O triste desempenho de El Loco à frente do milionário Lille

Marcelo Bielsa, o treinador mais influente do futebol atual, como lhe chamou a BBC, vai definhando no fundo da tabela do campeonato francês, apesar de ser o mentor de Pep Guardiola e Pochettino

Nunca dá entrevistas, quis ver as pernas de um jogador em pleno sono para perceber se tinha potencial, esteve retirado num convento e tem uma imagem de culto, apesar de os resultados recentes em nada coincidirem com a fama que granjeia junto de gente ilustre e com palmarés recheado, como Pep Guardiola.

Falamos de Marcelo Bielsa, atual treinador do Lille, penúltimo da classificação da Liga francesa, pese embora ter sido o terceiro clube mais gastador do defeso em terras de Astérix. O Lille gastou 65 milhões de euros em reforços, 5,5 dos quais no português Edgar Ié, apenas superado pelos 102 milhões do Mónaco de Leonardo Jardim e pelos 237 do Paris Saint-Germain. Abaixo do valor investido pelo clube do Norte de França ficaram equipas como o Lyon ou o Marselha, que têm protagonizado uma boa época desportiva.

Marcelo Bielsa chegou a Lille por influência de Guardiola. Não houve um aconselhamento direto, mas o diretor-geral do clube, o espanhol Marc Ingla, lembrou-se das muitas referências positivas do atual técnico do Manchester City sobre Bielsa quando ambos coincidiram no Barcelona. Aliás, Marc Ingla tomou, em 2008, o partido da contratação de Guardiola quando Joan Laporta, o presidente, estava indeciso entre o catalão e José Mourinho.

"Bielsa recorda-me Guardiola, sempre com uma intensidade ao limite", referiu Ingla à BBC, que não teve problemas em denominar o sexagenário argentino como o "treinador mais influente do futebol atual". O grupo de comunicação inglês assenta a sua decisão nos depoimentos recolhidos pelos treinadores dos atuais dois primeiros classificados da Premier League: o já citado Guardiola e Mauricio Pocchetino (Tottenham), dois treinadores já apurados para os oitavos--de-final da Liga dos Campeões.

"A minha admiração por Bielsa é imensa. Estou convicto de que a sua influência no Lille, no clube e nos jogadores será enorme", referiu Pep, que em 2006 fez uma larga viagem pela Argentina e travou amizade até aos dias de hoje com Bielsa.

"É como o meu pai futebolístico. Somos uma geração de treinadores discípulos de Bielsa. Bebemos a maneira como ele sente o futebol, a paixão que tem pelo jogo", afirmou Pochettino, referindo-se ainda a Jorge Sampaoli, Diego Simeone, Gerardo Martino e Eduardo Berizzo. Aliás, Pochettino foi o jovem observado por Bielsa enquanto dormia. O agora treinador era um menino e os pais do jovem assustaram-se quando Bielsa bateu à porta pelas duas da madrugada. Queria ver as pernas de Pochettino. Entrou, destapou o outrora central e decidiu apostar em Pochettino porque gostou do que tinha visto. "Sim, foi isso mesmo que se passou", disse Pochettino já neste ano, mas sem querer alimentar a história. E o antigo defesa foi mesmo campeão aos 18 anos, no Newells, com Bielsa no banco.

As excentricidades

Bielsa não é uma personagem fácil. Tivesse ele títulos por cada excentricidade que faz abrir a boca de espanto ao mundo futebolístico e era imbatível. Em 2002, após a sua Argentina ter sido um fiasco no Mundial da Coreia e do Japão, enclausurou-se num convento. "Levei os livros que queria ler, não levei telemóvel nem televisão. Fiquei lá três meses, já começava a falar sozinho e a ficar louco de verdade", confessou El Loco, alcunha pela qual é apelidado no seu país.

Seguiu-se o Chile, do qual foi selecionador cinco anos, e depois foi tentado novamente pelo futebol europeu, ao qual tinha renunciado depois de ter chegado a acordo com o Espanhol de Barcelona em 1999. Recusou o Inter de Milão e o Sevilha para assinar pelo Athletic de Bilbau. Na primeira temporada no País Basco, 2011-12, cruzou-se com o Sporting de Sá Pinto na meia-final da Liga Europa. Havia de chegar ao jogo decisivo, que perderia frente ao Atlético de Madrid de Simeone, como também sairia de mãos a abanar na final da Taça do Rei diante do Barcelona de Guardiola.

Entretanto foi treinador do Marselha, tendo abandonado o Sul de França após a primeira jornada do segundo ano de contrato, disse não à Lazio, depois de ter chegado a acordo, por suposta "falta de agressividade no mercado", e nesta época deixou-se seduzir pelo Lille. Quando chegou, tudo eram sensações positivas: "Estou com muita ilusão e não posso dizer que as expectativas são pequenas. Quero proporcionar felicidade a este público", disse na sua apresentação. Contudo, passados uns dias já se queixava, entre dentes, de que o diretor desportivo, o português Luís Campos, lhe tinha passado o nome de 120 jogadores para observar. Mal ou bem, Bielsa, quando chegou a Lille, afastou de imediato dez futebolistas, entre eles o português Eder e o capitão de equipa, Rio Mavuba. E gastou muito, 65 milhões de euros, uma verba sufragada pelo proprietário do clube, o empresário luxemburguês Gérard Lopez, amigo de Vladimir Putin e dono da Lotus.

As coisas nem começaram mal, com uma goleada sobre o Nantes de Claudio Ranieri (0-3). Seguiram-se dez encontros (seis derrotas e quatro empates) sem vencer e, assim sendo, o Lille é penúltimo com seis pontos, a quatro da manutenção e dono do segundo pior ataque. Pode dizer-se que o Lille está em queda, mas a imagem de Bielsa vai manter-se... como sempre.

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