O contributo das mulheres para a promoção do ecletismo do Benfica é hoje um facto inegável. Se, em 1911, Carolina Beatriz Ângelo, viúva do presidente do Benfica, Januário Barreto, se tornou na primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto em Portugal depois de uma luta pelos direitos da mulher em tribunal, 111 anos depois o clube da Luz continua a honrar a história com a aposta (e sucesso) no desporto feminino..A época 2021-22 terminou com seis campeonatos nacionais conquistados e múltiplos troféus. Ao sucesso das equipas femininas de andebol, basquetebol, futsal, futebol, hóquei em patins e polo aquático junta-se ainda a forte aposta em modalidades como o atletismo ou o judo e no projeto olímpico, que é liderado por Ana Oliveira e tem tido Telma Monteiro como rainha incontestável. Ao todo são 174 as atletas que representam Benfica a nível sénior (e muitas mais na formação), num total de 15 modalidades..O hóquei em patins foi campeão pela nona vez consecutiva e igualou o feito das Marias (a famosa equipa de voleibol nos anos 60 e 70), que é também o recorde benfiquista nas modalidades de pavilhão. Foi a última modalidade de pavilhão a ser criada (2012) e terminou a época com mais uma Taça de Portugal (a oitava da história) ao vencer o Sporting na final. Já tinham erguido a Supertaça e falhado por pouco a final da Liga Europeia capitaneadas por Marlene Sousa.."O Benfica é um exemplo para qualquer clube em Portugal e no Mundo. Basta olhar para os números e o desempenho das equipas femininas. Além de investir nas equipas e formar campeões também investe na formação das pessoas. Eu tirei um curso universitário com uma bolsa do clube", revelou ao DN Marlene Sousa..A hoquista reconheceu que vive uma realidade que há anos julgava impensável: "Temos treinador, treinador-adjunto, scouting, médico, fisioterapeuta, fisiologista, nutricionista... Neste momento só temos de nos preocupar em jogar e mais nada." E embora saiba que esta realidade não se aplica a todos os clubes, espera que o exemplo das águias possa chamar mais praticantes mulheres (menos de 600 no país)..Hoje em dia, Marlene sente que já é "olhada como atleta e não como mulher que joga". E isso para "vale mais que um golo ou um troféu pessoal". Segundo a capitã do Benfica, "existe uma cumplicidade e união grande" entre as atletas das várias modalidades do clube: "Fui ver uma final do basquetebol e, na nossa final da Taça de Portugal, vi colegas do futsal e do voleibol nas bancadas. Se queremos mais visibilidade e mais pessoas a ver-nos nos pavilhões temos de nos unir e apoiar a nossa colega de profissão.".Quatro anos após o regresso das águias ao andebol (modalidade criada em 1972) e 29 anos passados desde o último título nacional, as Papoilas Rubras voltaram a ser campeãs este ano e conquistaram ainda a Taça de Portugal. A dobradinha premiou uma equipa que em 31 jogos venceu 30 (!) e empatou um..Um registo quase imaculado que teve repercussão no basquetebol, que revalidou o título nacional e ainda lhe juntou a Taça de Portugal, a Supertaça e a Taça Federação. Tudo isto com apenas duas derrotas em 38 jogos. Troféus que honram o pioneirismo do clube no basquetebol feminino, criado há 90 anos - depois de varias interrupções voltou para ficar em 2010..Mais recente (criada em 2002), mas com um rotundo sucesso, a equipa de futsal sofreu muitas mudanças no início da época, mas em campo as novas águias não deram espaço às adversárias e fizeram história com um inédito pentacampeonato, já depois de vencerem a Supertaça (também pela quinta vez consecutiva), falhando a final da Taça da Liga e perdido a Taça de Portugal..Fora dos pavilhões, o polo aquático festejou o título pelo terceiro ano consecutivo e o futebol feminino sagrou-se bicampeão, após vencer o Sporting (3-1), em maio, perante 14 221 espetadores (um recorde de assistência num jogo, nas bancadas do Estádio da Luz). A temporada ficou também marcada pela presença inédita na Liga dos Campeões de uma equipa portuguesa e disfarçou a derrota na final da Taça da Liga, a Supertaça perdida e a fraca participação na Taça de Portugal (eliminadas nos oitavos-de-final). O futebol feminino é uma das grandes apostas do presidente Rui Costa e, segundo soube o DN, o orçamento da equipa principal já supera o da equipa B masculina..Das modalidades coletivas de pavilhão, o voleibol foi o único em que o Benfica não se sagrou campeão. Depois do estrondoso sucesso das Marias, a secção passou por uma crise profunda e fechou entre 1994 e 2018. Desde então luta pelo almejado título. Este ano a equipa que subiu de divisão em 2019-20, terminou a temporada no quarto lugar e foi eliminada da Taça de Portugal nos quartos-de-final. Apesar disso, há jogos cuja assistência é superior à das equipas masculinas. No râguebi, o Benfica classificou-se em 4.º lugar na variante de 15 e em 3.º na variante sevens.."O Benfica sempre foi pioneiro na identificação e ambição de alcançar equilíbrios na prática desportiva nacional. Uma ainda maior aposta no feminino é dar continuidade ao nosso empenho na inversão da curva de decréscimo na prática desportiva das mulheres em Portugal, com a entrada na faculdade e o início da vida profissional. Hoje temos, com enorme orgulho, um universo eclético feminino extenso e, de ano para ano, temos feito um esforço por melhorar as condições de trabalho de todas as nossas atletas", enalteceu ao DN o vice-presidente do Benfica para as modalidades, Fernando Tavares..A aposta não foi apenas na prática desportiva, mas "em todas as áreas ligadas à performance" e ao nível das estruturas e infraestruturas. As modalidades femininas têm quatro team managers, uma delas Rita Martins, considerada a melhor jogadora de futsal do século pela Federação. E praticamente todas as atletas têm o apoio regular de profissionais do Benfica nas mais diversas áreas. E, em alguns casos, de verdadeiras equipas multidisciplinares: "Que ninguém despreze nunca o capital humano que investimos no universo desportivo.".Segundo o dirigente, o Benfica trabalha agora "para que o acompanhamento regular da parte de análise do treino, observação, vídeo, etc., seja uma realidade normal em todas as equipas femininas, o que já sucede praticamente desde o início da equipa de futebol"..E, como o sucesso não tem preço, o clube prefere "não divulgar publicamente" quanto já investiu ou investe no desporto feminino: "O objetivo maior é inscrever o nome do Benfica nas vitórias, mas nunca esquecer os valores humanos e o papel de vulto que tem no país para melhorar a prática desportiva e potenciar, até, reequilíbrios na sociedade. Questiono: que outro clube, ou mesmo entidade ou organização desportiva, investe tanto em Portugal? Que outro clube, possivelmente mesmo a nível internacional, acredita tanto, como o Benfica, que tem mulheres a competir por títulos no futebol, andebol, basquetebol, futsal, hóquei em patins, voleibol, atletismo, canoagem, polo aquático, râguebi, natação, triatlo, ginástica, judo e outros desportos de combate, etc.?".Para Fernando Tavares, uma das maiores vitórias é poder dizer que muitas das atletas já conseguem "ambicionar uma carreira". Também por isso, a questão da igualdade de género talvez deva começar nas oportunidades.."Temos de ter noção do terreno que pisamos. Estamos num país que, no seu todo, tem de acreditar mais no desporto e investir em infraestruturas que descubram mais talentos e os potenciem para o nível que podem alcançar. Há muitos rapazes e raparigas a sonhar e a tentar ser atletas em Portugal, mas muitos em competições seniores não têm campos, locais de treino, um balneário com condições. O Benfica é um clube de milhões e o que exigimos a nós mesmos é propiciar as melhores oportunidades possíveis. Quem vem para as nossas equipas sabe que beneficiará de uma visibilidade e um enquadramento de topo que provavelmente não conseguirá equiparar-se em muitos clubes", defendeu o vice-presidente..isaura.almeida@dn.pt