A maior crise política da presidência de Gianni Infantino ganhou uma nova dimensão esta semana. Depois do abandono do projeto FIFA Forward Enterprise (FFE), que previa a entrada de investidores privados na exploração de parte dos direitos comerciais da FIFA, o presidente do organismo voltou a ser alvo de forte contestação após o The Times revelar que terá associado o apoio das federações africanas à possibilidade de Marrocos receber a final do Campeonato do Mundo de 2030. A FIFA rejeitou categoricamente essa versão, classificando-a como "falsa e enganosa" e garantindo que ainda não existe qualquer decisão sobre o palco da final.A polémica surge numa altura em que a liderança de Infantino atravessa o período mais delicado desde que assumiu a presidência da FIFA, em 2016. Para Miguel Poiares Maduro, antigo ministro, constitucionalista e antigo presidente do Comité de Governação da FIFA, nenhum destes acontecimentos constitui uma surpresa. Pelo contrário. Considera que representam apenas o culminar de um processo que se arrasta há vários anos e que resulta da crescente transformação da FIFA numa organização dominada pelos interesses comerciais. "Não me surpreende a atitude dele e o comportamento dele", afirma ao Diário de Notícias. "O passo que ele procurou dar, trazendo investidores privados para uma nova empresa destinada à comercialização dos direitos das competições, é apenas mais um passo, lamentável, num processo que já ocorre há muitos anos na FIFA e também noutras grandes competições do futebol: o da hipercomercialização destes eventos e da prioridade crescente aos lucros relativamente a outros interesses que a FIFA deveria proteger."Na perspetiva de Poiares Maduro, a organização afastou-se progressivamente da missão que justificou a sua existência. "A FIFA é uma entidade sem fins lucrativos e não devia ter como prioridade os lucros." Em vez disso, sustenta, "tem subordinado objetivos fundamentais, como a acessibilidade das competições aos adeptos, a saúde dos jogadores, o equilíbrio competitivo ou uma distribuição mais justa do valor gerado pelo futebol."O antigo responsável lembra que o projeto entretanto abandonado apenas tornava mais evidente essa lógica. "Ao trazer investidores privados para a gestão direta dessas competições, era óbvio que esses investidores iriam querer, antes de mais, retorno financeiro."Na sua leitura, a atual contestação também não surgiu de forma inesperada. O conflito entre a FIFA e a UEFA vinha acumulando tensão há vários anos, sobretudo desde a criação do novo Campeonato do Mundo de Clubes, competição promovida por Gianni Infantino e vista em vários sectores do futebol europeu como uma ameaça ao equilíbrio competitivo e económico das provas organizadas pela UEFA.Poiares Maduro lembra que Aleksander Čeferin foi, durante largos anos, um dos dirigentes mais próximos de Infantino, mas considera que essa relação se deteriorou precisamente quando os interesses estratégicos das duas organizações começaram a divergir. "Uma leitura é a de que a UEFA está a proteger a integridade do futebol. A outra, mais perversa, é que procura sobretudo proteger os seus próprios interesses comerciais e evitar concorrência da FIFA, mantendo a concentração do dinheiro do futebol na Europa."Poiares Maduro receia que a história esteja prestes a repetir-se. "O que eu temo é uma repetição de 2016. Há uma grande indignação pública, o mundo do futebol percebe que tem de responder para evitar uma intervenção externa e acaba por sacrificar o líder. Na altura foi Blatter. Agora poderá ser Infantino. Mas isso não significa que o sistema mude verdadeiramente."Questionado sobre quem poderá suceder a Gianni Infantino, Miguel Poiares Maduro admite que a resposta está longe de ser animadora para quem espera uma mudança profunda na forma como a FIFA é governada. "Eu acho que ele não tem condições para continuar como presidente da FIFA, mas devo dizer que todos os nomes de que tenho ouvido falar para o substituir também não me levam a acreditar que haja uma verdadeira mudança."Entre os potenciais sucessores, Poiares Maduro identifica como hipótese mais plausível o presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Sheikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa. Não porque o considere um reformista, mas porque entende que é o candidato com maior capacidade para reunir apoios entre as diferentes confederações. "Eu tive casos com ele enquanto presidente do Comité da Governação que me dizem que ele não é em nada diferente de Infantino. Em algumas coisas até poderia ser pior."Para Poiares Maduro, esta realidade demonstra que o problema não reside apenas na figura de Gianni Infantino, mas no próprio sistema político da FIFA, construído ao longo de décadas através de equilíbrios entre confederações e federações nacionais. "A única hipótese de reforma séria é se ela for imposta a partir de fora." Na sua perspetiva, essa pressão terá de partir das instituições públicas e, em particular, da União Europeia. "A União Europeia, do meu ponto de vista, é quem tem maior probabilidade, em conjunto com outros Estados, de impor algumas reformas."A experiência vivida dentro da própria FIFA explica, em grande medida, o pessimismo com que Miguel Poiares Maduro encara a possibilidade de uma mudança profunda. O jurista português presidiu ao Comité de Governação criado após a queda de Joseph Blatter, precisamente com a missão de reforçar a independência dos órgãos de fiscalização e devolver credibilidade à organização. Contudo, poucos meses depois acabou por abandonar funções, convencido de que as reformas anunciadas em 2016 estavam condenadas ao fracasso."Quando saí, eu e os meus colegas escrevemos claramente que entendíamos ser impossível exercer, com independência, funções de controlo e de fiscalização na FIFA. Do nosso ponto de vista, o objetivo das reformas de 2016 tinha falhado."Na sua opinião, o principal problema nunca foi resolvido. “Quando quem é suposto controlar está na dependência política daqueles que é suposto controlar, não é independente. Está naturalmente sujeito ao risco de ser removido se tomar decisões que desagradem a quem exerce o poder."O antigo dirigente deixa, por isso, um aviso para o futuro imediato. Se toda a pressão pública se limitar à figura de Gianni Infantino, sem questionar o funcionamento da organização, a oportunidade de mudança poderá voltar a perder-se. "A FIFA só mudará com uma pressão muito forte do exterior.".Secretário-geral da FIFA apela à união dos funcionários após crise interna .UEFA diz ter "perdido a confiança" em Infantino e agrava crise na FIFA