Foi a Espanha a abrir as fronteiras à seleção nacional

O primeiro jogo de Portugal foi em 1921, em Madrid. A derrota foi natural após muita polémica na escolha dos jogadores

A seleção espanhola está umbilicalmente ligada ao nascimento da seleção portuguesa, ou não tivessem sido os quatro primeiros jogos da história da equipa das quinas precisamente diante do país vizinho. Em 97 anos realizaram-se 38 dérbis da Península Ibérica, dos quais 28 foram de carácter particular. Na sexta-feira, a partir das 19.00, em Sochi, escreve-se mais um capítulo deste duelo, que marca a estreia das suas seleções no Mundial. Desde 1921 muita coisa mudou. O futebol ainda dava os primeiros passos em Portugal e era marcado pelo amadorismo, mesmo assim as polémicas já marcavam a atualidade...

Uma guerra Lisboa-Porto

O jogo mais emblemático entre as duas seleções terá mesmo sido o que lançou a carreira internacional da equipa das quinas. Esteve para se realizar em 1912, mas a falta de acordo entre as duas equipas inviabilizou a estreia, pois os espanhóis queriam que os portugueses suportassem todas as despesas da partida. Oito anos depois iniciaram-se novas negociações e, depois de alguns adiamentos, lá acabou por se realizar o tão ansiado jogo a 18 de dezembro de 1921, em Madrid.

Só que até ao apito inicial do árbitro belga Barrette Cazelle para o primeiro jogo de Portugal registou-se muita polémica, à boa maneira portuguesa. E tudo por causa da escolha dos jogadores. Augusto Sabbo, então treinador do Sporting, ficou responsável pela convocatória, só que a primeira lista incluiu Francisco Pereira, do Belenenses, cuja chamada foi bastante questionada pela imprensa, o que levou o atleta a renunciar, algo que originou uma onda de solidariedade entre os azuis, desde logo com o irmão Artur José Pereira, considerado o melhor jogador nacional, e Alberto Rio, que também renunciaram.

Sabbo demitiu-se e os dirigentes portugueses nomearam um comité formado por Carlos Vilar, Pedro Del Negro, Reis Gonçalves, Virgílio Paula, Plácido Duro e Júlio de Araújo, que eram da Associação de Futebol de Lisboa. Nova polémica surgiu então, com os clubes da Associação do Porto, nomeadamente o FC Porto, a considerarem tratar-se de uma seleção de Lisboa, pois apenas um jogador, Artur Augusto (FC Porto), de clubes nortenhos tinha sido convocado. E mesmo neste caso defendiam que o jogador em causa tinha sido chamado por ter nascido em... Lisboa. O avançado acabou por se juntar à equipa nacional, à revelia dos dirigentes portuenses que haviam decretado a ausência dos seus atletas.

Gralha, o mais novo de sempre

Foi então com uma equipa composta por seis jogadores formados no Casa Pia, dos onze que jogaram, que a seleção partiu para Madrid, onde, no pelado do Campo do Atlético, a Espanha acabou por vencer por 3-1. Os portugueses queixavam-se de que o terreno de jogo era muito estreito e aos dez minutos já perdiam por 2-0. As 12 mil pessoas que assistiram à partida rejubilavam com a vantagem dos espanhóis, que haviam de chegar ao 3-0 aos 60 minutos. O momento de glória da equipa das quinas foi construído por dois irmãos: O portista Artur Augusto sofreu o penálti e Alberto Augusto, avançado do Benfica, marcou aquele que foi o primeiro golo de sempre da seleção nacional, e logo perante o mítico guarda-redes espanhol Ricardo Zamora, a quem chamavam de El Divino, e que atualmente dá nome ao troféu de melhor guarda-redes da Liga espanhola.

Dessa equipa fazia parte aquele que ainda hoje é o jogador mais novo de sempre a atuar com as quinas ao peito: José Gralha, do Casa Pia, que tinha na altura 16 anos, nove meses e cinco dias. Mas as curiosidades não se ficaram por aqui, pois dois meses antes o defesa Jorge Vieira (Sporting) tornou-se o primeiro árbitro português a apitar um jogo internacional, um Espanha-Bélgica (2-0), em Bilbau. Essa seleção teve como primeiro guarda-redes Carlos Guimarães (CIF) e contou na defesa com João Francisco (Sporting), que quatro anos depois viria a ser o marcador do golo da primeira vitória de Portugal, em 1925, frente à Itália (1-0) no então Estádio do Lumiar.

Capitão antifascista

O capitão dessa primeira seleção nacional era Cândido de Oliveira, casapiano e um dos fundadores do jornal desportivo A Bola. Além de futebolista, jornalista - passou pela redação do DN na década de 40 -, treinador, selecionador nacional e escritor, notabilizou-se na luta antifascista, tornando-se até agente secreto em Portugal para Inglaterra e dos aliados, com o nome de código Pax. Em março de 1942 foi detido pela PIDE e, depois de espancado, foi mandado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, acabando por ser libertado no final da Segunda Guerra Mundial.

Esta seleção contou também com outro fundador de A Bola, o avançado Ribeiro dos Reis, também ele casapiano, que além de jornalista fez a sua carreira de jogador no Benfica, tendo ainda sido treinador dos encarnados e selecionador, que orientou a equipa na primeira vitória de Portugal. Além disso, foi o primeiro árbitro a integrar o Comité de Arbitragem da FIFA.

O primeiro guarda-redes da seleção foi Carlos Guimarães, que representava o CIF, enquanto no meio-campo pontificava o benfiquista Vítor Gonçalves, pai de Vasco Gonçalves, um dos militares de Abril, que se tornou primeiro-ministro dos II, III, IV e V governos provisórios, no período do PREC.

O primeiro onze da seleção que ficou para a história do futebol português tinha ainda o defesa Pinho e Augusto Lopes, que também faziam parte da equipa do Casa Pia.

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