Irmãos surfistas sagram-se campeões nacionais

Pedro e Carol Henrique falam com o DN sobre o feito de família

Pedro Henrique garantiu o título nacional no Guincho, apesar de ter sido eliminado nas meias-finais do Cascais. A irmã, Carol, já entrara na última etapa como campeã nacional. Um feito inédito no surf português para a família luso-brasileira Henrique, que em 2016 dominou por completo a Liga Moche

Entrevista Pedro Henrique,

34 anos,

campeão nacional de surf

"Título completa a história do que estamos a fazer em Portugal"

Foi um dia muito emotivo. Qual é o sentimento depois de vencer a Liga Moche?

Foi um dia puxado. O meu objetivo era chegar à final e não ter de depender dos resultados de outros. Fiquei pelas meias--finais... não gostei mas faz parte da competição. Fiquei muito contente por ter conseguido vencer porque o título não se refere apenas a esta etapa, mas ao trabalho que fazemos durante todo o ano. Traz uma satisfação de dever cumprido, que o trabalho foi bem feito, e dá-me motivação para perseguir o outro objetivo, que é voltar ao WCT (Wold Surf League, o circuito mundial de surf).

Quando foi eliminado, na meia-final, sentiu o título a fugir?

Não me senti pressionado em nenhum momento da prova. Deixei nas mãos de Deus e tentei fazer o que sei, que é surfar. Esse foi o meu foco principal. É lógico que queria muito vencer, mas deixei que fosse como Ele quisesse e mantive a minha tranquilidade. Olhando para o ano todo, acho que foi muito produtivo, tive bons resultados, e isso é o mais importante.

Não quis ver o que se passava na água durante a final. A ansiedade era muita?

Acordei às quatro da manhã e cheguei à praia muito cedo, então sentia-me muito cansado. Como não podia fazer nada e estava fora do meu controlo, preferi não ver a final [se José Ferreira ganhasse, seria campeão], até porque não acho correto ficar a torcer contra alguém, nem faria diferença.

Vasco Ribeiro e Kikas foram ao WQS da Costa Rica. Pensou nisso, ou ficar cá e conquistar a Liga Moche foi mais importante?

Optei por ficar e tentar garantir este título, que era o primeiro e significava muito para mim. Cada um tem os seus objetivos, o Kikas e o Vasco já foram campeões algumas vezes, não seria novidade para eles, enquanto que a classificação para o WCT sim. Para mim era mais importante estar aqui, mas ao mesmo tempo gostaria de estar lá. Infelizmente não consigo participar em algumas provas porque não tenho patrocinador para fazer o circuito mundial, vou fazendo as que consigo. Acho que a decisão foi certa, lutei por um objetivo e acabou tudo por dar certo.

Como se sente com o estatuto de campeão nacional?

É tudo muito recente, ainda não assimilei o que pode mudar na parte profissional. O título é muito importante, traz uma alegria diferente. Completa um pouco a história do que estamos a fazer desde a mudança para Portugal, de nacionalidade, tenho competido de todo o coração pelo país no circuito mundial nos últimos anos, tem sido muito importante a forma como tenho sido recebido aqui. O título reforça um pouco isso, não sei explicar muito mas dá-me uma sensação muito boa.

O que tem a dizer sobre o domínio da familia Henrique no surf nacional?

Vejo como o resultado de um trabalho. Acompanho a minha irmã Carol desde o início, sei que ser campeã significou muito para ela. Como ela venceu primeiro o campeonato (já tinha o título assegurado antes da última prova), já tínhamos falado "já imaginou sermos campeões juntos?", mas nada que trouxesse pressão. Acabou por acontecer, traz uma motivação e mostra que estamos os dois a trabalhar bem. Temos de continuar a dedicar-nos e a trabalhar forte para alcançarmos os objetivos que nos faltam.

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Entrevista Carol Henrique,

20 anos,

campeã nacional de surf

"Podermos estar em família a comemorar juntos é incrível"

Quatro vitórias em seis etapas e o título nacional. Que balanço faz do ano?

Foi um ano incrível para mim, treinei bastante para o circuito nacional, mas não imaginava que ia acabar assim. Foi incrível, não esperava ter garantido o título antecipadamente. Nós treinamos mas nunca sabemos o que vai acontecer. Estou muito contente e foi um sonho tornado realidade.

Foi eliminada na meia-final. Este evento foi para descomprimir ou ficou nervosa com a situação do seu irmão Pedro?

Descomprimi um pouco, moro aqui em Cascais, é em casa. Não estava com aquela pressão, sentia-me tranquila, estava a surfar só por mim. O mar estava complicado, não consegui encontrar duas ondas boas nas minhas baterias e acabei por ficar com o 3.º lugar. Não foi mau. O campeonato foi do meu irmão, não ganhei a etapa mas só o estar com ele e assistir à vitória dele foi como se tivesse ganho. Foi uma vitória dupla!

Sente isto como o culminar do trabalho que têm vindo a fazer em Portugal?

Devo muito isso ao Pedro, ele veio primeiro para Portugal e disse-me para vir treinar e evoluir o meu surf. Não sabia o que me esperava mas acreditei no que ele me disse, e também queria estar perto dele para treinar. Foi o resultado de muito treino de ambos. Aqui o Inverno é frio, às vezes a água está gelada, a praia está vazia mas nós temos de estar lá e treinar. Se não tivermos o foco naquilo que queremos e tirar proveito desse trabalho, fica difícil. Quando ganhamos, as pessoas nem sabem o treino que foi preciso... numa segunda-feira fria, ter de entrar na água. É fixe isso de ganhar e olhar para trás e perceber que valeu a pena todo o esforço.

Foi um feito inédito no surf português. Como é que estão a viver estes momentos?

Foi mesmo único. Ainda nem passou um dia, a ficha ainda não caiu. Estamos meio "caramba, fomos campeões juntos!". Realmente foi um sonho e foi incrível. Eu ter sido campeã já tinha sido algo único, agora ser campeã junto com o meu irmão, podermos estar em famiília e a comemorar juntos, é mesmo incrível.

Os títulos podem ajudar-vos a arranjar patrocínios para correr o WQS?

Acho que sim, é sempre uma mais-valia. Saímos nos media, as pessoas vão-nos conhecendo e veem que temos potencial. Isso é fruto do trabalho, os patrocinadores vão aparecer com o tempo. Agora é ter calma e tomar as decisões certas. Mas espero que este título seja a chave para no futuro ter apoio para competir no WQS.

Que precisa de evoluir no seu surf para chegar ao WCT?

Este ano no WQS foi muito bom para mim. Antes eu ia para as etapas como se fosse uma novata, por assim dizer. Este ano senti--me muito confortável, já fiz pontos e consegui entrar nas rondas mais à frente. Isso faz muita diferença porque não estás a começar de baixo. Saber que estás num campeonato com hipótese de vencer faz toda a diferença. O WQS é um trabalho, senti que evoluía de etapa para etapa. Estou em 35.º no ranking, o melhor que consegui. Fiz um 2.º lugar em Santa Cruz, 3.º em Israel, um 9.º num WQS6000, foi o meu melhor resultado. O nacional tem servido de base para esses campeonatos. Para o ano vou dar tudo.

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