Lionel Messi diz que se "esvaziou", mas o seu é um adeus de vitória.
Lionel Messi diz que se "esvaziou", mas o seu é um adeus de vitória.Foto: Matthias Hangst/FIFA

'Me Vacié': Lionel Messi diz adeus à seleção da Argentina e fecha ciclo de ouro

Numa emotiva carta manuscrita, o capitão de 39 anos formaliza a despedida da Albiceleste após duas décadas de magia, glória mundial e devoção total: "Esvaziei-me. Não tenho mais para dar".
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Acabou. O romance mais dramático, triunfante e apaixonante da história do futebol contemporâneo chegou formalmente ao seu último capítulo. Lionel Andrés Messi, o homem que transformou a angústia de um país em glória eterna, anunciou esta segunda-feira, 31 de agosto, a sua retirada definitiva da seleção argentina. O adeus chegou despido de filtros corporativos: três folhas de um bloco de notas rabiscadas à mão, uma caneta dourada e uma confissão visceral que abalou o planeta desportivo.

Depois de Cristiano Ronaldo ter também traçado o ponto final no seu trajeto com a camisola das quinas – encerrando o capítulo da rivalidade mais marcante da história do desporto, na qual ambos foram eternamente apontados como iguais e soberanos no topo do futebol mundial –, é agora a vez de o astro de Rosario fechar as portas da ribalta internacional.

"Depois deste tempo que passou desde a final, e pensando muito, quero comunicar a todos que me retiro da Seleção… Foi uma decisão que doeu e dói na alma, mas entendo que é o momento. Juro-vos que sempre deixei tudo", escreveu o camisola 10 na sua conta do Instagram.

O esgotamento do génio e a passagem de testemunho

Com a serenidade de quem já nada tem a provar ao desporto-rei, Messi colocou em palavras o limite do corpo e da mente após mais de duas décadas ao mais alto nível internacional.

"Esvaziei-me, já não tenho mais para dar e, para além disso, vêm aí rapazes enormes que merecem o seu lugar", frisou o capitão, antes de assumir o seu novo papel: "Agora serei mais um a apoiar e a torcer de fora, nas vitórias e muito mais nas derrotas."

A declaração gerou um terramoto imediato na imprensa internacional e nas plataformas digitais. De Buenos Aires a Londres, de Madrid a Miami, publicações de referência como o La Nación, o Diario Olé, a Associated Press e o jornal britânico The Guardian interromperam as suas emissões habituais para dissecar o encerramento da era mais vitoriosa da Albiceleste.

Das lágrimas do calvário à imortalidade

O percurso de Messi com a camisola principal da Argentina – iniciado em 2005 com uma insólita expulsão em Budapeste – desafiou a lógica dos contos de fadas. Foram precisos anos de escrutínio impiedoso, finais perdidas e uma renúncia efémera em 2016 até à redenção total.

A viragem histórica começou com a consagração na Copa América de 2021 em pleno Maracanã, quebrando um jejum nacional de 28 anos, seguindo-se a conquista incontestada da Finalíssima e o topo do Olimpo com o triunfo lendário no Campeonato do Mundo de 2022 no Qatar, alicerçado numa liderança serena que devolveu o orgulho identitário a milhões de adeptos.

Ao longo de 20 anos, Messi disputou mais de 180 jogos e superou a barreira dos 100 golos internacionais, reescrevendo todos os recordes da Associação do Futebol Argentino (AFA). Um patamar de longevidade e eficácia global apenas superado pelo registo absoluto de Cristiano Ronaldo, líder histórico mundial de internacionalizações e golos por uma seleção: mais de 200 jogos e 130 golos por Portugal, coroados com o Euro2016 e a Liga das Nações de 2019.

O futuro imediato e os planos pós-carreira

Livre do desgaste e das exigências do calendário de seleções, o astro argentino concentrar-se-á agora em exclusivo na sua etapa final no Inter Miami e na Major League Soccer. Um percurso que espelha os passos já revelados pelo seu eterno rival português: tal como Cristiano Ronaldo delineou a reta final da sua carreira de clubes no Al-Nassr, combinando a competição com a expansão dos seus impérios empresariais e investimentos desportivos, também Messi reserva agora todas as energias para a consolidação da sua marca nos Estados Unidos e para os projetos que tem traçados fora das quatro linhas.

Mais do que o encerramento da etapa de clubes que se avizinha, o desenho da vida pós-futebol aproxima uma vez mais os dois maiores gigantes da história recente. Ambos rejeitaram categoricamente a transição para o banco de suplentes como treinadores principais, preferindo canalizar a sua influência e património para a gestão e propriedade de clubes.

Ronaldo e Messi, os eternos rivais dentro das quatro linhas, com carreiras que correram em paralelo, acabam por se retirar das respetivas seleções no mesmo ano.
Ronaldo e Messi, os eternos rivais dentro das quatro linhas, com carreiras que correram em paralelo, acabam por se retirar das respetivas seleções no mesmo ano.

Se Messi já expressou o desejo de construir e fazer crescer um clube próprio de raiz – complementando a sua participação no Inter Miami, a sociedade com Luis Suárez no Deportivo LSM e a aposta na formação de jovens talentos –, Cristiano Ronaldo traçou um rumo idêntico ao manifestar publicamente a ambição de se tornar proprietário de um clube de futebol de topo após pendurar as botas.

Paralelamente, o futuro fora dos relvados de ambos assenta em ecossistemas empresariais consolidados: se o camisola 10 argentino investe na produtora audiovisual 525 Rosario, em fundos de tecnologia desportiva como a Play Time Sports-Tech e no setor hoteleiro, com os MIM Hotels, antes de regressar em definitivo com a família a Barcelona, o astro português expande a marca global CR7, a cadeia hoteleira Pestana CR7 e múltiplos veículos de investimento.

Na sede da AFA, em Ezeiza, o sentimento é de comoção e gratidão unânime. O menino de Rosario que carregou nos ombros o peso da sombra de Diego Maradona despede-se da forma mais humana possível: em paz com o seu povo, com o dever cumprido e a promessa de que o amor pela camisola alviceleste perdurará para sempre.

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