O governo tem de perceber que o surf é mais do que um desporto

Francisco Simões Rodrigues, presidente da Associação Nacional de Surfistas, fala sobre a relevância do desporto no país e nos desafios que há para abraçar

Tinha 11 anos quando convenceu o pai a deixá-lo ir sozinho de comboio de Lisboa para Vila do Conde, para participar num campeonato de surf. Aos 15 ou 16 anos estava a passar o Natal sozinho na Costa Rica. "O meu pai só não me deixou ir competir a Marrocos quando tinha 10 anos - e ainda hoje penso que teria adorado -, de resto, confiou sempre em mim, deu-me liberdade." E não se arrependeu. Mesmo porque Francisco Simões Rodrigues sempre foi um aluno exemplar. Não é exagero: o presidente da Associação Nacional de Surfistas é formado em Engenharia Civil - curso que fez nos cinco anos devidos e tendo escolhido para especialização uma área que não podia ter menos que ver com surf: análise de estruturas.

Sentados no Boteco da Linha, já cumprimentou literalmente toda a gente que estava nas outras mesas - "pessoal do surf", explica. A sala, que parece mesmo isso, uma sala lá de casa, é acolhedora e o cenário de entradas montado em cima da mesa promete.

O mais novo de quatro irmãos - duas gémeas com mais sete anos e o irmão quatro anos mais velho, com quem deu os primeiros passos no surf, na Praia Grande e na Costa de Caparica -, diz que teve a sorte de ter "uma muito boa educação, muito equilibrada e isso deu-me bases sólidas para me tornar responsável". Os amigos lembram-se como era: "Eu estava em competições e sempre que havia pausas estava a estudar. Ligava do estrangeiro para saber notas..." Houve apenas um momento em que a sua participação em campeonatos quase pôs em risco a licenciatura: como não ia muito às aulas, estava para chumbar por faltas. Mas a diretora apoiou-o e os professores acabaram por aceitar que, ainda que não aparecesse muito, nos exames nunca falhava.

Essa é, aliás, uma deficiência que aponta: "Como é que se faz um campeão sem que seja um iletrado se não há um modelo de ensino preparado para desportistas?" E recorda as dificuldades de Teresa Bonvalot, 16 anos, que enquanto campeã europeia júnior da World Surf League está muitas vezes em trânsito, e "tem imensos problemas para conseguir conciliar a escola com os campeonatos".

Já temos as imperiais à frente, pão fresco e manteiga de alho, e dois belíssimos pratos de percebes e camarões de Espinho que vão demorar-nos mais do que previmos. O sabor a mar combina na perfeição com o tema da conversa. Aos 34 anos, Francisco está no penúltimo dos quatro anos de mandato à frente da Associação Nacional de Surfistas, atividade que assume com total profissionalismo, ainda que para isso tenha de fazer do carro o seu escritório. "Todos os dias, enquanto faço a Marginal de Lisboa para Cascais, vou a fazer telefonemas." Faz o que é preciso, já que tem outros dois trabalhos a que se dedica com igual atenção - ainda que se perceba que a paixão está nas ondas -, é adjunto do presidente da Câmara Municipal de Cascais para as áreas de engenharia e imobiliário, "nada que toque no surf" e trabalha para a Faculdade de Economia da Universidade Católica, como assistente dos professores de Finanças e International Business. E é também um dos entrevistadores para o Masters da Católica.

Chegou a trabalhar naquilo em que se formou e até gostava do que fazia, mas percebeu que ser analista de estruturas implicava estar fechado, sozinho, a fazer contas. "E eu gosto muito de falar..." Ainda passou pela Teixeira Duarte como project manager de promoção imobiliária, até que decidiu tirar o MBA, "que foi uma ótima aprendizagem". "Estive um mês nos Estados Unidos, no MIT, e foi nessa altura que me afastei mesmo da engenharia."

Somos interrompidos pela chegada das espetadinhas de porco preto decididas em segundos, mas temos de lhes pedir que regressem mais tarde. Ainda há camarões e percebes no caminho que não vamos desprezar. O tom de Francisco Simões Rodrigues muda quando o tema volta ao surf. Conta que quando pegou na Liga Moche, em 2012, o circuito estava muito bem montado a nível desportivo, mas havia falhas. Ele tratou de as resolver: pegou no circuito, uniformizou-o a partir dos eventos-cogumelo que existiam (provas, prémios, estruturas), profissionalizou o modelo. E puxou para a ANS a comunicação. Com excelentes resultados: "O relatório deste ano mostra que o retorno de media, que era de dez milhões/ano, subiu quase 30% em valor e perto de 10% em número de notícias." Pode parecer autoelogio, mas não é. Francisco está muito mais focado em elogiar todos os que têm um papel à sua volta, na construção da importância do surf e na contribuição deste para tornar o país melhor (dos desportistas aos organizadores, sponsors, autarquias, etc.).

Diz que neste ano foi "extraordinário", quer pelo que aconteceu dentro de portas quer pelo que teve projeção lá fora. "Principalmente na etapa de Peniche, houve dias de genialidade, e chegaram-me comentários de que tinha acontecido ali o segundo melhor dia do tour inteiro de todo o mundo, incluindo Taiti, Fiji, etc." Chegar a isto, às melhores ondas no momento certo, tem qualquer coisa de sorte, mas também dá muito trabalho, a começar pela escolha do calendário. "Além disso, o surf não é só um desporto, tem vários ângulos, tem um eixo económico muito forte e já começa a ter outras dimensões, como o seu uso na terapia de miúdos institucionalizados, por exemplo. Começa a ser uma âncora muito relevante e Portugal, principalmente com a etapa do World Tour em Peniche, tem ganho muito."

Nem sempre foi assim: até há relativamente pouco tempo o surf não era levado muito a sério, mas agora o círculo está completo: "Temos um circuito de elite, de qualificação nas classes mais e menos graduadas, de elite masculina e feminina e agora as ondas grandes. A equipa da World Surf League Portugal está de parabéns pelo que conseguiu fazer com um país forte em condições naturais e com a sua elevada competência." Os elogios são para repartir e a conversa acontece sem filtros. "E ainda houve a feliz coincidência de este ser o primeiro ano em que houve Word Tour em Portugal" - deixou de haver quando o evento foi cancelado na sequência do 11 de Setembro, depois de muitos surfistas terem ficado em terra, sem poder viajar, o que significou um rombo brutal nas finanças da modalidade.

"Saindo deste eixo para a atividade da associação, dentro de portas tem sido possível organizar a Liga nas suas várias dimensões, que também é um caso de referência. Ainda agora, o Gony Zubizarreta, que ficou em primeiro no ranking mas nunca tinha vencido nenhuma prova, disse que em Portugal se faz uma Liga Nacional de ponta, com tudo o que isso envolve, e que os profissionais que conhece adoravam poder competir aqui. Isso quer dizer que estamos a fazer algo bem." Tudo isto tem reflexos, incluindo o facto de Portugal ter pela primeira vez um juiz (Nuno Trigo) a participar numa prova internacional fora da Europa. "Isso vem da dimensão que o país vai assumindo lá fora." Francisco recorda uma conversa que teve com Tiago Pita e Cunha, "o primeiro grande pensador da economia do mar, que dizia que as alturas de crise são oportunidades - e isso aconteceu-nos com o surf".

As espetadas voltaram e desta vez estamos preparados para elas e para as batatas fritas pala-pala e a salada que as acompanha à mesa. Trocam-se os pratos e segue o baile. Francisco explica por que razão um dos desígnios da Liga é "ter na mesma plataforma, em simultâneo, os internacionais como o Frederico Morais ou o Vasco Ferreira lado a lado com os que estão a começar, e com os do meio. O Tomás Fernandes era um júnior e passou para a ribalta quando venceu uma prova da Liga. O que mais queremos é ver outro Saca - quem sabe se será o Frederico Morais neste ano no Havai... Isso orgulhava-nos mais do que ver os dois títulos nacionais dele, porque o que queremos é ter Portugal lá em cima". Mas isso não passa só por ter bons desportistas - com o esforço e empenho que lhes devem ser reconhecidos - e pelo setor privado, que sempre foi motor de crescimento deste desporto. "Chega uma altura em que os passos também têm de incluir o setor público", explica.

A associação não tem qualquer relação com ou financiamento do governo - ainda que haja contribuições da Secretaria de Estado do Desporto para a Federação e do Turismo de Portugal para a World Surf League Portugal. "Nós fazemos o nosso produto sem essa ligação." E faz falta? Sobretudo é uma questão de justiça e retorno: "Desde 2009, o surf tem vindo a mostrar que ganha espaço de ano para ano, deixou de ser uma potência e é cada vez mais uma realidade. Mas desde 2009 nada se alterou nos financiamentos diretos. Dos números que conheço, as provas internacionais em Portugal talvez injetem muito mais em receita para o país do que o que valem os fundos que recebem." Mesmo porque o surf torna-se forte precisamente nas épocas em que o turismo perde força - "eu nunca viria fazer surf em Portugal no verão" -, o que lhe dá uma relevância acrescida.

Há alguma mágoa aqui, como quando recorda a ideia de a A8 passar a chamar-se Autoestrada do Surf - positiva, claro, mas que usava o surf para o que lhe servia sem prever qualquer compensação para quem lhe dava nome; um desconto nas portagens, por exemplo. Aproveita-se o surf para o que convém mas há quase sempre um "não" à espera das iniciativas que o surf faz chegar ao governo, lamenta. A mágoa entende-se, tendo em conta que o que está em causa é uma economia que vale 400 milhões de euros - "contas da ANS, onde fazemos uma estimativa conservadora que contabiliza tudo o que é relacionado com indústria core (serviços, escolas e todas as marcas relacionadas); as receitas do turismo e eventos nesta área; e um terceiro elemento menos direto, que é o valor decorrente do facto de o surfista ser um viajante: acorda em Lisboa, vai a Carcavelos, ao Guincho, à Ericeira. E ainda há a roupa, os sapatos, etc.", sublinha.

Francisco, que sempre que pode dá um salto à Ericeira para fazer umas ondas (não acorda mais cedo para isso, até porque detesta acordar depressa, mas está em vários chats onde se atualiza sobre os melhores spots e à hora de almoço permite-se uma escapadela), reconhece, porém, que há aqui um caminho a fazer. "Há um défice de condições para o profissionalismo. O circuito nacional ainda é pouco mais do que um adolescente, tem 25 anos... Portanto, não devemos olhar para outros desportos - que estão a milhas do surf em muitas coisas, mas ficam a milhas de nós em importância económica - numa lógica reivindicativa. Lá chegaremos. Mas os passos têm de começar a ser dados e no setor público há um longo caminho a percorrer. O governo tem de fazer a reflexão certa, perceber que o surf é mais do que um desporto." E a principal barreira a que isso acontecesse caiu: a partir de 2022 o surf estreia-se nos Jogos Olímpicos.

Um desses caminhos pode passar por vender as nossas universidades lá fora com essa diferenciação, sugere: "O nosso ensino tem uma qualidade semelhante ao que se encontra em Londres, mas aqui há sol, praia, segurança, boa comida e somos um polo de empreendedorismo." É por isso que acredita que a Nova em Carcavelos vai trazer uma mudança de paradigma - que passa por atrair alunos estrangeiros com essa diferenciação.

Por contraste com a deficiente atuação do governo, o presidente da ANS destaca a importância que o poder local tem assumido neste caminho. "Peniche foi talvez a primeira câmara, por força do projeto que tem, a dar um passo, mas houve outras que rapidamente se juntaram: Cascais e Mafra, são as principais. A Nazaré surge porque tinham um golden ticket com aquela situação extraordinária da onda gigante. Mas nós, enquanto ANS, trabalhamos com todo o país: Sintra, Figueira, Espinho, Porto e Matosinhos, para norte, Sines e Aljezur para sul. Temos cinco etapas e tentamos rodar - ainda temos a malapata com as ilhas. Se somos uma associação nacional, temos de lá ir. Portugal vale pelo todo e mesmo as provas internacionais já estiveram todas sob um mesmo chapéu a comunicar Portugal: o Meo Rip Curl Pro Portugal. Nós somos pequenos e teremos um posicionamento mais forte se formos juntos e deixarmos as guerrinhas de municípios. Essas barreiras têm de cair e o surf tem tido um papel."

É já com arroz-doce e café à frente - eu não como, ele não bebe - que lhe pergunto sobre os desafios que trará o próximo ano, que termina com as eleições para a ANS. É difícil acreditar que Francisco se afastará. "Terá de acontecer um dia", diz, e garante que vai gostar de passar ao próximo o que aprendeu. Mas até lá há muito a fazer: "Será o sétimo ano de Liga e queremos fazer sempre um bocadinho melhor. E há os 20 anos da ANS: seria interessante conseguir crescer agora como algo maior, como um evento com o campeonato lá dentro." Mas há um desafio maior neste projeto a longo prazo: "Ter um português no World Tour. E gostava que as pessoas acompanhassem mais o surf nacional, que entendessem que o percurso dos surfistas não se esgota nos campeonatos. Eles são mesmo exemplos."

Boteco da Linha

Couvert

Percebes

Camarão de Espinho

2 espetadas de porco preto

3 imperiais

1 arroz doce

1 café

Total: 34,20 euros

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