último fim de semana celebrou o 100.º jogo no cargo) a conseguir a subida e, na época passada, a manutenção na na I Liga.

Este ano, e apesar de um arranque complicado (apenas nove pontos à oitava jornada e um 0-6 na receção ao Sp. Braga), a equipa conseguiu estabilizar e está perto dos lugares europeus - além, claro, de participar nesta Final Four depois de ir ganhar a Moreira de Cónegos, onde o Benfica não passou. Com jogadores experientes, como João Basso, Alan Ruiz, David Simão, Arsénio ou Tiago Esgaio, e uns talentos inesperados, como o goleador palestiniano Oday Dabbagh (a cumprir a segunda época no clube), o Arouca tem sido uma das surpresas agradáveis desta época em Portugal.

Obviamente, FC Porto e Sporting partem como grandes favoritos, embora tenham um historial completamente distinto na Taça da Liga. Para os nortenhos, esta é a prova nacional que nunca venceram, embora já tenham estado em quatro finais, sendo derrotados por Sp. Braga (duas vezes), Benfica e Sporting. Por isso mesmo, na época passada, Sérgio Conceição não escondeu a sua enorme frustração quando o clube foi eliminado na fase de grupos, por causa de uma surpreendente derrota nos Açores, perante o Santa Clara (1-3).

"Gostava de oferecer este título a Pinto da Costa. Somos obcecados por títulos e ficaria satisfeito se o pudesse oferecer ao presidente. O grupo de trabalho quer muito oferecer este título ao presidente", assinalara na véspera da partida o técnico portista. Esta temporada, o arranque também não foi o melhor, com um empate caseiro perante o Mafra (2-2), mas uma vitória em Chaves (2-0) e uma goleada ao Vizela (4-0), colocaram a equipa nos quartos-de-final, onde bateu tranquilamente o Gil Vicente (2-0).

Já o Sporting surge em Leiria com quatro vitórias nas derradeiras cinco edições da prova - e um técnico que levantou os últimos três troféus, o primeiro deles ainda no Sp. Braga. Com uma caminhada 100% vitoriosa e goleadora (incluindo um 5-0 aos bracarenses nos quartos, depois de seis ao Farense, dois em Vila do Conde e outros cinco ao Marítimo), a verdade é que Rúben Amorim tem aqui a grande possibilidade de conquistar um um troféu numa temporada pautada pela irregularidade de uma equipa "bipolar", como o treinador a definiu. Longe do líder da I Liga e fora da Taça de Portugal, depois só sobra mesmo a Liga Europa, onde um triunfo leonino parece bem mais improvável.

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