Os Campeonatos da Europa ainda decorrem, mas Miguel Arrobas prefere olhar para um horizonte bem mais largo do que os resultados que vão sendo registados em cada prova. Para o presidente da Federação Portuguesa de Natação (FPN), o crescimento da modalidade não se mede apenas em finais, recordes ou medalhas. Mede-se na capacidade de aumentar o número de praticantes, criar melhores condições para o treino, reforçar a competitividade internacional e garantir uma estrutura financeira sólida que permita sustentar esse desenvolvimento ao longo dos próximos anos.É essa visão que atravessa toda a estratégia da direção liderada pelo antigo olímpico, que identifica três prioridades para o mandato. "Se conseguirmos ter mais atletas, melhores resultados e uma federação financeiramente sustentável, sentirei que cumprimos a missão deste mandato", resume. A participação portuguesa nos Europeus permite, para já, algum otimismo. Antes do início da natação pura, a federação faz um balanço globalmente positivo das restantes disciplinas já disputadas.Nos saltos para a água, Miguel Arrobas considera que Luísa Arco correspondeu às expectativas, recordando que a atleta ainda está a dar os primeiros passos na alta competição internacional. Apesar das limitações existentes na modalidade, sobretudo ao nível das infraestruturas, o dirigente acredita que a jovem portuguesa poderá continuar a evoluir e tornar-se uma referência para o relançamento da disciplina em Portugal. A natação artística vive igualmente um momento de transição. Depois do fim do ciclo anterior, a modalidade iniciou um novo projeto técnico, liderado por uma nova selecionadora nacional, que pretende reconstruir progressivamente uma equipa competitiva. A presença de 13 atletas no Europeu enquadra-se precisamente nessa estratégia de avaliação e crescimento. "Estamos praticamente a começar um novo ciclo e este será um ano para perceber onde faz sentido concentrar o investimento."Nas águas abertas, disciplina onde Portugal construiu uma tradição sólida nas últimas duas décadas, o cenário é diferente. A aposta mantém-se firme e os resultados continuam a alimentar a ambição de voltar a colocar atletas portugueses nos Jogos Olímpicos. Miguel Arrobas lembra que foi precisamente a partir da entrada de Portugal no circuito internacional, em meados da década de 2000, que começou a ser construída uma verdadeira escola nacional de águas abertas, capaz de competir regularmente com os melhores. "Temos tradição, temos conhecimento e continuamos a acreditar que podemos voltar aos Jogos Olímpicos."Com a chegada da natação pura, concentram-se naturalmente as maiores expectativas. Portugal apresenta uma seleção experiente, habituada aos principais palcos internacionais, mas o presidente da FPN lembra que o nível competitivo europeu nunca foi tão elevado. O objetivo passa por colocar atletas em finais continentais, sem deixar de alimentar a esperança de lutar por medalhas sempre que as circunstâncias o permitam. "Queremos uma ou duas finais. As medalhas nunca deixam de ser um sonho, mas sabemos que o grau de exigência é hoje enorme."Grande parte dessas expectativas continua naturalmente concentrada em Diogo Ribeiro. Depois de um período menos conseguido, o campeão mundial continua a ser visto como a principal figura da natação portuguesa e um atleta com capacidade para voltar a competir ao mais alto nível. "O Diogo continua a ser a nossa grande referência. Está motivado, voltou a aproximar-se dos seus melhores tempos e acreditamos plenamente no potencial que tem."O dirigente sublinha, contudo, que o futuro da modalidade não pode depender apenas dos atuais campeões. A estratégia da federação passa por reforçar a formação, aproximando cada vez mais os jovens das seleções nacionais e proporcionando-lhes contacto regular com os atletas de elite. Os estágios conjuntos entre juvenis, juniores e seniores tornaram-se uma das principais apostas da direção. "É importante que um jovem nade diariamente ao lado daqueles que são hoje as suas referências. É assim que se cria ambição e cultura de alto rendimento."Mas é precisamente quando fala das condições de treino que Miguel Arrobas identifica aquele que considera ser o maior bloqueio ao crescimento da natação portuguesa. "Precisamos urgentemente de mais uma piscina de 50 metros no distrito de Lisboa."O presidente da FPN lamenta que a capital continue sem uma piscina municipal olímpica verdadeiramente disponível para o alto rendimento e considera incompreensível que infraestruturas existentes, como a do Estádio Universitário, continuem a ser insuficientemente aproveitadas para servir a preparação dos atletas portugueses. "Não pode haver uma boa escola de natação que não tenha como objetivo natural a competição."A federação tem procurado aumentar a utilização da piscina do Estádio Universitário através de contactos com a Universidade de Lisboa, mas o processo tem avançado lentamente. Para Arrobas, não faz sentido que uma infraestrutura desta dimensão continue sem um aproveitamento mais intenso por parte das seleções nacionais e dos clubes de competição. O problema, porém, estende-se a todo o país. O presidente da FPN entende que muitas autarquias continuam a olhar para as piscinas sobretudo como equipamentos de lazer e de utilização recreativa, relegando para segundo plano a prática competitiva. Ainda assim, reconhece que começam a surgir sinais positivos. Há novos projetos previstos para vários municípios e a federação tem sido chamada a colaborar na definição das características técnicas de futuras piscinas, procurando garantir que possam servir simultaneamente a população e o desporto federado. Entre os exemplos apontados estão os projetos em desenvolvimento em Vila Real e Chaves, que poderão reforçar a oferta de instalações no interior do país. .A sustentabilidade financeira das piscinas tornou-se outra das prioridades da direção. O elevado consumo energético continua a representar um dos principais obstáculos à gestão destes equipamentos, razão pela qual a federação estabeleceu contactos com empresas do setor para promover soluções mais eficientes. "Queremos que os municípios deixem de olhar para as piscinas como um problema financeiro e passem a vê-las como um investimento sustentável." A situação financeira da Federação Portuguesa de Natação constitui outro dos motivos de satisfação apontados pelo presidente. Depois de um período marcado por resultados negativos, Arrobas garante que a direção conseguiu inverter a tendência logo no primeiro ano de mandato e espera consolidar esse equilíbrio em 2026. “Uma federação só pode crescer se for financeiramente sustentável. Não podemos construir projetos sobre défices permanentes." Para alcançar esse objetivo, a FPN diversificou as fontes de financiamento, reforçando a ligação ao turismo, às autarquias e ao setor privado, numa estratégia que pretende associar o desenvolvimento da modalidade ao investimento em infraestruturas. Mas Miguel Arrobas insiste que o futuro da natação não se mede apenas pelo número de medalhas conquistadas. Um dos projetos que considera mais importantes para o mandato passa por “melhorar as competências aquáticas da população portuguesa e reduzir o número de afogamentos, uma realidade que continua a preocupar a federação”, referiu. Em conjunto com outras entidades ligadas ao ensino e ao salvamento aquático, a FPN apresentou ao Ministério da Educação uma proposta de revisão das aprendizagens essenciais relacionadas com a adaptação ao meio aquático, defendendo que todas as crianças devem adquirir competências de segurança na água durante o percurso escolar. “Paralelamente, está a ser preparada uma carta nacional das infraestruturas da natação, que permitirá conhecer em detalhe as características das piscinas existentes, a sua proximidade às escolas e a capacidade para acolher competições e estágios”. Apesar de reconhecer a importância dos Campeonatos da Europa, Miguel Arrobas considera que o verdadeiro sucesso da natação portuguesa será avaliado muito para lá dos resultados alcançados nesta competição. "Gostava de terminar este mandato com mais atletas, melhores contas e melhores resultados. Se conseguirmos isso, a natação portuguesa ficará mais preparada para o futuro." .Sexto lugar para o dueto técnico misto português nos europeus de natação artística