Neemias Queta não deixa que o basquetebol o defina. Nem as vitórias, nem os fracassos. Depois de se afirmar definitivamente na NBA e de garantir estabilidade em Boston com um novo contrato, o poste português dos Celtics continua a olhar para trás quase todos os dias e a pensar no caminho percorrido desde a infância na Margem Sul. À frente, porém, não coloca limites. All-Star? MVP? Admite que seriam conquistas especiais, mas há uma que surge sempre primeiro: voltar a ser campeão da NBA.Se hoje lhe retirassem o basquetebol, quem seria o Neemias Queta?A mesma pessoa. Sem dúvida. Não deixo que o basquetebol me defina ou faça de mim uma pessoa diferente.Quando está em Boston sente-se diferente do Neemias que está em Portugal?Acho que sim. É diferente a maneira como tenho de lidar com o meu dia a dia. Há certos aspetos da minha vida com que tenho de lidar de maneira diferente, mas não é algo que me faça muita diferença ou que me chateie muito.Qual foi a última vez em que pensou: “Como é que aquele miúdo do Vale da Amoreira veio aqui parar?”Praticamente todos os dias. É uma espécie de beliscão para acordar para a vida. E, quando não te sentes tão bem para jogar ou para treinar, podes usar isso como motivação.Lembra-se de onde estava quando percebeu que ía assinar o novo contrato com os Celtics?Sim. Estava em Boston.E o que pensou naquele momento?Fiquei sobretudo feliz pela realização de saber que ia ter uma casa durante mais tempo. Ia continuar em Boston sem ter de estar constantemente a olhar por cima do ombro e a pensar no futuro. Saber que Boston vai ser a minha casa durante vários anos foi o mais gratificante.Quem foi a primeira pessoa a quem ligou?À minha velha.E o que disse ela?Ficou contente, mas disse-me mais do mesmo: para manter sempre os pés assentes no chão e continuar a ser a mesma pessoa.Um contrato desta dimensão (56 milhões de dólares em 4 anos) altera necessariamente a vida. Já pensou no que gostaria de fazer com essa segurança financeira?Ainda não pensei muito nisso. Para mim, o mais importante era mesmo ter a estabilidade de saber que vou ficar mais anos na minha equipa e não ter de me preocupar constantemente com aquilo que o futuro poderia trazer. Tenho muitas coisas na cabeça e sei que quero retribuir de uma maneira ou de outra. Mas, quando assinei, o mais importante foi saber que ia continuar em Boston durante vários anos e poder chamar-lhe casa.Investir em Portugal interessa?Obviamente. É a minha casa. Nasci e cresci aqui e acho que é sempre bom podermos retribuir à nossa própria comunidade.E particularmente à comunidade onde cresceu?Acima de tudo.Que imagens lhe aparecem imediatamente quando pensa na infância?A escola, os sítios onde cresci, os meus amigos, a minha família. Ser tão alto era mais uma vantagem ou um incómodo quando era miúdo?Muitas vezes era incómodo. O pé era grande, as camas eram pequenas… comprar roupa também era uma inconveniência. Às vezes a roupa não durava mais do que um mês porque já tinha crescido. Havia esses incómodos, embora, ao mesmo tempo, tenha sido essa altura que também me ajudou a chegar onde cheguei.Sem a sua irmã, provavelmente não estaria hoje aqui, porque foi ela que o levou para o basquetebol. Falam sobre isso?Não falamos muito, mas acho que é bastante claro para os dois que, sem aquele momento, provavelmente não estaríamos aqui agora.O sucesso afasta necessariamente algumas pessoas?Não diria que afasta as pessoas de mim ou que eu me afasto delas. Às vezes é simplesmente difícil lidar com tanta coisa ao mesmo tempo. Sou apenas um ser humano e há momentos em que fico um pouco sobrecarregado. Acho que, às vezes, peco nesse aspeto, mas tenho boas intenções e tento fazer o meu melhor para estar com as pessoas o máximo possível.Fala sempre com muito carinho da família e, especialmente, da sua mãe. O que conserva da educação que os seus pais lhe deram?Acho que já está completamente enraizado em mim. É a minha maneira de agir e a minha forma de ser. Quando fazes determinada coisa desde criança, chega a uma altura em que nem te apercebes.Eles tiveram medo quando decidiu ir para os Estados Unidos?Sem dúvida. Qualquer pai ou mãe sente isso ao ver um filho ir para longe. Mas perceberam que podia ser algo muito bom para mim e que era uma oportunidade única na vida.Foi preciso convencê-los?Foi. Mas acho que também perceberam que o filho deles tinha juízo e a cabeça no sítio certo. A partir daí, confiaram em mim..Alguma vez pensou em desistir?Muitas vezes.Porquê?Quando somos mais novos comparamo-nos com outros jogadores e com outros miúdos. Há momentos em que sentimos que não estamos tão bem como gostaríamos e ficamos frustrados. Mas também tinha muita camaradagem no basquetebol. Os amigos faziam-me continuar a ir aos treinos. Depois começámos a treinar juntos fora dos treinos de equipa e fui ganhando um gosto diferente pelo jogo e comecei a trabalhar de outra maneira.com o lugar de onde parti. É isso que me dá mais gozo nesta caminhada.Recordas-se da primeira noite sozinho nos Estados Unidos? Como foi?Foi única. Cheguei ao apartamento, estavam lá os meus colegas, apresentei-me e depois fui para o quarto. Deitei-me e senti aquele vazio: “Agora estou mesmo aqui.” Foi um momento especial.Houve uma lágrima?Não, não chorei. Só depois [risos].Quando ouviu o seu nome no draft da NBA, o que sentiu?Realização. Fiquei muito contente. Mostrei os 32 dentes a toda a gente [risos]. Foi um momento muito especial.Depois de Sacramento veio Boston. Quando os Celtics apareceram, sentiu que era a última oportunidade ou apenas mais uma?Via-a como mais uma oportunidade. Tinha outras equipas interessadas, mas percebi imediatamente que Boston era o lugar ideal para mim. Não apenas pela história, mas também pela forma como, nos anos anteriores, tinham construído equipas competitivas, capazes de chegar longe nos play-offs, e pela qualidade dos jogadores.E acabou campeão logo no primeiro ano.Sim. Acho que tínhamos tudo para dar certo. Também havia um historial de evolução de jogadores que estavam mais ou menos na minha posição e achei que fazia todo o sentido ir para Boston.Quem foi o primeiro jogador dos Celtics que o fez sentir verdadeiramente parte da equipa?Provavelmente o Payton Pritchard. Já o conhecia. Tínhamos treinado juntos antes e já existia alguma ligação. Quando fui para Boston recebeu-me de braços abertos. Conheci a família dele, fui muitas vezes a casa dele e ficámos muito amigos.Tem um anel de campeão da NBA. Dá por si a olhar para ele simplesmente porque sim?Não. Pode parecer arrogância, mas quero outro. Não quero olhar demasiado para aquele porque acho que é mais fácil sentirmo-nos satisfeitos e relaxarmos quando pensamos: “Já tenho um.” Ficar apenas em momentos de apreciação não é suficiente para mim.Qual é a memória do título que as câmaras não conseguiram verdadeiramente captar?O momento em que os confetis caíram. Ainda por cima fomos campeões em casa. Foi incrível. Parecia que os confetis nunca mais paravam de cair. E as celebrações nos dias seguintes também foram muito boas. A forma como a cidade nos recebeu foi especial.Na época 2025/26, apesar de não terem sido campeões, o que aconteceu consigo que ainda não tinha acontecido anteriormente?Individualmente, foi um ano em que consegui ganhar mais estabilidade na Liga, ganhar mais respeito de toda a gente e colocar o meu nome no meio dos melhores jogadores do mundo. Agora é continuar a trabalhar para que 2026/27 seja ainda melhor.A palavra “titular” provoca-lhe que sentimento?Para mim é banal. Não me interessa muito. O que me interessa é ganhar jogos e ser campeão. Posso vir do banco, posso não jogar. O que interessa é ganhar.Já chamou nomes em português a um adversário precisamente por saber que ele não percebia?Claro que sim [risos].O treinador Joe Mazzulla é tão intenso como parece?Ainda mais.Já tiveram grandes discussões?Não discutimos muito. Normalmente estamos na mesma sintonia. Quando sinto alguma coisa de maneira diferente, vou falar com ele e é o primeiro a abrir a porta do gabinete para conversarmos. Acho que essa abertura é crucial para o sucesso que ele tem.Mazzulla veio a Portugal consigo. O que significa um treinador querer conhecer as origens de um jogador?Significa muito. Um treinador ter essa vontade de criar uma ligação fora de campo, em momentos em que nem sequer é suposto estarmos juntos, e ter disponibilidade para conhecer a minha terra, a minha família, os meus amigos, as pessoas com quem cresci e o sítio onde cresci é muito importante. Ajuda-o a perceber o contexto de eu ser como sou. E cria um ambiente em que podemos dizer tudo um ao outro sem pensar duas vezes.Além das suas origens, o que lhe mostrou de Portugal?Na altura eram os Santos Populares. Fomos comer umas boas sardinhas, levei-o ao Barreiro e jogámos um bocado de padel. Ele ficou mesmo português [risos]. Disse que voltaria com a mulher e os filhos, por isso vai ter de acontecer novamente..No balneário dos Celtics, quem é o mais engraçado?O Ron (Harper) está lá em cima. É dos mais engraçados. O Mitch (Dillon Mitchell), apesar de o ter conhecido durante pouco tempo, acho que também vai ser dos mais engraçados. E o Derrick (White) também é muito engraçado.Quem fala mais?O Derrick. Fala muito [risos].Quem é que nunca levaria a jantar enquanto não acertasse contas consigo?Jordan Walsh. Ainda me deve um jantar. Primeiro tenho de cobrar esse [risos].O que sente quando ouve o hino português antes de um jogo da seleção?É muito especial. Quando estou a vestir a camisola da seleção e ouço o hino antes dos jogos fico um bocado arrepiado. Entramos para o jogo sabendo que há imensa gente a contar connosco e vamos com ainda mais raça, mais força e mais vontade.Na seleção sente que é visto como a estrela da equipa?Eu não me vejo dessa maneira. As pessoas colocam a confiança e os holofotes onde quiserem. Dentro do balneário e dentro de campo, o nosso grupo é bastante unido e não pensamos assim. Pelo menos eu não penso assim.O que pode Portugal fazer no caminho que tem pela frente?O objetivo é qualificarmo-nos. Não queremos pensar demasiado mais à frente porque temos jogos pela frente e jogos difíceis. Sabemos que, estando focados, com a máxima concentração na forma como queremos defender e atacar cada adversário, temos hipóteses contra todas as equipas.Quantos jogos da Liga portuguesa de basquetebol vê?Costumo ver. Não apenas porque gosto de basquetebol e de aprender ao ver outras pessoas jogar, mas também pela afinidade que tenho com certos jogadores. Tenho muitos amigos a jogar na Liga portuguesa e é gratificante conseguir acompanhar a época deles sempre que é possível.O que é que um adepto que vê NBA, e até percebe de basquetebol, não consegue perceber verdadeiramente ao ver os jogos pela televisão?É muito mais rápido do que as pessoas pensam e muito mais difícil do que parece. Tecnicamente é muito detalhado. Um pequeno passo para a esquerda ou para a direita pode ser a diferença entre um triplo completamente aberto, um lançamento muito contestado ou um desarme. Há uma enorme quantidade de nuances que nem sempre se percebem de fora.Qual é o contacto físico mais violento debaixo do cesto?Talvez quando estamos no poste baixo a defender e temos de contrariar o atacante com o peito. Há determinados momentos em que podemos usar o braço, mas chega uma altura em que temos mesmo de aguentar a posição com o peito. E também existe toda a questão da verticalidade debaixo do cesto, quando alguém salta para lançar e vem diretamente ao contacto connosco.O que lhe falta conquistar na NBA? Um All-Star?Não quero colocar limites a mim próprio. Acho que ainda tenho muito pela frente para conquistar. Claro que seria ótimo ser All-Star, seria ótimo ser MVP e conquistar todas essas coisas. Mas não quero colocar esses limites porque cada pessoa corre a sua própria corrida e temos de estar contentes com aquilo que fazemos. Mas quero outro anel.Já pensou em continuar no basquetebol como treinador depois de terminar a carreira?Não. Treinador, não [risos].Nunca?Não quero dizer nunca, mas duvido muito. Acho que ser treinador exige lidar com demasiadas coisas e com muitas dinâmicas diferentes. É demasiado intenso para mim.E ser dono de uma equipa? Isso já acho que sim. É mais o meu perfil..Neemias Queta ajuda Celtics a vencer 76ers e fica a um triunfo das meias-finais de conferência.Neemias Queta afirma-se como peça cada vez mais determinante nos Boston Celtics