Rico futebol, pobre desporto

A grande festa do futebol, que vivemos por estes dias, não deve servir para ensombrar ainda mais as outras modalidades desportivas. Portugal carece de uma estratégia para o desporto orientada para crianças e jovens.
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Eu gosto de futebol. Trocas rápidas de bola, subidas no terreno, fugas inesperadas... E de golos. Gosto de jogos de futebol com golos. Em suma, partidas com emoção. Mas não quero enganar o leitor. É raro ver jogos em estádios. Na televisão, só os mais importantes. Da seleção portuguesa e do FC do Porto. Ainda assim, não sou indiferente a esta festa que anima por estas semanas o mundo. Do hemisfério Norte ao hemisfério Sul, há milhões e milhões de pessoas a parar tudo, mesmo tudo, para ver os jogos do Mundial. É um rico desporto!

Pena é que, em Portugal, o desporto se limite em demasia ao futebol. Todos sabemos. A história está há muito contada, mas merece que se insista. Os adultos gostam de futebol, as crianças adoram jogar à bola. É porque os "grandes" gostam? É porque logo que iniciam os primeiros passos lhes é oferecida uma bola? É porque as conversas de família desenrolam-se à volta de jogos e jogadores de futebol? É porque as televisões dão especial ênfase à modalidade e transmitem horas sem fim debates e comentários deste mundo, que se tornou rei do desporto? É já uma questão cultural? E muitas mais interrogações se podiam levantar.

Também todos sabemos as expetativas que muitos pais depositam nos filhos, assim que vislumbram um especial "jeito" para a bola. Envolvem-se em sonhos. Ganham esperanças. E criam pressão - por vezes, muita pressão -, nos pequenos. Assistem aos jogos e manifestam (demasiado) a sua presença. É sabido que muitos progenitores têm comportamentos pouco dignificantes e aparentam desconhecer a ética desportiva. Tudo em prol dos seus prodígios. Mas a realidade é crua. A larga maioria desses pequenos desaparece na voragem das lesões e dos olheiros. Antes disso, a verdade é que essas muitas centenas de jovens futebolistas apenas dão uns bons toques na bola. Muitos ficam seriamente desiludidos (e desiludem os pais), alimentados que foram de grandes esperanças. A escola (sucede a demasiados) foi. Rico desporto!

Parece que há cerca de 400 modalidades desportivas no mundo. Um número avassalador. Em Portugal, quase só há uma: o futebol. É indiscutível que a prática de desporto tem benefícios para a saúde. E não só. É relevante na sociabilização das crianças e jovens, cria laços de camaradagem e ensina a interajuda, promove a resiliência, a capacidade de esforço e a disciplina, melhora o raciocínio e a concentração... Dito isto, não fica sombra de dúvida que a prática de desporto deve ser devidamente incentivada desde tenra idade. Um papel que deve ser desenvolvido dentro do sistema escolar pelo menos desde o início do 1º ciclo.

A escola pode (e deve) ser o local de eleição para a promoção e prática de desporto. Deve ter as portas abertas (e ginásios e espaços exteriores devidamente adequados e funcionais) a várias modalidades, garantir eventos periódicos, fomentar campeonatos escolares, promover a prática de ambientes saudáveis de competição.Transformar o desporto num veículo para a inclusão e sucesso das crianças e jovens. E mostrar que há muito mais do que futebol. Portugal precisa de uma estratégia para o desporto. As televisões, rádios e jornais também devem fazer o seu papel. Acompanhar as camadas juvenis de perto, dar voz às pequenas estrelas (mesmo que brilhem pouco) e mostrar as diferentes modalidades que se praticam no país.

O futebol é rei, mas o desporto em Portugal não tem que ser pobre.

Diário de Notícias
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