A assembleia que vai ditar o fim ou a legitimação da era Bruno de Carvalho

São três os pontos da ordem de trabalhos. Basta uma reprovação para o atual presidente sair e o clube ir para eleições

Numa altura crucial da época desportiva em todas as modalidades, o Sporting decide hoje em assembleia geral (AG), agendada para as 14.00, muito do seu futuro com a certeza de que nada se manterá como antes. Bruno de Carvalho, que pede nesta reunião magna um cabal esclarecimento dos sócios leoninos, ou sai ou ficará ainda mais legitimado, quase um ano depois de ter vencido as eleições para a presidência com 86,13%.

Para que se perceba, a AG tem três pontos na ordem de trabalhos: aprovação da alteração aos estatutos do clube, aprovação do regulamento disciplinar do clube e continuidade do mandato dos atuais órgãos sociais. Os primeiros dois pontos, à luz dos atuais estatutos, só são aprovados com uma maioria de 75%, caso contrário são chumbados. O terceiro e último ponto não tem essa carência, mas Bruno de Carvalho elevou a fasquia, exigindo os mesmos 75%. O atual líder disse que retiraria imediatamente os pontos 2 e 3 se o primeiro não passasse, mas é intenção de Jaime Marta Soares que a votação seja feita em simultâneo para os três pontos.

Os estatutos

Na ordem de trabalhos da última AG já constavam as alterações aos estatutos e a aprovação do regulamento disciplinar, mas o burburinho verificado impediu que a AG se concluísse. Mas, afinal, quais são as alterações aos estatutos?

Para quem se debruça sobre as propostas de alterações, saltam à vista a extinção do conselho leonino, o que já vinha consagrado no último programa eleitoral de Bruno de Carvalho, a implicação da renúncia do presidente abranger todos os órgãos sociais e a aprovação em AG de "realização de gastos e investimentos" superiores ao orçamentado. Ou seja, o conselho diretivo para gastar um euro a mais do que aquilo que orçamenta precisa da aprovação dos sócios quando, até agora, podia haver um desvio de 10%.

O conselho leonino é extinto e em sua substituição pode surgir, se o presidente assim o entender, "um conselho estratégico até 15 pessoas de natureza meramente consultiva do presidente do conselho diretivo, tendo em vista recolher aconselhamento na definição de estratégias a seguir para o desenvolvimento a médio e a longo prazo das atividades do clube".

Há ainda a pretensão de terminar com o método de Hondt na eleição do conselho fiscal e disciplinar, o que tem levado o órgão a ser composto por elementos de diversas listas, conforme a percentagem de votos. Se a proposta de alteração for aprovada, o conselho disciplinar será constituído pela lista vencedora na sua totalidade.

Para Daniel Sampaio, mandatário de Bruno de Carvalho nas últimas eleições, as "alterações estatutárias propostas são importantes, sobretudo a da extinção do conselho leonino". E explica porquê: "Já integrei o conselho leonino durante uma época de grave crise e esse órgão de nada serviu."

Carlos Severino, rosto da oposição a Bruno de Carvalho e candidato derrotado nas eleições de 2013, acredita que a "alteração de alguns pontos dos estatutos visa dotar o presidente de um poder mais concentrado". E continua: "Como exemplo, aponto o facto de trocar um órgão social, o conselho leonino, com 50 sportinguistas, pelo órgão presidente, com direito a escolher, aleatoriamente, até 15 conselheiros para consulta." No que diz respeito à intenção de terminar com o método de Hondt, Carlos Severino mais uma vez discorda: "Parece-me desajustado. Por muito que se diga que não é prático, torna mais vulnerável a fiscalização da gestão do clube, uma vez que é sabido que, sendo eleito na lista vencedora, poderá sempre levantar dúvidas pela lealdade que terá para com o presidente do conselho diretivo."

A finalizar a alteração dos estatutos, Severino refere ao DN que nos temas mais complexos "a votação deverá ser feita artigo a artigo", o que não está, para já, previsto e vai depender logicamente da mesa da AG, presidida por Jaime Marta Soares.

O regulamento e a desinformação

O conhecido jurista Bacelar Gouveia foi presidente do conselho fiscal e disciplinar no primeiro mandato de Bruno de Carvalho. Não foi reconduzido, por opção própria, mas revela ao DN que o regulamento disciplinar que hoje será submetido à aprovação começou a ser discutido internamente ainda quando fazia parte dos órgãos sociais.

"Trata-se de um assunto que acompanhei quando fui presidente do conselho fiscal e disciplinar em relação ao qual tem havido muita desinformação. É inacreditável como o Sporting é o único grande clube que não tem um regulamento disciplinar, sendo certo que a sua aprovação estabelecerá regras onde elas não existem, assim garantindo uma maior segurança jurídica em situações sempre sensíveis como são os processos disciplinares. Sem este regulamento, uma infração disciplinar pode só prescrever ao fim de 20 anos, o que é um absurdo", sustenta o antigo deputado, numa opinião partilhada por Daniel Sampaio: "O regulamento disciplinar não existia até agora e é bom que passe a existir."

Para Carlos Severino, que apelida com alguma ironia o regulamento disciplinar de "inovador", quem não tiver a mesma opinião que aqueles que estiverem no poder pode vir a ter problemas. "Olhando para o ponto dois, trata--se de um extenso documento que contém situações suscetíveis de interpretação diversa. O que é ofensa? O que é difamação? Como é que sócios denunciam outros sócios? Tudo parece construído para fazer uma perseguição imensa a quem discordar de quem dirige, o que me parece desajustado numa instituição democrática como é o Sporting Clube de Portugal. Apetece-me citar Edmund Burke: "Quanto maior o poder, mais perigoso é o abuso.""

A previsão e o conselho

Se Bruno de Carvalho obtiver a aprovação destes dois pontos vai saber se os sócios querem a manutenção dos atuais órgãos sociais. E para isso exige, para permanecer, 75% - o que não é necessário à luz dos estatutos. "Concordo com o pedido de confiança do conselho diretivo. É necessário que a oposição apresente propostas diferentes das da direção e que esta possa sentir-se reforçada, embora com respeito por opiniões diferentes", sublinha Daniel Sampaio, que vê Bruno de Carvalho e a sua equipa manterem-se à frente dos destinos leoninos no final deste sábado. "Prevejo que as propostas de Bruno de Carvalho serão aprovadas com a maioria pretendida. Os sócios vão lembrar-se de todo o trabalho feito; reorganização financeira, melhoria notável nas modalidades, construção do Pavilhão João Rocha, equipa principal de futebol em todas as frentes, Sporting ouvido com respeito", refere o psiquiatra, que votará "a favor dos três pontos", ainda que deixe um conselho ao atual presidente: "Penso que seria bom que Bruno de Carvalho tivesse mais tranquilidade em responder às críticas."

Também Jorge Bacelar Gouveia não equaciona o fim da era Bruno de Carvalho: "Vou estar na Assembleia Geral e votarei sim em todas as propostas, desejando que Bruno de Carvalho tenha a votação que pede, para que possa continuar a sua gestão. Faço um apelo a que todos os sportinguistas lhe deem esse voto de confiança porque é uma aspiração legítima ter condições de estabilidade para continuar. O Sporting é uma democracia e quem está contra esta direção já teve ocasião de se candidatar, tendo obtido 13% dos votos. Não podem agora, a pretexto da discussão interna, "sabotar" uma gestão que terá continuidade, exercendo o seu mandato."

O crítico Carlos Severino, por seu turno, não abre o jogo: "O voto é secreto. Jaime Marta Soares já garantiu que assim será." Independentemente da aprovação dos pontos da ordem de trabalhos, o candidato derrotado em 2013 entende como prejudicial ao Sporting a decisão de Bruno de Carvalho em renunciar ao mandato: "Apesar da ameaça latente anunciada pelo atual presidente do conselho diretivo, não será nada positivo para o Sporting que os órgãos sociais renunciem ao mandato para que, legitimamente, foram eleitos. Seja qual for a votação dos diversos pontos, acho que devem continuar e penso que será isso que vai acontecer."

Fica por esclarecer é se Carlos Severino, que foi severamente criticado por Bruno de Carvalho na última AG, vai comparecer na primeira reunião magna realizada no novel Pavilhão João Rocha. "Apesar de ter recebido ameaças várias para não ir à assembleia geral, tenho toda a intenção de estar presente", disse, sem especificar.

Pedro Madeira Rodrigues, candidato derrotado nas eleições do ano passado, está ausente em Israel e por isso impedido de estar hoje na AG. Mas apelou aos sócios do Sporting que mostrem que são "leões e não carneiros", referindo que esta é uma oportunidade de votar contra "a implementação de uma lei da rolha".

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG