O mundo de Afonso, um miúdo que quer ser melhor do que o Slater

Aos 12 anos já é considerado uma das promessas do surf português. Treina com o pai, João, ex-tricampeão nacional

Afonso é garoto e por isso não vamos aqui falar do impacto do mundial em Supertubos nas contas do país nem quanto valem as ondas gigantes da Nazaré. Afonso é um garoto e, como tal, não apresenta um discurso formatado e responde "não sei" a várias perguntas, com um sorriso no rosto e os olhos a brilharem. Por Afonso ser um miúdo, não tem complexos de garanhão e ainda não aprendeu com estes que só boatos a favor é que não se desmentem quando o assunto são miúdas.

"Acho que ainda não estou na idade. Algumas chateiam--me, mandam-me mensagens a dizer que gostam muito de mim, mas isso não me interessa." E por Afonso ser um garoto, tanto rebelde como meigo, admite, sem quaisquer problemas, que se "o mar estiver grande e pesado" tem "algum medo" e isso é algo que vai trabalhar.

Mas, ao contrário da maioria dos da sua idade, Afonso, com 12 anos, não gosta de passar os dias agarrado às redes sociais. "Só vou ao telemóvel para ir ao Instagram mas não fico lá nem 10 minutos, não gosto. Não sou uma pessoa muito ligada a essas coisas, por vezes jogo um jogo no computador mas é por pouco tempo, é uma seca ficar ali." Se Afonso é quem é, isso deve-se em grande parte à educação dos pais: João Antunes, ex-tricampeão nacional de surf, e a mãe, Teresa, que desde cedo acompanhou a carreira competitiva do marido. Vivem todos numa quinta entre a Ericeira e Santa Cruz, rodeados de cães e cavalos, e muitas das coisas que comem são plantadas por João Maria, irmão mais velho de Afonso, que estuda permacultura (um sistema de agricultura que assenta na sustentabilidade ecológica, humana e financeira).

Também ao invés de muitos jovens talentosos que cedo foram criados nos tubos de ensaio das grandes marcas que os patrocinavam - como é o caso dos atuais surfistas do World Tour Jeremy Flores ou Kolohe Andino -, Afonso, segundo João, não irá crescer com essa pressão em cima. "Para mim ele ainda é uma carta fechada e quero acima de tudo que ele se divirta", afirma pai confrontado com o facto de o filho já ser apontado como uma jovem promessa. "O João Maria também surfava, estava num caminho porreiro e chegou ali aos 15, 16 anos e enveredou por uma área completa- mente diferente. O Afonso é muito mais focado no surf, é uma coisa que gosta mesmo de fazer, tem imenso jeito, portanto vou ter de esperar até a adolescência dele, à fase das miúdas."

Escola em casa para ganhar tempo

Afonso garante que desde os 4, 5 anos que quer ser surfista profissional. "Nessa altura, quando comecei a pôr-me em pé em cima da prancha e a cortar a onda, comecei a dizer ao meu pai que queria ser campeão do mundo." Para poder ter mais tempo para treinar, e "ser melhor do que o Kelly Slater" (isto com risos, em tom de brincadeira, mas ambicioso ao mesmo tempo), está a estudar no regime de homeschooling e as disciplinas que mais gosta são Inglês, Francês e Físico-Química.

De segunda a sexta acorda, tem aulas e depois disso vai surfar. Caso não haja ondas, faz treino físico. Na preparação psicológica, está a ser acompanhado por José Seabra, manager de Tiago Pires durante 20 anos. E que trabalho fazem? "Por exemplo, quando estou com medo do mar grande e pesado, ele diz-me para pensar noutras coisas e dá-me outras dicas para não ficar nervoso."

Discreto, carismático e em tempos um competidor feroz, João, atualmente com 46 anos, é responsável pelo treino do filho, e juntos formam um tipo de dupla que no nosso país é novidade, mas cujo sucesso tem vindo a afirmar-se lá fora. Gabriel Medina, campeão do mundo em 2014 e o pai-padrasto Charles; Filipe Toledo filho de Ricardo, bicampeão brasileiro; a família Wright toda, e por aí em diante...

"Aposto imenso na geração do Afonso, além dele já há aí talvez uns quatro ou cinco miúdos muito bons", afirma Antunes quando questionado sobre possíveis sucessores de Tiago Pires na elite. "Penso que surfistas como o Frederico Morais ou o Vasco Ribeiro têm hipóteses de lá chegar, mas acho que a geração seguinte vai ter possibilidade de meter muitos mais atletas no Tour, sem dúvida."

Afonso, que ontem competiu nas triagens da segunda etapa da Liga Moche, a decorrer na praia do CDS, na Costa de Caparica, por pouco não conseguiu lugar no evento principal. E, sem inventar grandes desculpas, disse apenas que tinha ficado "triste" com a eliminação. Afonso, tempo para isso não vai faltar.

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