Com mais de duas décadas de carreira como treinador, Rui Vitória passou por alguns dos momentos mais marcantes do futebol português: venceu a Taça de Portugal pelo Vitória de Guimarães, foi campeão pelo Benfica, lançou jogadores que hoje estão entre os nomes maiores do futebol europeu e construiu depois um percurso internacional entre Arábia Saudita, Egito, Rússia, Grécia e Emirados Árabes Unidos.Nesta conversa com o Diário de Notícias, o treinador olha para trás sem nostalgia excessiva, mas com consciência do caminho feito. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, qual é que considera ter sido o momento mais determinante?Já tive vários, felizmente. Mas talvez o momento mais determinante tenha sido o momento menos positivo que tivemos em Fátima, em que estive na iminência de sair do clube. Depois, em conversas com um amigo isso fez-me aguentar mais um bocado. E aguentar mais um bocado possibilitou que continuasse no clube, que viesse a subir de divisão, a fazer uma boa prestação na II Liga e, depois, a ter acesso à I Liga através do Paços de Ferreira.Acho que esse momento foi daqueles em que, talvez, se tivesse desistido naquela altura, se tivesse pensado “isto está a correr mal, vou sair”, eventualmente as coisas não seriam como são hoje.Tem treinado em contextos completamente diferentes, não só em termos de apoios e estrutura de futebol, mas também em termos socioeconómicos e políticos. O que é que aprende com cada uma dessas situações? É fácil adaptar-se?Aprendo tanto. Quando entrei para o Benfica, fazendo uma pequena retrospetiva, pensava que já era um treinador com alguma capacidade. E era. Mas depois, quando saí do Benfica, era um treinador completamente diferente, porque o mundo que se vive num clube grande dá-nos um conjunto de vivências de importância capital.Também pensava que já tinha chegado a um estado bom da minha profissão, mas depois, quando vamos para o estrangeiro, temos a noção — eu fiquei com a perfeita noção — de que não sabia nada.Não sabia nada como?Não sabia nada do que é o ser humano, do que é a cultura, do que é a vida por este mundo fora. Nós temos muitas vezes esta tendência para estar fechados na nossa vizinhança, na nossa bolha, e pensar que este é o nosso mundo. Quando começamos a conviver com outras realidades, percebemos que há muito mais além disto.Essa foi uma aprendizagem que tenho vindo a fazer ao longo destes anos. Estas experiências no estrangeiro, em diversos contextos culturais, foram fundamentais para eu entender a vida e também para ser melhor treinador e melhor pessoa. O mundo é completamente diferente do que muitas vezes imaginamos.A capacidade de decisão e a liderança são fatores essenciais para o sucesso de um treinador? O que considera que foi fundamental no seu percurso?Penso que há um conjunto de áreas onde o treinador hoje tem de navegar. Não precisamos de perceber 100% de uma coisa, mas precisamos de perceber 70% ou 80% de várias áreas e andar bem nessas águas. Não dominamos tudo, mas temos de saber do que estamos a falar.Depois, há o saber que estamos a lidar com pessoas. Há uma confusão tremenda nas questões do treino, da liderança e das equipas. Muitas vezes temos a noção de que, por estarmos a trabalhar com jogadores que ganham milhões, eles são máquinas. Não são. São seres humanos iguais a tantos outros.Com equipas multidisciplinares, psicólogos, terapeutas e até psiquiatras, qual é hoje o papel do treinador junto dos jogadores?O papel é ter capacidade para perceber o que se passa ali. Com muitos anos de experiência, recebemos os inputs de quem está ao nosso lado, dessas áreas de suporte, que vão dando feedback. Depois também faço a minha leitura.Acho que temos de ter esse feeling para perceber como tocamos naquele jogador. Os jogadores são pessoas e temos de conseguir tocar na tecla certa. Todos os seres humanos têm necessidades. Pode ser uma necessidade financeira, social, familiar. Temos de descobrir o que aquele homem precisa, o que aquele jogador precisa.Muitas vezes temos de arranjar caminhos: através de um adjunto, de outra pessoa, de um amigo. Às vezes é preferível passar uma mensagem por outra via: “Diz-lhe que trabalhe, que se mantenha calmo, que o momento vai chegar.” .Falemos da Taça de Portugal conquistada pelo Vitória de Guimarães, que foi e continua a ser um marco no clube. O que significou para si essa conquista?Foi um título importantíssimo. O Vitória nunca tinha conquistado uma Taça de Portugal em mais de cem anos de história, e isso mostra a importância. Para mim foi também passar um patamar enquanto treinador. Essa final foi muito importante porque tivemos um período de preparação exaustiva. Costumo dizer, a brincar, que parecia um treinador a sério. Pensámos numa série de coisas e tudo teve uma relação causa-efeito tremenda. A preparação do jogo, o jogo em si, as substituições, o discurso… Tudo estava muito pensado.Nada foi improvisado?Nada. Foi tudo muito bem preparado. Às vezes há momentos num jogo em que vem qualquer coisa cá de dentro e fazemos uma avaria qualquer. Ali estava tudo mais ou menos estipulado: se estivéssemos a perder, faríamos isto; se estivéssemos a perder ao intervalo, diria aquilo aos jogadores.Claro que há sempre o fator sorte no futebol. O futebol não é uma ciência exata. Mas, no final, sentimos que valeu a pena. Trabalhámos, as coisas aconteceram e estávamos preparados para elas.Depois vem o Benfica, vêm títulos, lançamentos de jogadores, recordes. Qual foi o segredo para esse sucesso?Talvez uma das grandes partes desse segredo tenha sido ser eu mesmo. Quando cheguei ao Benfica, tinha crescido na carreira de forma muito natural, ultrapassando obstáculos. Queria mostrar que pessoas normais também podiam alcançar títulos. Corri muitos riscos, tenho essa noção.Sabia na altura que estava a correr riscos ou só percebeu depois?Sabia. O risco de entrar num clube bicampeão, vindo de um bom clube como o Vitória, mas que não estava naquele nível. O risco de lidar com jogadores que tinham sido bicampeões e tinham um passado muito grande. O risco de lançar jovens e fazer uma mudança logo na minha primeira entrada no clube, em articulação com o presidente e a direção. Fui meio tonto, porque apostei em jogadores jovens que ninguém conhecia. Hoje é muito bonito falar disso, mas naquela altura foi um risco tremendo. Acreditámos e fomos com isso. A época começou muito mal, mas depois demos a volta. Chegar com o barco a bom porto foi um desafio imenso e um privilégio enorme.É dos poucos treinadores com uma tripleta em Portugal e foi o último a conquistá-la. O que é que isso lhe diz hoje?Não ligo muito a essas questões. Às vezes até é contra mim, porque não ligo muito aos títulos e as pessoas têm de me recordar. Mas isso diz-me que fiz coisas bem feitas.Costumo dar este exemplo: o Ronaldo marca 30 golos na Arábia, mas estão lá outros avançados. Porque é que não marcam? Outros treinadores também passaram pelo Benfica. Porque é que não fizeram o mesmo? Isto dá-nos algum conforto. Há aqui um trabalho que foi feito e que tem de ser reconhecido..Quando vê jogadores como Rúben Dias, João Félix, Renato Sanches, Ederson, Nélson Semedo e tantos outros afirmarem-se, o que sente?Sinto um grande orgulho e um prazer enorme por os ver jogar a alto nível. Digo: “Estes também já me passaram pelas mãos.” Mas sinto também uma coisa de que às vezes não falo muito: que o meu feeling bateu certo. Hoje andamos muito na onda da tecnologia e dos dados, mas aquele feeling que tive naquela altura fez sentido. Acreditámos naqueles jogadores. Alguns já eram bons jogadores, mas por que razão não tinham sido utilizados antes? Havia ali uma convicção.Há jogadores que criam impacto em si logo à primeira vista?Há jogadores que criam impacto em mim e outros que não criam. Às vezes nem sei explicar. Gosto do estilo, da forma como se mexem. Quando era miúdo, lembro-me de um roupeiro que dizia: “Jogador de perna branca não dá jogador.” Só pela cor das pernas dizia logo que não era jogador. Estas coisas antigas, por mais curiosas que pareçam, às vezes fazem sentido.Sente mágoa pela forma como saiu do Benfica?Não direi mágoa. Acho que, muitas vezes, os treinadores não são devidamente reconhecidos. Presidentes, jogadores, há quem seja e há quem não seja. Em três anos e meio, tivemos seis títulos, lançámos jovens, poupou-se dinheiro em contratações e valorizou-se muito dinheiro em jogadores. Houve uma mudança de paradigma: provou-se que era possível ganhar com jogadores da formação e com mais portugueses.Os factos valem por si. Agora, há todo um mundo à volta — comunicação, marketing, relações — que influencia. Talvez o reconhecimento pudesse e devesse ter sido maior. Mas não vivo com trauma. Estou muito bem resolvido com tudo.Se um dia lhe dissessem: Rui, regressa ao Benfica? Regressava?Olho para essas questões com muita frieza e, ao mesmo tempo, com uma parte emocional. Às vezes vou para clubes porque sinto que há ali qualquer coisa: a cidade, o projeto, as pessoas com quem vou trabalhar, os jogadores, aquilo que posso acrescentar.Não direi que sim nem que não. Olharia e logo veria. Não gosto de fazer planos fechados. Se alguma vez me dissessem que eu teria este caminho no estrangeiro, diria que era maluquice. Eu nem me via imigrante. Saí da zona de Lisboa quando fui treinar o Paços de Ferreira. Depois tornei-me num imigrante que já foi da Arábia à Rússia, passando pelo Egito, Grécia e agora Emirados Árabes Unidos..Dessa experiência internacional, o que mais o marcou? Qual foi o país onde trabalhou que mais o marcou?O que mais me marcou foram as diferenças culturais. Isso é um enriquecimento tremendo. Sinto que, como treinador, tive de tomar decisões que me fizeram crescer. No Médio Oriente há muito isso: uma diferença cultural significativa. Temos de nos adaptar e resolver, não vale a pena chorar.Nessa geografia, o futebol tem crescido muito e há muitos portugueses. Estamos a deixar marca?Sim. Sobretudo na minha área, a do treinador e do treino, temos vindo a deixar uma marca bem vincada. Ganhamos à esquerda e à direita do nosso mundo, no Oriente e no Ocidente. Há treinadores portugueses na China, nas Américas, na Europa, no Médio Oriente. Muitos têm feito belíssimos trabalhos e conquistado títulos.O que acho é que o nosso país ainda não nos reconheceu exatamente como tal. Não temos uma estratégia organizada, definida e pensada para que esta profissão seja ainda mais valorizada. O que vamos conquistando é muito fruto do trabalho individual de cada um.Com a estrutura que existe no futebol português, é possível criar essa estratégia?Acho que sim. O que fazemos com dez milhões de portugueses e com a quantidade de treinadores de alto nível que estão pelo mundo merece maior dedicação e maior promoção. Não falo de promoção como produto barato, mas de valorização. Ganhamos em qualquer país, estamos em ligas de grande nível, temos casos como o de Mourinho, sempre associado ao nome do treinador português. O que se devia fazer em Portugal para valorizar mais os treinadores portugueses?Muito simples: divulgar de forma clara e rotineira os feitos dos treinadores portugueses pelo mundo. Em Portugal e fora de Portugal. Muitas pessoas nem sabem bem quem anda por aí. Dizem “é um português”, mas há muitos. Pergunto: qual é a área em Portugal onde temos tanta gente brilhante pelo mundo fora, com estes resultados? Não me ocorre nenhuma com esta dimensão.Chegou ao Al-Wasl a meio da época com o objetivo de garantir competições internacionais. Conseguiu. E agora?Agora o objetivo é diferente. Quando fomos, em fevereiro, já sabíamos que o primeiro lugar era difícil. Matematicamente era possível, mas estávamos na quinta posição. O objetivo primordial era chegar às competições internacionais e jogar a Liga dos Campeões da Ásia, e conseguimos.É possível lutar pelo título na próxima época?É possível, mas é difícil. É possível porque o clube está bem estruturado e tem uma visão clara daquilo que quer. Entre equipa técnica, direção desportiva e direção estamos alinhados. Mas há pormenores importantes, nomeadamente a construção do plantel. Ali há jogadores estrangeiros, jogadores locais e jogadores residentes. São três blocos que têm de ser muito bem organizados. Temos de preparar bem o plantel e a época..Esteve na seleção do Egito. O futebol africano tem crescido muito. Gostava de se ver num Campeonato do Mundo como selecionador?Quando fomos para o Egito, era isso que estava previsto: chegarmos a este campeonato. O trabalho foi muito positivo, só perdemos um jogo em 18, mas depois houve uma fase em que fomos eliminados e entendi que não estavam reunidas as condições para continuar.Falemos de Portugal. Que expectativas tem para a seleção?Tenho expectativas elevadas. Temos jogadores de enorme qualidade, como felizmente acontece há muitos anos. Vejo jogadores com maturidade e, ao mesmo tempo, com energia suficiente para competir. Muitas vezes há jogadores com muito currículo, mas já numa fase em que falta energia. Aqui temos uma mistura interessante entre jovens e jogadores experientes, habituados a campeonatos de alta intensidade.Mas também há cansaço e talvez menos qualidade física em alguns jogadores do que há uns anos. Refiro-me, por exemplo, a Cristiano Ronaldo.Sim, mas estes torneios são muito específicos. Não podemos olhar apenas para a qualidade dos jogadores. Estou convencido de que este Mundial vai ser muito importante também fora do terreno de jogo. A fisiologia, a recuperação, o sono, a logística, a parte grupal… Tudo isso terá um efeito importantíssimo.Há viagens, há planeamento, há detalhes. Qualquer erro pode deitar tudo a perder. Será um campeonato jogado dentro e fora de campo.Quando os resultados não surgem, o treinador é sempre o primeiro sacrificado. É justo colocar tanta responsabilidade em Roberto Martínez?Obviamente que não. Nunca é justo, ou pelo menos a percentagem de responsabilidade que publicamente é dada ao treinador nunca é justa. O futebol é assim. Quantas vezes o texto de um jogo está pronto aos 90 minutos e depois, aos 96, há um golo e muda tudo? A narrativa altera-se completamente.Hoje é quase automático: se se perde, aponta-se ao treinador. Claro que temos uma grande responsabilidade e temos de a assumir. Mas não temos toda a responsabilidade. Também é bom dizer que os jogadores têm responsabilidade. Costumo dizer aos meus jogadores: falhem golos, falhem passes fáceis, porque isso faz parte do futebol. Mas não me falhem nas coisas inegociáveis: a parte mental, o foco, a dedicação, o compromisso, a concentração.O que continua a motivá-lo diariamente, ao fim de tantos anos como treinador?Não sou o maluco do treino nem o maluco de ser treinador. Estou muito bem quando estou parado. O que me move é ver a cara das pessoas felizes. Não é o dinheiro que me move, embora, evidentemente, quando me vêm buscar saibam que há honorários.Posso ir para um lado qualquer porque há ali qualquer coisa que me estimula. Gosto de ver as pessoas felizes quando ganhamos: presidentes contentes, adeptos satisfeitos, jogadores a gostar do que fazem, pessoas a reconhecer o nosso trabalho. Quais são os objetivos que ainda quer concretizar na carreira?Continuar a ser o treinador que tenho sido até aqui. Uma das coisas que mais prazer me dá é sentir que as pessoas têm respeito por mim. Isso é muito gratificante. Em qualquer sítio, cá ou fora, sinto reconhecimento pela pessoa que sou.Defina-me, por favor, a pessoa Rui Vitória.Hoje posso dizer, com alguma autoridade, que tenho um bom coração. Tenho um coração que não prejudica ninguém de forma intencional. Não estou a dizer que nunca prejudico, porque nesta profissão as nossas ações podem ter consequências, mas nunca o faço de forma intencional.Sou uma pessoa tranquila, equilibrada, em que racionalidade e emotividade estão sempre presentes. Às vezes quero ser mais emotivo, outras vezes mais racional, e tento equilibrar isso.Gostava, talvez, de ser um pouco mais emotivo. Às vezes temos de chorar e rir muito para sentir as emoções em plenitude. Tenho tendência para me autorregular: não posso ir ao fundo do poço quando perco, nem ao céu quando ganho. Ando ali nos 80-20..Rui Vitória deixa comando técnico do Panathinaikos