Só uma hecatombe tira o título de Campeão do Mundo de F1 a Kimi Antonelli este fim de semana no México
O Autódromo Hermanos Rodríguez prepara-se para acolher este fim de semana um daqueles momentos que ficam gravados na história do desporto. Aos comandos de um monolugar que se revelou a referência da época, Andrea Kimi Antonelli entra no Grande Prémio da Cidade do México com uma oportunidade matemática invejável para se tornar (com 20 anos e 68 dias) o mais jovem Campeão do Mundo de Fórmula 1. Tudo correndo de feição para o italiano, baterá Sebastian Vettel por 3 anos, 2 meses e 4 dias – o alemão conseguiu o feito a 14 de novembro de 2010.
A fasquia é ainda mais formidável se pensarmos que o título será conseguido deixando quatro Grandes Prémios ainda por disputar. E só mesmo uma hecatombe desportiva ou uma conjunção de azares não o coroará campeão.
Para que a consagração não aconteça já este domingo, a matemática exige uma combinação de acontecimentos improvável. Antonelli chega à 20.ª ronda com 365 pontos acumulados e uma margem de 123 pontos sobre o companheiro de equipa, George Russell – e 124 sobre Lewis Hamilton (Ferrari). Como, após a bandeira de xadrez ser mostrada na cidade do México, ficarão em disputa apenas 100 pontos nos quatro Grandes Prémios que faltam, basta ao jovem italiano cruzar a meta no 9.º posto para somar os dois pontos necessários à garantia matemática do título, independentemente do que façam todos os rivais diretos.
Ou seja, para não fazer já a festa, Antonelli teria de abandonar a prova, ou terminar em 10.º ou pior. E essa desgraça teria de coincidir com o triunfo de Russell ou de Hamilton. Se a vitória sorrir, por exemplo, a Max Verstappen, Charles Leclerc, Lando Norris (ou qualquer outro concorrente), o título viaja de imediato para as mãos do jovem prodígio – mesmo que o seu monolugar fique imobilizado logo na primeira curva da corrida...
Esta caminhada triunfal resulta de um trajeto desenhado com autoridade desde o início da primavera europeia. Com nove triunfos conquistados (até à data), o último dos quais alcançado com mão de ferro no Texas, o piloto de Bolonha exibiu uma maturidade muito invulgar para a idade. Num ano de transição, Antonelli soube explorar a eficácia mecânica do W17 sem cometer erros de vulto, aliando voltas demolidoras em qualificação a uma sensibilidade notável na gestão dos pneus sob pressões térmicas extremas. Do asfalto veloz de Spa e Silverstone aos traçados citadinos, a consistência do italiano foi sufocando a oposição.
Olhos postos no 2.º lugar
Com o topo da tabela praticamente decidido, o pulsar emotivo da Fórmula 1 transferiu-se para uma das lutas pelo vice-campeonato mais renhidas da era recente. Separados por apenas nove pontos, quatro pilotos discutem a prata: George Russell chega ao México com 242 pontos, mas sente o bafo de Lewis Hamilton, com menos um apenas. Logo atrás surge Max Verstappen (Red Bull), combativo, com 236 pontos. E Charles Leclerc, no outro Ferrari, soma 233 pontos, pelo que não pode ser descontado.
O critério de desempate, centrado na contagem do número de vitórias, confere vantagem direta a Russell, que conta três triunfos contra os dois de Verstappen e as únicas vitórias de Hamilton e Leclerc, obrigando a Scuderia a uma toada de ataque absoluto.
O palco desta batalha não poderia ser mais exigente. Erguido a mais de 2200 metros de altitude, o traçado mexicano impõe um ar rarefeito que reduz a densidade atmosférica em cerca de 25%. As equipas recorrem a asas de apoio máximo como no Mónaco, mas a sustentação real equivale à de Monza, gerando velocidades de ponta superiores a 350km/h na reta principal.
A refrigeração dos travões e da unidade motriz representa o maior quebra-cabeças mecânico do fim de semana, com o turbo forçado a rodar em regimes limite para compensar a escassez de oxigénio. Numa pista escorregadia e propensa ao fenómeno de granulação na borracha, o equilíbrio mecânico nas curvas lentas do emblemático setor do estádio ditará o ritmo dos perseguidores.
Dada a diferença horária, o Grande Prémio da Cidade do México vê-se em Portugal à noite.

