Afonso Eulálio continua a desafiar as expectativas na Volta a Itália e, depois de resistir ao exigente contrarrelógio da 10.ª etapa, mantém a camisola rosa da geral, agora com apenas 27 segundos de vantagem sobre Jonas Vingegaard. O português da Bahrain Victorious, uma das grandes revelações desta edição do Giro, continua a surpreender o pelotão internacional, mas José Poeira garante que o atual momento do corredor não surgiu por acaso. O antigo selecionador nacional diz ter identificado sinais claros do potencial de Eulálio há vários anos e acredita que o ciclista está apenas a confirmar qualidades que já demonstrava nas seleções jovens. Para José Poeira, que acompanhou a evolução do corredor português desde os tempos de sub-23, o nome de Afonso Eulálio pode ter aparecido de forma inesperada para muitos adeptos, mas dentro do ciclismo havia sinais claros do talento do figueirense. “Ele esteve numas equipas portuguesas, esteve nos juniores e não era um nome que se notasse muito”, começa por recordar o antigo técnico, explicando que a verdadeira mudança aconteceu quando o corredor chegou aos sub-23 e começou finalmente a revelar “aptidão” e “qualidades” para competir num contexto internacional. Poeira recorda que uma das primeiras confirmações surgiu ao serviço da seleção nacional, numa Taça das Nações disputada na Polónia. “Na Polónia já mostrou que tinha qualidade, mantendo-se no pelotão internacional”, afirma, sublinhando que Eulálio conseguiu afirmar-se num contexto de enorme exigência competitiva. O antigo selecionador lembra ainda o papel importante desempenhado pelo português no apoio a António Morgado e a consistência exibida numa corrida onde “na última etapa o Morgado ganhou e ele faz quinto”, um resultado que, no seu entender, mostrou pela primeira vez que o corredor podia competir entre os melhores da categoria. As indicações continuaram a surgir pouco depois, numa prova na República Checa, onde José Poeira acredita que Eulálio podia ter ido ainda mais longe não fosse um problema mecânico decisivo. “Faz sétimo na geral e terceiro na etapa rainha, mas teve um azar num troço. Se não tivesse esse azar, se calhar estava a discutir o primeiro lugar na geral final”, sustenta o antigo selecionador, apontando esse episódio como uma demonstração clara da qualidade competitiva do atual líder do Giro. .No entanto, para José Poeira houve um momento específico que mudou tudo: o Mundial de Kigali, em 2025. Numa corrida particularmente dura, disputada em altitude e com forte desgaste acumulado, Eulálio terminou no nono lugar, numa prestação que o antigo técnico considera decisiva para alterar a perceção da equipa e do próprio corredor. “A equipa ficou com outra visão dele, ficou com outra imagem, começou a acreditar mais nele”, afirma. Mais do que isso, Poeira acredita que a própria confiança do português mudou depois dessa corrida. “Ele próprio começou a achar que é capaz de mais coisas do que apenas trabalhar para os colegas”, refere, acrescentando: “Começou a perceber que também tem potencial”. A atual liderança no Giro, admite José Poeira, pode parecer surpreendente, mas a forma como Eulálio a tem defendido impressiona-o ainda mais. O português conquistou a camisola rosa após a fuga da quinta etapa e, desde então, tem resistido aos ataques dos favoritos, incluindo depois do contrarrelógio, uma especialidade assumidamente menos favorável às suas características. “Às vezes conseguir o feito até se consegue, mas depois manter é mais difícil. E essa parte ele está a fazer muito bem”, elogia o antigo selecionador, destacando a capacidade do ciclista para gerir o esforço ao longo de uma corrida de três semanas. Mas, para Poeira, o maior trunfo de Eulálio pode nem estar apenas nas pernas. O antigo técnico descreve-o como um corredor particularmente forte do ponto de vista emocional e tático. “Ele é um corredor calmo, uma pessoa calma, que não entra em stress”, afirma, considerando que essa serenidade é fundamental num contexto de enorme pressão como o de liderar uma grande volta. “Há corredores que chegam à liderança e ficam nervosos. Acho que ele está a saber lidar bem com isso”, acrescenta, lembrando que essa tranquilidade já tinha ficado evidente nos Mundiais, onde o português mostrou capacidade para competir sem ansiedade perante um palco de enorme responsabilidade. José Poeira elogia igualmente a inteligência competitiva do ciclista da Bahrain Victorious e a forma como se movimenta no pelotão. “Ele sabe onde é que tem de estar, sabe em que roda se tem de colocar nos momentos decisivos”, aponta. O antigo selecionador considera ainda que a técnica demonstrada nas etapas mais nervosas do Giro é reveladora do nível já atingido pelo português. “Para andar ali, no meio deles, na parte final da corrida, naquelas zonas técnicas, é preciso ter técnica”, sublinha. Apesar do entusiasmo, Poeira prefere manter prudência quanto ao resultado. A última semana do Giro continua a ser vista como o grande teste à resistência do português. “Uma coisa é uma corrida de uma semana, outra são três semanas”, avisa. Ainda assim, mostra confiança no potencial competitivo do jovem ciclista português. “Gerindo isto bem, ele pode perfeitamente lutar por um lugar dentro dos dez primeiros”, antecipa, recusando colocar pressão excessiva sobre um corredor que, na sua perspetiva, já ultrapassou todas as expectativas. “Tudo o que ele já fez é extraordinário”, resume o antigo selecionador nacional..Afonso Eulálio segura camisola rosa após etapa intensa do Giro ganha por Narváez.Eulálio resiste ao “crono” e mantém a camisola rosa no Giro apesar do triunfo de Ganna