Navegação solitária. Recorde de volta ao mundo pulverizado

A bordo do super trimaran Macif, François Gabart fez a volta ao mundo à volta em 42 dias e 16 horas, a uma média superior a 50 km/hora. Tirou mais de seis dias ao anterior recorde.

Quando o francês Thomas Coville reduziu, em 2016, o recorde da volta ao mundo à vela em solitário de 57 dias para 49 dias, toda a gente na comunidade internacional da vela oceânica pensou que se trataria de uma marca que demoraria anos a ser batida. Nada mais errado.

Um ano depois, um outro francês, François Gabart, volta a pulverizar o recorde, reduzindo a marca para 42 dias, 16 horas, 40 minutos e 35 segundos.

Aos 34 anos - e sendo velejador profissional há apenas dez anos - tirou ao anterior recorde seis dias, 10 horas, 23 minutos e 53 segundos. Toda a gente volta a dizer que é outra marca do outro mundo - mas agora verdadeiramente já ninguém garante nada. Gabart cruzou a linha de chegada (que tinha sido a de partida), entre os faróis de Lizard (Reino Unido) e Créac"h (França), na entrada do Canal da Mancha, às 2.45 da madrugada de domingo (menos uma hora em Lisboa) e pelo amanhecer estava a chegar ao porto de Brest, onde o aguardavam, além da sua equipa de terra e família, centenas de entusiastas da vela e uma multidão de jornalistas (o jornalismo desportivo em França não é dominado pela monocultura do futebol).

Decisivo para a obtenção deste recorde foram condições meteorológicas globais quase sempre favoráveis e um veleiro - o trimaran Macif, de 30 metros, lançado ao mar em 2015 - que é o suprasumo da tecnologia e dispõe de foils, os patilhões em forma de "J" que fazem os cascos erguerem-se acima da água, diminuindo o atrito e aumentado assim brutalmente a velocidade da embarcação. França é o único país do mundo onde se continuam a fazer estas verdadeiras naves espaciais à vela.

Além do mais, foi também importante um enorme talento na definição dos rumos (do próprio Gabart mas também da sua equipa de terra, com quem estes navegadores solitários se mantém sempre em contacto) e alguma capacidade de risco. No Pacífico, por exemplo, Gabart desceu mais a sul do que Coville, quase a tocar no paralelo 60, em procura de ventos mais fortes - e a tal ponto que a certa altura se assustou com a presença de icebergs, pondo ligeiramente o "pé no travão" e rumando de novo a norte. O valor da proeza de Gabart é reforçado pelo facto de ter sido conseguida à primeira tentativa. Coville só lá chegou depois de quatro fracassos.

Para conseguir o recorde, o velejador francês - que já tinha vencido em 2013 a Vendée Globe, regata solitária de volta ao mundo em monocasco - teve de fazer uma velocidade média de 27,2 nós (50,3 km/hora), com a velocidade máxima a chegar aos 39,2 nós (72,5 km/hora). Percorreu, ao todo, 27859 milhas (51,5 mil km).

A barreira dos 40 dias

Com a marca agora estabelecida, Gabart fica a menos de 48 horas do recorde absoluto de volta ao mundo à vela, que é de uma tripulação de seis homens capitaneada pelo francês Francis Joyon, a bordo do IDEC 3: 40 dias, 23h, 30m e 30 segundos. Destruir a barreira dos 40 dias na circumnavegação do globo parece ser agora o grande desafio da vela oceânica. Para isso foi lançado ao mar há semanas um outro super trimaran, o Banque Populaire IX, com mais dois metros de comprimento do que o Macif. Há uma outra equipa, a do trimaran Spindrift, pronta para partir.

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