O plano e a revolução silenciosa que levou a seleção de futsal ao topo do Mundo

O segredo dos três títulos continentais em menos de quatro anos está no "processo" de crescimento iniciado em 2011. FPF contou com a ajuda de milhares de contributos, ganhou praticantes e fez uma maior aposta na formação. Ter um Ricardinho também ajudou.

Ser a modalidade coletiva de pavilhão mais praticada no país num horizonte temporal máximo de cinco anos (até 2016). Foi esta a missão que Fernando Gomes entregou a Pedro Dias durante o discurso de tomada de posse como presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) em 2011. A partir daí, o diretor para o futsal mobilizou todo um País na revolução silenciosa que hoje se traduz no crescimento sustentado da modalidade (ver página 30), coroado com dois títulos europeus (2018 e 2022) e um mundial (2021) da seleção.

"Fizemos questionários individuais para que cada um pudesse contribuir e dar sugestões sobre qual era o melhor caminho para o futsal. Estamos a falar de milhares de contributos que uma equipa de cerca de 80 especialistas analisou e validou para definir os pilares estratégicos. Depois, um grupo de 12 pessoas criou um conjunto de programas para o desenvolvimento sustentado do futsal em Portugal", explicou ao DN o coordenador do projeto, lembrando a participação de clubes, dirigentes, associações, treinadores, árbitros, jogadores...

"Dois em cada dez jogadores atinge o patamar de excelência. Alguns campeões do Mundo e da Europa fizeram todo o percurso no futsal desde a formação e isso é admirável." Pedro Dias, diretor para o futsal da FPF

O Plano Estratégico para o Futsal foi apresentado em outubro de 2012 e a partir daí o futsal passou a ter um rumo, alicerçado no aumento do número de praticantes, que por sua vez estava alicerçado na formação. Uma das medidas estratégicas para atrair jogadores foi a criação de competições mais atrativas, como os campeonatos sub-15, sub-17 e sub-19, e a reformulação dos quadros competitivos seniores "de forma a que o jogador português pudesse ser potenciado". Portugal tem hoje nove seleções de futsal (cinco masculinas e quatro femininas).

Paralelamente a isso, aumentou-se o nível de conhecimento dos treinadores. Desde 2012, a Federação qualificou milhares de técnicos em mais de 140 cursos (grau I, II e III). A qualificação e certificação da formação também foi essencial no caminho para o grande sucesso agora visível, bem como o programa de deteção de talentos, que começa nas regiões, passa pelas seleções distritais e acaba nas seleções nacionais. "Dois em cada dez jogadores atinge o patamar de excelência. Alguns campeões do Mundo e da Europa fizeram todo o percurso no futsal desde a formação e isso é admirável", diz Pedro Dias, para quem "os títulos são uma consequência de todo este processo".

Ter o melhor jogador do mundo também ajudou: "Ter um Ricardinho foi um bónus, um chamariz sem igual. Os jogadores de eleição são modelos para atrair mais praticantes e é muito importante ter crianças motivadas para a prática."

E agora? Depois de chegar ao topo, o que se pode esperar da seleção? O bicampeonato mundial em 2024? "Temos de consolidar os processos, refiná-los, melhorá-los", respondeu o dirigente, lembrando que a modalidade "já ganhou notoriedade social".

Refira-se que, a nível de clubes, o Sporting venceu as Champions de 2019 e 2021 e conta ainda com três finais europeias perdidas. O Benfica venceu a Liga dos Campeões de futsal na edição de 2010.

Dos 6000 para 56 mil atletas

A revolução mundial do futsal deu-se em 1974, quando João Havelange, então presidente da Federação Internacional de Futebol de Salão (FIFUSA) se tornou presidente da FIFA. Como tinha noção do impacto da modalidade no Brasil, que nessa altura já atingia 500 mil praticantes, chamou o futsal para a família do futebol. E foi assim que na década de 1990 o futebol de 5, o futebol de salão e o futsal português se juntaram e ficaram sob alçada da FPF.

Eram então cerca de 6000 atletas federados. Três anos e meio depois de a FPF acolher o futsal aconteceu a primeira qualificação de Portugal para um Mundial e um terceiro lugar na Guatemala 2000, um "resultado excecional", segundo Pedro Dias, que deu origem ao segundo boom da modalidade.

Orlando Duarte era então o selecionador nacional (1999-2010), função que acumulava com a de treinador do Sporting (na altura totalmente amador e muito diferente da equipa que é hoje campeã da Champions). Responsável por levar Ricardinho à seleção pela primeira vez aos 16 anos, o técnico liderou uma seleção com apenas dois ou três profissionais e aguentou o barco durante dez anos. Um dia fartou-se. "Depois de ir à final do Euro 2010 informei que ia embora. Perguntaram-me porquê e eu disse que estava farto de andar armado em Dom Quixote. Durante dez anos andei a lutar contra o vento, projetos e mais projetos ... diretos para a gaveta. Fartei-me", contou a DN, o agora treinador do Piast Gliwice da Polónia.

"O segredo do sucesso está no jogo coletivo, que é excecional. Ninguém joga como Portugal. Com ou sem Ricardinho, como se viu no Euro 2022, a equipa funciona como um todo." Orlando Duarte, ex-selecionador nacional

Bateu com a porta, mas insistiu com o adjunto Jorge Braz para ficar: "Disse-lhe que eu estava pelos cabelos, mas como ele era careca aguentaria (risos)". E aguentou. De tal forma que liderou a seleção a dois títulos europeus e um mundial em menos de quatro anos. "Com a entrada de Fernando Gomes e Pedro Dias, para mim o melhor dirigente do futsal a nível mundial, o salto qualitativo foi brutal. O segredo do sucesso está no jogo coletivo, que é excecional. Ninguém joga como Portugal. Com ou sem Ricardinho, como se viu no Euro 2022, a equipa funciona como um todo e esse princípio está muito enraizado nos jogadores e é uma mensagem que o Braz não se cansa de passar", elogiou o seis vezes campeão nacional.

Modalidade Olímpica 2032?

Orlando Duarte não tem dúvidas de que "o futsal é o irmão pobre do futebol" e que a FIFA personifica "o lema crescer, mas devagarinho". E se não fossem "alguns malucos de algumas federações ibéricas e sul-americanas, o processo seria a ritmo de caracol", segundo o técnico. E dá como exemplo a federação inglesa, "que tem potencialidades enormes e não quer saber do futsal para nada". A própria Alemanha só este ano criou a Bundesliga de futsal. E assim fica "difícil crescer em bloco", apesar dos países de Leste, como a Rússia, a Ucrânia (semifinalistas do europeu), bem como a Letónia e a Polónia já apostarem forte na modalidade. Depois há o caso da França (38 mil treinadores licenciados e 1, 6 milhões de atletas), que tem um team manager português (Filipe Pires) e está apostada em ser uma potência.

Se a UEFA já criou uma Champions e 50 dos 55 países da Europa do futebol já têm futsal, a FIFA continua sem organizar um Mundial feminino e com isso impossibilita que a modalidade seja Olímpica. Ver o futsal nos Jogos Olímpicos só lá para 2032! Já não vai a tempo de Paris 2024 ou Los Angeles 2028. A FIFA tem assim mais uma década para preencher essa lacuna. Pedro Dias acredita que o mundial feminino"é um passo que terá de ser dado", uma vez que "o futsal já é uma modalidade global" como provam os 120 países na qualificação para o Mundial.

Mas afinal, quantos jogadores de futsal há no Mundo? A FIFA revelou ao DN não ter números recentes da prática da modalidade a nível global, mas destacou a "resiliência" do futsal em tempos de pandemia, lembrando que tem "investido continuamente no seu desenvolvimento, em estreita colaboração com as federações". Sobre o futuro, a entidade mundial não se compromete e disse ainda que "não está previsto" alargar os prémios The Best ao futsal, embora possa haver distinções, como aconteceu com Falcão em 2016.

Por agora os melhores do mundo vão continuar a ser distinguidos pelo FutsalPlanet, um site criado em 1997 por Luca Ranocchiari e Mico Martic (selecionador da Finlândia, a surpresa do Euro 2022), fruto da "paixão insana pelo futsal e da ausência de informação". Este ano atribuíram oito prémios a portugueses. Sporting (melhor clube), Portugal (melhor seleção), Zicky Té (melhor jovem, Sporting), Guitta (melhor guarda-redes, Sporting), Nuno Dias (melhor treinador, Sporting), Jorge Braz (melhor selecionador) e Ana Catarina (melhor guarda-redes, Benfica). "Não é surpreendente. Clubes, jogadores e treinadores portugueses representam agora a elite do futsal masculino e feminino e isso refletiu-se nos prémios", explicou Ranocchiari ao DN.

Em Portugal, um projeto semelhante ganhou espaço em 2014. O ZonaTécnica dos irmãos Carlos e Rui Simões está agora num nível em que qualquer pessoa que queira saber algo da modalidade vai ao site e tem a resposta.

isaura.almeida@dn.pt

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