Rui Santos: "Fernando Santos é um treinador com medo"

Jornalista e comentador analisa carreira da seleção no Euro 2016

À terça-feira, o comentador desportivo Rui Santos fala aos portugueses no seu programa televisivo e faz o estado da nação do futebol português. Não é de agora, pois marca presença há 14 anos no ecrã após ter decidido sair do jornal A Bola. Os últimos dias de Rui Santos têm sido violentos no comentário, de modo a acompanhar o percurso da seleção portuguesa no Euro 2016. Uma análise que faz sempre de forma solitária: "Gosto de estar sozinho no meu santuário. Ver o jogo atento e tomar notas. Se ficar com dúvidas, volto ao princípio, até ficar esclarecido. Não sou como muitos, capaz de estar num restaurante, dar uma olhadela e formar uma opinião."

Uma dedicação que não o impede de ter feito as duas horas e meia de exercício físico antes de se meter ao volante do Mercedes, bordejar o Parque Natural Sintra-Cascais e chegar à hora marcada ao restaurante Monte Mar, no Guincho. Aquele que escolhe para almoçar e radiografar a seleção.
Não tem pressa em escolher o que comer e, durante o tempo de uma primeira parte de um jogo, aproximadamente 45 minutos, discursa sobre o coletivo de jogadores e o selecionador Fernando Santos. Chega o intervalo e não precisa de olhar para a ementa: "Gosto muito dos filetes de peixe com arroz de berbigão..." Está decidido. O vinho também é escolha rápida: Soalheiro, Alvarinho. No final, um café duplo remata a refeição. Os empregados que ainda estão no estabelecimento - já a tarde vai bem adiantada - despedem-se, confirmando que é frequentador habitual do local, onde o peixe é do melhor que há. "Sempre gostei muito de petiscar, mas agora tenho mais cuidado. A minha alimentação é à base do peixe que vou comprar ao mercado", explica.

Também recorda que fez bastante desporto enquanto estudou no Colégio Militar (1969 a 1974) e que jogou muito futebol: "Tinha jeito e gostava de organizar campeonatos." A posição? "Médio avançado, tinha a mania de que era número 10." Revela a idade sem problemas: "Nasci em 1960, mas ninguém me dá esses anos." Só não confessa qual o clube de que gosta: "O meu pai era um médico e militar fanático do Sporting e eu aprendi a fazer o contraditório com ele. Ensinou-me que era preciso manter distância da clubite para se analisar o futebol."

Chegam os filetes e o tempo de intervalo do jogo já passou. A segunda parte não é suficiente para Rui Santos fazer o balanço total e vai-se a prolongamento. E à marcação de penáltis...
"Sinto que estou contra a corrente nos comentários, mas gosto de assumir esse papel", diz. Não é de agora, alerta: "Sempre fui um homem da imprensa escrita e publico há mais de 40 anos ininterruptamente." Quem o vê todas as semanas não acredita no que irá dizer: "A televisão metia-me medo, mas como era contra os jornais desportivos ao serviço de um clube não tive outra solução."
Antes de irmos à seleção nacional, comenta os clubes que fornecem os jogadores: "Estão mais profissionais, mas o nosso futebol tem um atraso de 30 anos. Na última década houve um grande salto e acabou o improviso. O que é bom, porque o português é muito vocacionado para o futebol. Então, se tivéssemos gente muito dotada ao nível de dirigentes, seríamos dos melhores do mundo."
A radiografia que faz sobre os três grandes é rápida: "No Benfica, Luís Filipe Vieira teve a capacidade de perceber o fenómeno. Não reage a quente e evoluiu muito, copiando os bons modelos europeus, a não ser na questão das contas. Pinto da Costa rodeou-se dos mais leais e mantém uma liderança forte, assentando nele o êxito do clube. O Sporting teve imensos presidentes que nada percebiam de futebol e perdeu o seu tempo de afirmação."

Quanto à seleção, o tema exige mais reflexão e, avisa, "neste momento temos de ter alguma contenção de modo a respeitar os próprios jogadores e os milhões de portugueses que por esse mundo fora estão muito felizes". Feita a salvaguarda, Rui Santos não vai parar na crítica a uma "campanha que deve ser vista sob vários ângulos". Primeiro: "Nunca na história do futebol em Portugal houve uma conjuntura tão favorável para conseguir ser campeão. Se não o for neste ano, irá passar ao lado da melhor oportunidade." Segundo: "Houve um conjunto de circunstâncias que ditaram o apuramento de Portugal. Se os méritos têm de ser reconhecidos, a verdade é que desde 2000 nunca apanhámos uma grande equipa na fase final."

Rui Santos garante que "enquanto português" fica "muito contente por Portugal estar na final do europeu". Pega-se nas suas palavras e contrapõe-se que o facto de Portugal ter ido longe coloca uma rolha na boca dos comentadores desportivos, proibindo-os de criticar a seleção. Não nega: "Debato-me com essa realidade, mas cheguei a uma altura da minha vida profissional em que as pessoas me dão crédito. Fiz de tudo no futebol e não apareci como muitos a comentar futebol sem um passado sólido." Ou seja, avança, "conquistei o crédito de poder dizer o que deve ser dito. As palavras mais simpáticas e também as antipáticas".

Concorda que estar na final inibe: "É verdade, os portugueses não querem ouvir a realidade e tudo fica mais difícil. Também não quero montar em cima do êxito do momento como muito gente vai fazer agora. Vou dizendo o que penso, que houve um fator de sorte e de aleatoriedade que não tem que ver com mérito. Já disse que fizemos uma primeira fase a jogar um futebol lamentável e isso não pode ser apagado. Defendi a ideia de que em função do sorteio perdemos a grande oportunidade de apresentar um grande futebol em vez de estarmos a alinhar na tese de que tudo pode acontecer no futebol. Partimos como favoritos e a Islândia, a Áustria e a Hungria não deviam ter-nos feito tremer. Jogámos como um União da Madeira ou um Tondela contra o Benfica, o Sporting ou o Porto."
Não foi essa a estratégia montada por Fernando Santos? Resposta rápida: "Não vou nisso, é um treinador defensivo. Fernando Santos é um treinador com medo, que prefere esperar e jogar no não erro do que investir num jogo de qualidade ou positivo. Explorámos a oportunidade de um campeonato fraco, por isso estar entre os quatro que chegam à final é diferente de estar entre os quatro melhores. Se apanhássemos uma grande equipa não estávamos na final."

Ou seja, resume-se, nos últimos campeonatos soubemos sempre porque tínhamos perdido e desta vez não percebemos porque estamos a ganhar. É assim? "É um bocado isso. Sabemos que não tivemos adversários que nos pusessem à prova, mesmo assim a seleção assustou-se. Neste momento, tentar racionalizar é difícil e até amanhã comenta-se o que é possível. Diria mais, com este calendário era nossa obrigação estar na final. O grande mérito será ganhar o último jogo, mas sei que mesmo perdendo os portugueses irão ficar satisfeitos. Consideram que se cumpriu a tarefa, o que é errado pois não a cumprimos. Faltou convencer a Europa do futebol e a nós próprios de que temos qualidade para ganhar o campeonato. Após esta campanha, ganhar a final não significa ser a melhor equipa."

Para Rui Santos, a sorte acompanhou sempre a seleção: "Não sei se é por Fernando Santos ser um homem de fé mas até com o País de Gales houve uma situação favorável, já que um dos jogadores que tem grande influência na construção do jogo, Ramsey, ficou de fora."
Rui Santos não desiste: "Tenho sido crítico com o futebol medíocre de Portugal na primeira fase e o que mais me indigna é ver uma tolerância à volta dos serviços mínimos, do taticismo exagerado, de um futebol quântico e de laboratório. Não convivo com este futebol, mesmo que ganhemos o Euro!"
E a posição em que o selecionador colocou sempre Cristiano Ronaldo? Este é um tema que entusiasma quem define o jogador como "dos melhores do mundo" e se recusa a classificá-lo "o melhor do mundo". Diz Rui Santos: "Em relação ao Ronaldo, temos dois problemas: somos um país que não tem abundância de pontas--de-lança de qualidade. Por isso, defendi a convocação de André Silva, mas Fernando Santos não teve a perceção de que ele podia mudar tudo. Essa ausência de visão condicionou muito o jogo português e o Cristiano foi vítima da situação."

Quer dizer que foi muito desaproveitado? Mais uma vez, Rui Santos aposta na polémica: "É bom recordar o trajeto do Cristiano Ronaldo na seleção e o que aconteceu na Federação Portuguesa de Futebol para o integrar e fazer dele o número um em tudo. Até os outros jogadores foram obrigados a mudar de atitude para entrar no clube do Cristiano, que é também a seleção portuguesa. Dito isto, estou à espera de que o [José] Mourinho se canse de ganhar dinheiro e que chegue rapidamente à seleção nacional. Porque a seleção precisa dessa exigência e de ter os melhores. Deve ser o topo e Mourinho é o único que estará sempre por cima dos jogadores. Viu-se isso no episódio do João Moutinho e da marcação do penálti: o Cristiano não deve ser uma vedeta inativa, mas fez uma coisa que cabe ao treinador. Isso nunca poderia acontecer."

Após o jogo com o País de Gales, foi dito que a seleção deixou de ser dez jogadores mais Ronaldo e que era uma equipa. Não é um mito? Rui Santos não perdoa: "O papel principal do Ronaldo é indiscutível, tal como o de que manda em tudo. Tem um staff, além de jogador é um produto de marketing que movimenta muito dinheiro, e tudo isto foi levado para dentro da seleção e aceite como uma coisa normal."

Antes de o almoço chegar ao fim, pede-se a Rui Santos que eleja os melhores e os mais fracos desta seleção. Do selecionador diz: "É um conciliador e apagou todos os fogos que existiam. Alguém tinha de fazer esse trabalho. Vai renovar o contrato." No caso dos melhores: Rui Patrício "foi fundamental"; Pepe "pelo que fez"; Renato Sanches "pela influência"; Raphaël Guerreiro "esteve muito bem" e João Mário "logo a seguir", tal com Adrien. Ronaldo "teve dois jogos bons, nenhum excecional". Os mais fracos: João Moutinho, Vieirinha e Eliseu. André Gomes "baixou muito" e "faltou utilizar o Rafa".

Feito o balanço, Rui Santos questiona o medo de se ouvirem críticas ao desempenho da seleção. Considera que "a crítica faz evoluir as pessoas, até no meu caso, e deve ser normal. Se Portugal for campeão é obvio que o mérito é do treinador e dos jogadores. No fim do jogo contra Gales senti que era justo viverem aquele momento, independentemente da conjuntura do trajeto facilitado e do futebol sem qualidade. Se, de alguma maneira, as minhas críticas serviram para fazer que o seleção reagisse, então eu quero um bocadinho da taça. Como as críticas fazem falta, houve um momento em que endureci o que dizia de propósito e acho que teve algum efeito. Muito do que defendi veio a acontecer. Como defender que Renato deveria ser convocado e, depois, ser titular".

O prognóstico para a final com a França não é coisa que Rui Santos queira fazer: "A França é muito imprevisível e difícil. Estar lá é um grande momento para todos, até porque o campeonato para Portugal começa e acaba neste último jogo. Os próprios jogadores assumiram que começaram mal, ou seja, o nosso principal adversário fomos nós. Poderemos ser os campeões do Europeu do não futebol."
Insiste-se num prognóstico. Resposta final: "Acho muito difícil ganharmos este campeonato da Europa, mas..."


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