Num momento em que Portugal celebra resultados inéditos, Pedro Dias pede realismo, estratégia e mais prática desportiva para consolidar o futuro. Defende uma política desportiva a longo prazo, baseada na realidade do país. Acha que os portugueses percebem e aceitam isso quando estão ávidos de grandes resultados, de pódios? Eu gosto de colocar a tónica no processo. Aquilo que necessitamos é aumentar de forma significativa a oferta de prática desportiva, de melhorar os indicadores de prática desportiva da população portuguesa, e também muito de qualificar todo o processo, da base ao topo. Como consequência estaremos sempre mais próximos de ser bem-sucedidos em termos de resultados desportivos de excelência. Mas compreende que as pessoas exijam medalhas sempre que há portugueses em grandes provas internacionais? Temos um conjunto de métricas que nos ajudam a perceber aquilo que é a relação entre o praticante de base e a elite. São da ordem de quatro atletas de elite para 10 mil praticantes de base. Em algumas das nossas modalidades nós teríamos muita dificuldade em exigir medalhas, porque sabemos, não existem 10 mil praticantes em grande parte das modalidades. Não quero com isto dizer que não seja possível termos praticantes de elite, alguns deles dos melhores do mundo, em modalidades que não cumpram esses rácios. Por isso é que algumas vezes me ouvem dizer que, atendendo à situação desportiva do país, devemos apontar para métricas e objetivos que sejam atingíveis, que sejam razoáveis, caso contrário, estamos a contribuir para algo que não me parece correto. Mas o que é certo é que 2025 foi um ano extraordinário em termos de resultados para os atletas portugueses, quer individualmente, quer coletivamente. Em 2026 vai haver muitas provas internacionais, campeonatos do mundo, campeonatos da Europa, onde esses atletas e outros vão participar e as pessoas vão querer ainda mais do que houve em 2025. Nós temos, sensivelmente, 850 mil praticantes federados, o que nos leva para aproximadamente 320 atletas desse nível, aqueles que estão próximo de nos dar medalhas. Isto é a situação que temos neste momento, contudo, temos modalidades que sabemos que não chegam a estas métricas. Mas 2025 realmente foi um ano extraordinário, não só, mas também para as modalidades individuais, mas muito para aquilo que são as denominadas modalidades coletivas. Que não só o futebol, mas também o futebol...O futebol não podemos excluir, mas dentro dessa federação temos mais duas modalidades, o futsal e o futebol de praia. Se repararmos no que aconteceu em 2025, que é inédito no nosso país, tivemos as seleções femininas de andebol, de basquetebol, de hóquei em patins, de futebol, de futsal, de futebol de praia, de voleibol, no padel, modalidade coletiva também, a alcançarem fases finais de campeonatos de Europa ou campeonatos do mundo. Isto é extraordinário, é mais um indicador. São dados objetivos para acompanhar o crescimento que estamos a ter da prática feminina. As nossas federações, nas coletivas e nas individuais estão a conseguir alcançar resultados desportivos de excelência. Dou um exemplo. Em 2025 nos Jogos Surdolímpicos em Tóquio, tivemos, provavelmente a melhor prestação desportiva em termos de resultados, não só de medalhas, mas as medalhas também aconteceram, foram seis. Muitas pessoas esquecem-se que também nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos chegar ao oitavo lugar representa um diploma para o país e para o atleta, e as pessoas acham que não vale muito, não é? O Sr. Primeiro-Ministro e a Sra. Ministra da Cultura, Juventude e Desporto têm-no referido algumas vezes: em que setores da nossa atividade como país temos alguém que é primeiro, segundo ou terceiro do mundo, ou primeiro, segundo ou terceiro da Europa? No desporto objetivamente isso acontece. Há medalhas, há troféus, há rankings. É muito importante conseguirmos de uma forma significativa aumentar a base de participação desportiva, porque esse é um contributo que damos ao país e esse vai permanecer. Ajudar a crescer e a criar hábitos de prática desportiva regular. Este é o principal contributo. Nós temos reconhecidamente, nas várias modalidades desportivas, treinadores de excelência. Sabemos que o treinador é o elemento que está permanentemente na prática desportiva, todos os dias, acompanhando os atletas. E temos tido uma evolução muito grande em relação ao que é o conhecimento, mas o treinador passou a ser um líder de equipas multidisciplinares. Para além dos atletas são grupos de 12, 14, 16 pessoas com formação diversa, desde psicólogos, nutricionistas, fisiologistas, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, analistas. Há aqui uma panóplia em termos de formação e o nosso país está a acompanhar. .Diz habitualmente que não gosta de metas desportivas irrealistas. O que são para si essas metas irrealistas? Por exemplo, estar a colocar uma métrica de conquista de pódio num campeonato da Europa, ou num campeonato do Mundo, para algumas das modalidades que, no nosso caso têm menos de mil praticantes no território nacional, regiões autónomas, Açores, Madeira e continente, essa poderá ser irrealista.Contudo, podemos ter a circunstância de ter em algum momento, nessa modalidade, um atleta extraordinário. O que quer dizer que, nesse momento, pode deixar de ser irrealista. Quando temos grandes momentos, as grandes competições internacionais, os atletas que representam as seleções nacionais devem estar imbuídos deste espírito, que é tentarem superar as suas melhores marcas. Mas não devemos pedir mais do que isto. Nas modalidades coletivas elas devem conseguir resultados de forma consistente. Ou seja, não termos um período isolado em que elas têm sido consistentes. Nas grandes provas costumo dizer que o melhor indicador para as coletivas é que as seleções fiquem até o fim.Pelo que me está a dizer, e após a apresentação da política e estratégia do governo para o desporto, o que é que gostaria que acontecesse neste ano concreto?Para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos já há um conjunto de medidas que estão relacionadas com apoios diretos, ou seja, as denominadas bolsas. Houve um reforço de 30% de participação do Estado relativamente ao ciclo anterior, naquilo que são os recursos disponibilizados. Essa era uma ambição, um pedido expresso das federações, dos atletas, dos técnicos.Mas essa foi uma das aprendizagens que o Governo também teve das preparações anteriores e dos ciclos olímpicos anteriores, ou não?O financiamento nunca é suficiente. Eu fui educado num contexto em que no desporto, nós achamos sempre que os nossos projetos são sempre estratégicos. Temos falado muito do alto rendimento, mas para chegar ao alto rendimento é preciso passar por muitas fases. E uma das primeiras fases é o desporto escolar. O governo também quer e está a investir nessa área. Temos falado que há técnicos muito bons para o alto rendimento, mas também é preciso formar técnicos para estas crianças e para estes jovens poderem ter desporto na escola. E essa ainda não é uma realidade que se possa dizer que seja muito positiva em Portugal. A formação dos profissionais que atuam na escola é uma formação que é feita pelas nossas instituições de ensino superior. Muitos dos profissionais que atuam na educação física na escola têm formação especializada para a educação física e felizmente um número significativo deles também se especializa em modalidades desportivas. Temos tido, ao longo dos anos, um número significativo de federações desportivas que perceberam esse alcance e têm ajudado a qualificar a formação específica dos profissionais de educação física através da dupla certificação de treinador. Mas lá estamos a falar de números que não chegam para todas as escolas, não chegam para todos os alunos. Não, os professores de educação física chegam, porque a educação física é obrigatória. O que nós estamos a tentar é ir um pouco mais além. Uma das medidas, que é estruturante para o país, tem a ver com a introdução da educação física, ministrada por profissionais da educação física no primeiro ciclo. O desporto e a nossa sociedade virão beneficiar um pouco mais tarde. As nossas crianças têm algumas dificuldades nos temas da coordenação motora, da literacia motora. Nós temos de ajudar a criar contextos que estimulem e que permitam que as crianças adquiram essas competências no tempo correto. Dar-lhes as ferramentas necessárias para elas poderem saber correr, saltar, manipular, receber uma bola, os temas da motricidade fina. O Ministério da Educação incluiu uma medida específica para a formação de professores no ensino pré-primário. Ou seja, dar formação específica a professores para nos ajudar a estimular, antecipar um pouco a aquisição de algumas competências.Mas isso gerou, quando o anúncio foi feito, alguma confusão, porque se pensava que seriam as educadoras de infância que iriam ser as professoras de educação física. Não, se elas tivessem essa formação, mas não têm. E atenção, no primeiro ciclo, sim, estávamos a falar de educação física. O objetivo é esse: termos profissionais da educação física no primeiro ciclo..O cidadão, Pedro Dias, e o Secretário de Estado que são a mesma pessoa, concorda com a inclusão dos comités olímpico e paralímpico num só?Eu responderia até de uma forma simples. Quem tem ouvido as intervenções públicas dos dois presidentes, do comité olímpico e do comité paralímpico, percebe que isto é uma ambição e eu acho que está a acontecer. Olhando para aquilo que são os manifestos eleitorais dos dois comités, acho que está a acontecer.A ministra que tutela o desporto, Margarida Balseiro Lopes, tem tido uma presença muito ativa em eventos públicos desportivos e isso acontecia menos nos governos anteriores. O ministro que tutelava o desporto não estava tão presente, estaria mais o Secretário de Estado. Não se sente um bocadinho menorizado, porque a ministra está muito mais presente do que estavam os anteriores ministros que tutelavam o desporto? Pelo contrário, neste caso temos uma ministra ativa. A ministra tem três Secretários de Estado para a coadjuvar e eu sou um deles, por isso estou aqui para ajudar a ministra a exercer estas funções. Ou seja, as pessoas do desporto reparavam muito e deixaram de reparar. Agora, espero que não venham dizer que a ministra está ativa e isso também é um problema, que não é.Neste final de mês, temos dois campeonatos da Europa de duas modalidades coletivas, onde Portugal participa, no andebol e no futsal. Até onde é que nós podemos chegar e o que é que o Secretário de Estado do desporto gostaria de dizer no final de cada uma destas provas?São duas das nossas seleções que têm, de forma regular, marcado presença nas fases finais dos campeonatos da Europa e dos campeonatos do Mundo, com resultados consistentes. Que os mantenham. A ambição é que as duas seleções fiquem até o fim das competições. Significa que atingem pelo menos, as meias-finais e podem disputar o jogo de medalha para o terceiro e quarto, mas a ambição será sempre a final. Este ano, para além dos Jogos Olímpicos de Inverno, vamos ter os Jogos do Mediterrâneo e vamos ter os Jogos Olímpicos da Juventude. Mas aí há sempre melhores resultados do que nos Jogos Olímpicos de Inverno, não é?Os Jogos Olímpicos de Inverno têm aqui uma particularidade: infelizmente não temos no nosso país um local onde temos uma estância que permita a prática desportiva de desportos de inverno. Mas tem de haver outras soluções e é isso que a Federação de Desportos de Inverno tem feito. Encontrar soluções fora do país para proporcionar condições para que resultados de excelência possam aparecer. .Governo vai apresentar Plano Estratégico para o Desporto a 12 anos. Nasceu de um estudo com 100 medidas.Presidente da FPF elogia escolha de Pedro Dias para secretário de Estado do Desporto