O ex-treinador critica o individualismo que domina a modalidade e defende um futuro onde o basquete português seja mais virado para o coletivo. Por isso aceitou ser mandatário da candidatura de Carlos Barroca à Federação. Quase quatro décadas ligadas ao basquetebol enquanto treinador com a conquista de inúmeros títulos, numa carreira que todos consideram de sucesso. Jorge Araújo abandonou os pavilhões quando deixou o comado técnico da Ovarense em 2003, mas só praticamente um ano depois é que anunciou a decisão: a carreira de treinador tinha na altura um ponto final.Atualmente dedica-se a passar conhecimentos sobre liderança. Trabalha essencialmente com empresas: “na prática, o meu exercício enquanto treinador teve sempre a ver com liderança. Ao longo destes anos todos que se passaram desde que terminei a minha carreira de treinador vim a aprender gradualmente. Não é tanto a questão da liderança que é fundamental, mas a questão das pessoas, da relação entre as pessoas e da luta para objetivos comuns”, explicou ao DN Jorge Araújo. “Aquilo que tinha vivido foi muito rico, porque me tinha ensinado que primeiro é preciso respeitar as pessoas na sua diversidade, segundo é preciso conseguir nessa diversidade pôr as pessoas com objetivos comuns e terceiro, para que isso seja possível, é preciso que as pessoas tenham confiança mútua e tenham um compromisso com esse objetivo e aqui é que reside toda a dificuldade”, continuou.O que agora transmite aos outros é reflexo do que viveu e aprendeu enquanto treinador e que o levou ao estatuto de um dos mais conceituados técnicos de basquetebol a nível nacional.“A minha primeira época de treinador, que foi no Belenenses, ensinou-me a incompatibilidade de interesses entre querer ser em simultâneo jogador e treinador, porque são duas coisas diferentes. Não nos podemos esquecer que somos pessoas, e sejamos jogadores ou treinadores, se nos deixarem, pensamos primeiro em nós. Quando numa equipa é preciso pensar primeiro no todo”.É por isso que defende que os chamados líderes inspiradores e mobilizadores deram mostras de que são capazes de sacrificar a sua vida individual ao serviço do coletivo. Jorge Araújo está convicto de que esta forma de agir é igual para todas as áreas da sociedade. Por isso o desporto, e concretamente o basquetebol, não foge à regra. Sem ter rompido definitivamente com a sua modalidade, admite que não concorda com muito do que se passa no basquetebol, não só a nível nacional, como também no plano internacional.“Neste meu interregno cheguei a ser Presidente da Assembleia Geral da Federação. Durei seis meses neste desempenho porque rapidamente tudo aquilo me desiludiu. O basquetebol ao longo do tempo foi-me desiludindo. E objetivamente nos tempos atuais, eu, que fui uma pessoa que foi retirar à NBA uma série de coisas, hoje desgosto-me muito de ver o que a NBA é. Não tanto por se tornar um negócio porque tornar-se um negócio, é o caminho que têm de tomar. Hoje olhamos para uma equipa da NBA e a última coisa que vemos é a manifestação coletiva. Aquilo que se vê é acima de tudo o individualismo. E lamentavelmente esse modelo tem expressão a todos os níveis, em termos mundiais e no nosso basquete também, tem uma expressão dolorosa. Às vezes faço a experiência de ver jogos de jovens e até me choca. Porque os jovens hoje procuram imitar o basquete da NBA e esse não é modelo em termos coletivos”.Sem querer regressar ao basquetebol de forma ativa, mas assumindo a paixão pela modalidade, Jorge Araújo aceitou uma responsabilidade - ser mandatário da candidatura de Carlos Barroca à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol. Diz que não terá qualquer cargo, caso o seu candidato seja eleito, mas pretende voltar a falar de basquetebol.“A ideia central de aceitar este convite foi ser útil, ou seja, tenho a perfeita perceção de que o facto de me ter afastado da modalidade retira uma possibilidade de continuar a ser útil. O convite do Carlos deu-me uma possibilidade. Quero procurar que o basquete português do futuro seja um todo maior que a soma das partes. E para isso, cada uma das partes tem de sentir que faz parte de um projeto contínuo”, continuou Jorge Araújo que fez questão de salientar ainda que “disse várias vezes às pessoas que dirigiram no passado o basquete que uma das coisas que lamentava é que a modalidade não tivesse evoluído. Não é que não tivesse resultados e até ultimamente teve alguns resultados bastante interessantes. Mas o problema é que nem de longe nem de perto, sendo uma modalidade coletiva, foi sempre uma modalidade muito individual, muito de grupos em particular e não do basquete como um todo”.Admite que, enquanto modalidade coletiva, ainda falta um caminho longo para que a sua modalidade de coração se equipare ao andebol ou ao futsal. “Isso é tão visível que nem é preciso ser especialista para chegar a essa conclusão. Repare que nós em 74, 75 e 76, do século passado, éramos um modelo mesmo para o próprio futebol profissional. E agora já não somos. Fomos ultrapassados por imensas outras modalidades. E quando digo ultrapassados não me refiro só à questão dos resultados. Não é tanto aí que me preocupa. O que me preocupa é a modalidade se ter tornado a modalidade de alguns e não a modalidade de todos”, concluiu. .Jorge Araújo: "Sabedoria é o treinador dar espaço para os jogadores se expressarem".Carlos Barroca. O homem da NBA que quer mudar o basquetebol em Portugal