"Quando estou sozinho no mar falo baixinho. Não quero incomodar"

Portugal e o mar. As duas paixões de criança de Ricardo Diniz transformaram-se num modo de vida. Hoje, aos 40 anos, o velejador solitário português continua abraçar desafios - ou missões, como faz questão de dizer - que lhe permitam comunicar o país além-fronteiras.

O próximo projeto, em outubro, será transportar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima até ao Brasil. Sempre com um imenso respeito pelo oceano e à procura da sintonia perfeita entre o homem e a natureza.

Tinha 8 anos quando ganhou o desejo de dar uma volta ao mundo à vela, depois de ver em Londres o veleiro Gipsy Moth IV, de Sir Francis Chichester, inglês que já tinha cumprido esse desafio por duas vezes. Recorda-se do que o fascinou?

O veleiro de Sir Francis Chichester transmitiu-me uma sensação total de liberdade, que era algo que eu precisava muito, e senti que aquele objeto era uma espécie de brinquedo mas que dava para brincar ao longo de toda uma vida. Era um objeto que tinha uma função, mas que representava para mim algo divertido e desafiante. Nunca tinha pensado em veleiros, muito menos em voltas ao mundo, ainda menos em solitário, e, de repente, foi como descobrir um novo universo. É como se estivesse perante uma megaenciclopédia e sentisse imensa vontade de ler e estudar todas as páginas.

Essa vontade de descobrir foi instantânea?

Completamente. Parecia que me tinham batido com uma coisa na cabeça. Foi fortíssimo. Fui logo à procura de todos os livros que pudesse encontrar sobre o assunto e comecei a devorá-los.

Estava com o seu pai nesse dia [o jornalista João Paulo Diniz]. Fez-lhe logo ali muitas perguntas sobre a modalidade vela?

Não percebi vela como uma modalidade e, ainda hoje, não me enquadro nesse campo. Ou seja: modalidade é desportiva e o que eu faço não é desporto. É missão. É desenvolver expedições para comunicar Portugal. Portanto, a única coisa que eu disse ao meu pai foi que achava tudo aquilo espetacular e que um dia ia fazer o mesmo: "Vou ser velejador solitário e dar voltas ao mundo." Eu já tinha uma enorme paixão pelo mar e, de repente, aquele barco mostrou-me que era possível passar dias, semanas ou meses no mar. Fiquei fascinado. No entanto, nessa idade, o que já me estava a moldar bastante era a imensa saudade que tinha de Portugal. Sentia-me farto de estar em Londres e queria regressar ao meu país. Essa é que foi realmente a primeira paixão da minha vida porque é muito difícil sair com 5 anos do nosso país, que é tão especial, e estar num sítio como Londres onde nem sabem o que é uma sopa, onde está sempre cinzento... Aquele barco, aliado à nossa história - que já começava a conhecer -, transmitiu-me esse desejo de velejar.

Como aprendeu a velejar?

Tentava juntar-me a pessoas com quem pudesse aprender e nem sempre foi fácil. Senti alguma resistência.

Por ser tão novo?

Por ser tão novo, por ter ambições tão grandes, por ter mil perguntas. A minha maneira de entrar nesse mundo foi a lavar barcos. Tornei-me um excelente esfregador de barcos [risos]. Tinha sempre muitos clientes, ganhava o meu dinheiro e ao mesmo tempo aprendia sobre barcos estando a bordo. Estando lá dentro começamos a perceber como tudo funciona, ainda antes de começar a navegar. Era apenas estar na doca, a visualizar como tudo funciona. Depois, devagarinho, comecei a fazer viagens, a transportar barcos para o Algarve, para o Porto, e nunca mais parei. Mas, realmente, o grande salto na aprendizagem foi em Inglaterra. Tinha 17 anos e fui para lá estudar Ciência Ambiental Marítima. A generosidade dos ingleses para partilhar conhecimento ajudou-me muito. Comecei a velejar com grandes equipas e a aprender com elas, sentindo sempre recetividade ao meu interesse e curiosidade. Tinham muita paciência. Portanto, devo muito a Inglaterra.

Além de lavar barcos, também começou, aos 12 anos, a juntar algum dinheiro a vender fatias de bolo na praia. Era já a pensar no trajeto que queria fazer na vela?

A questão do bolo de cenoura, da avó Adelaide, tem que ver com o meu feitio ainda hoje. Eu era miúdo mas já começavam a aparecer características da minha personalidade. Uma delas é não ter paciência para estar parado. Gosto de fazer coisas e vê-las acontecer. E se vejo que há algo que não está a ser bem feito, então em vez de criticar prefiro tentar fazer melhor. Ora, eu percebi que na praia o que se vendia eram gelados, mas que existiam muitas pessoas que queriam outras coisas. Um bolinho caseiro, por exemplo. Percebi que havia procura, que gostavam do lanche que a minha avó me fazia, e comecei a fazer mais bolos com ela e a vender.

Ainda guarda a receita do bolo?

Não a tenho escrita, mas sei como se faz. Em dez minutos fazemos um bolo [risos].

Tira a carta de comandante aos 19 anos, em Inglaterra, e aos 21 já tripulava catamarãs turísticos nas Caraíbas. Como é que apareceu essa oportunidade?

Quando tirei a carta de comandante já tinha atravessado o Atlântico à vela duas vezes e feito viagens entre Inglaterra e Portugal. Já tinha uma boa experiência de mar e alguma noção de vários tipos de barcos. Além disso, fui-me envolvendo em projetos que me fizeram sentir à vontade para abraçar esse desafio, que passava, obviamente, por velejar mas também por gerir uma equipa, uma empresa, pôr tudo a funcionar e tornar o barco o mais lucrativo possível. Quando cheguei a Saint Martin, nas Caraíbas, percebi que as pessoas procuravam trabalho espalhando um simples currículo por cafés, quiosques de internet, etc. Eu diferenciei-me logo. Sentei-me com uma designer e fizemos um poster, com uma fotografia enorme, a dizer que o Ricardo, o Português, tinha acabado de chegar à ilha e estava disponível para trabalhar. Ou seja: Ricardo, o Português, Ricardo from Portugal, foi a minha forma de me diferenciar. E o facto de ser de Portugal tornou-se uma vantagem competitiva, porque existe a perspetiva de que somos um país de marinheiros. O que é uma perspetiva errada.

Nunca escondeu que sente medo sempre que parte para uma expedição no mar. Como combate esse sentimento?

A preparação é muito importante, tanto a minha como a do barco. Se o fizermos bem, parto confiante e tranquilo. Quando estou no mar, o medo está realmente sempre presente. Umas vezes mais, outras menos. Mas está lá sempre. Mais do que estar a pensar no GPS, no radar, que sei velejar e que o barco é bom, o que eu tento fazer é sentir o barco, sentir o mar e conectar-me com aquilo tudo. Quando sintonizo a minha frequência com aquilo que me rodeia, então consigo superar esse medo. Se não me alinhasse não conseguiria. Não estou ali para competir com o mar, mas sim para estar em sintonia com ele.

Mas além dessa sintonia há um cuidado extra na verificação do barco e de todo o material que segue consigo.

Sim. Antes de cada expedição, em média, estamos no estaleiro quatro meses. É tudo desmontado, verificado, e dentro do orçamento que temos podemos fazer um upgrade a algum sistema do barco. Mas, por exemplo, quando fui para o Brasil no âmbito do Mundial de futebol [em 2014, quando transportou mensagens de apoio de adeptos à seleção] não tinha instrumentos para perceber a direção e a intensidade do vento, o GPS tinha mais de 20 anos e não se via bem o ecrã, mas isso não me impediu de fazer uma boa viagem. Aliás, muitas vezes até desligo todos os instrumentos. Vou só eu, com uma casca flutuante e a natureza. Isso é muito bonito. Não há nada a apitar, nada a dizer que estou mais para a esquerda ou para a direita, ou a que horas chego ao destino.

É nessa altura que encontra a tal sintonia perfeita com o mar?

Encontro antes, mas quando desligo tudo respeito mais o que me rodeia. Quando estou sozinho no mar falo baixinho. Não quero incomodar. Por vezes ligam-me para o telefone satélite e até me perguntam: "Se estás aí sozinho, porque estás a falar assim? Estás com medo de acordar alguém?" Tudo em meu redor está em harmonia e eu quero mantê-la, respeitá-la. Tenho um piloto automático muito bom, mas também gosto de ser eu a pegar no leme e ficar ali a sentir o barco. São sentimentos muito especiais.

Um dos episódios que justificam esse receio do mar foi um acidente em 2001, quando seguia para o Brasil e o seu barco embateu contra um contentor, ficando incapaz de navegar. O Ricardo só foi socorrido ao fim de 24 horas a boiar em alto mar. Pensou que era o seu fim?

Estava mais irritado do que com medo. Foi tão difícil montar aquele projeto, tantos anos de trabalho para ter aquele barco e, quando finalmente estou em viagem, espatifo-me contra um contentor. Senti que tinha desiludido meio mundo. Estava tão zangado... Acho que essa raiva é que me manteve ali vivo, porque estava doido para chegar a terra, reunir com a equipa, os patrocinadores, explicar-lhes o que aconteceu e projetar novos desafios. Estava impaciente. Queria era despachar-me dali para fora porque tinha mais que fazer. Não tinha tempo para ter medo.

Ficou sempre junto ao barco?

Estava entre três a dez metros, consoante as oscilações do mar. Era perigoso estar em cima do barco, porque corria o risco de vir uma onda e projetar-me contra alguma coisa.

Tinha a sensação de que era apenas uma questão de tempo até ser socorrido ou colocou a hipótese de essa ajuda nunca chegar?

Aquilo foi o meu Euromilhões. Posso dizer que houve ali um fator fé muito importante. Consegui visualizar-me no futuro, perceber o que ia fazer a seguir. Acredito que foram defesas para me manter bem-disposto. Mas tive alguns minimomentos de pânico.

Fisicamente, como estava?

Tinha os lábios rebentados, a garganta inchada e cheia de sal...

Ainda mantém contacto com quem o socorreu?

Sim, sim. É muito boa gente. Era um paquete norueguês. Aliás, a única vez que andei num paquete foi quando fui salvo.

Como recuperou da desilusão de ver o seu projeto ruir?

Aquilo abalou-me seriamente durante um ano. Foi uma desilusão enorme. E um susto enorme. Comecei a aperceber-me do trauma em pequenos pormenores da minha vida ao longo dos meses seguintes. Foram precisos dois anos para voltar ao mar, mas foi só em 2003, quando comecei a trabalhar com a Ana Ramires, que é uma psicóloga de desporto brilhante, que percebi que tinha de levar isto tão a sério como um atleta de alta competição leva a sua atividade. Ajudou-me muito.

Em entrevistas anteriores, disse que a maior privação que sente no mar é estar longe dos seus filhos. Tem truques para contornar essa saudade?

Realmente é das minhas maiores dores. Mas tenho algumas defesas. Uma é eles não estarem presentes no local de partida. A outra é não ter fotografias à vista no barco. Se quiser tenho acesso a elas, mas não estão à vista. Aquele é o meu local de trabalho e está tudo organizado nesse sentido. E depois é deixar que essas emoções fluam. Não as escondo, não finjo que não estou a sofrer. Eu permito-me sofrer e viver essas saudades e isso faz parte da introspeção que é uma viagem. É algo que aplico a várias coisas na minha vida: se há um problema, então vamos enfrentá-lo.

Os seus filhos já têm noção dos perigos que o pai enfrenta no mar?

Eles sabem que é arriscado, mas não estão preocupados. Sofrem menos do que eu. Cresceram neste ambiente e nesta minha forma de viver. Uma coisa que sempre lhes disse foi para não se preocuparem com as boas notas, mas sim com as relações humanas, com a maneira como se relacionam com as outras pessoas, com a maneira como investem genuinamente nos colegas e nos professores, porque eles são os primeiros amigos e poderão sê-lo ao longo de toda uma vida. E depois digo-lhes que o pai vive intensamente, faz coisas que adora, com muito rigor e profissionalismo, e que prefiro morrer aos 50 anos e viver ao ritmo que tenho vivido do que aguentar até aos 90 e ter uma vida tépida. Eles apreciam isso e sabem que sou muito cuidadoso no mar.

Qual foi o máximo de tempo que passou no mar em solitário?

Foram 47 dias. Foi numa das primeiras viagens que fiz, porque tive acesso a um barco onde podia treinar. Então atirei-me ao Atlântico Norte, enchi o barco de comida e foi até gastar tudo. Não sabia quanto tempo ia ficar, mas queria realmente estar no mar, viver o mar, aproveitar ao máximo.

Saber lidar com a solidão é algo que tem de ser inato ao velejador ou pode ser treinado?

Pode ser treinado, sem dúvida. Mas requer um feitio especial. Há um treino que te ajuda, que te foca, mas velejar em solitário não é para todos e há quem sinta muita solidão quando está sozinho. Eu não. É mais provável sentir essa solidão quando estou rodeado de pessoas, porque no mar sinto tudo menos solidão.

Isso porque é uma solidão ocupada, com todas as tarefas que tem de fazer para seguir viagem?

Porque é uma solidão acompanhada. O mar não é só um deserto azul. Tem muita vida. E muita vida que não conseguimos ver. Por vezes sinto essas presenças a bordo. É muito interessante. O mar é muito rico. Há ali muita coisa.

No regresso a terra também procura isolar-se, pelo menos nos primeiros dias?

Sou bastante introspetivo quando chego a terra. Estranho as multidões, as filas de trânsito, a velocidade a que tudo isto anda. E estranho quão pouco harmoniosa é a nossa existência, a nossa maneira de viver, de amar, de comer. Quando vens de um mundo que funciona e é perfeito, olhas à volta e não queres ter nada que ver com isto durante uns dias. Demoro algum tempo a aterrar. Eu já sou bastante isolado no geral: moro numa quinta, ninguém me convida para casamentos e aniversários porque já sabem que não vou... Sou muito presente na vida das pessoas, elas sentem o meu afeto, mas não sou fã de grandes festas e noitadas.

Há algum objeto que o acompanhe em todas as viagens?

Tenho sempre uma imagem de Nossa Senhora de Fátima comigo, que me foi dada pela minha madrinha em 2001 e que foi das poucas coisas que consegui salvar na tal viagem em que bati no contentor. Levo pau-santo, livros, algumas cassetes antigas em que tenho gravadas emissões de rádio... Não preciso de música, porque tenho de estar atento aos ruídos do barco.

A vastidão do oceano sempre teve uma áurea de mistério. Já passou por alguma situação no mar que não consegue explicar?

Por vezes, temos a plena noção de que não estamos sozinhos. Houve uma vez, a caminho do Brasil, em que uma zona do barco cheirava a rosas, mas com uma intensidade indescritível. O barco está no meio do mar, tens ondas, água, vento, spray de sal por todo o lado e esse cheiro sentia-se cá fora, só naquela zona. Os brasileiros sabem o que é isto imediatamente. Dizem que é a presença de iemanjá [divindade com raízes africanas], a Deusa dos Mares, que cheira a rosas e de quem são muito devotos.

Essa sensação não foi fruto do cansaço?

Não. Já faço isto há 20 anos. Há um estado de cansaço que vamos atingindo, mas conheço bem o meu corpo e eu não estava doido ou a alucinar. Há muita coisa no mar.

Conte-me a história do seu barco.

Ele foi completamente renovado nos estaleiros navais de Peniche durante cem dias. Chegou aqui de camião, vindo de França. Estava em muito mau estado, ninguém o queria, envolvido num processo de dívidas, mas eu resolvi aquilo tudo e trouxe o barco para Portugal. Demos trabalho a 312 pessoas. Foi tudo mão-de-obra nacional, num estaleiro português, cabos e velas portugueses. Os meus fatos de mar são portugueses, o barco é revestido a cortiça portuguesa e tem uma cruz de Cristo pintada na proa. Portanto, tu olhas para ele e vês Portugal. É uma embaixada flutuante de portugalidade. Orgulho-me muito do barco. É o meu primeiro barco, está lá o meu nome, sou eu que pago as contas, mas não o sinto meu. É o nosso barco, porque está sempre ao dispor e as pessoas podem visitá-lo.

Como é que o batizou?

Nunca se muda o nome dos barcos. Mantém o original, que é o nome de uma estrela: Enif [estrela da constelação de Pegasus].

O ser humano trata bem o mar?

O mar é desrespeitado e assassinado todos os dias. Todos os dias está um pouco pior do que estava ontem. Felizmente há entidades como a Bandeira Azul, da qual sou o primeiro embaixador, que fazem um enorme trabalho de sensibilização. E o ser humano começa a perceber que quando não recicla está a prejudicar o oceano, pois o mar está hoje coberto por uma fina película de plástico. Que quando come carne está a prejudicar o oceano, quando antigamente essa ligação não se percebia. O impacto ambiental que o consumo de carne tem é surreal. É superior a todos os barcos, carros, aviões, fábricas...

E Portugal sabe aproveitar o seu mar enquanto património natural?

Não tem sabido, mas está ciente disso. Existe a noção, politicamente e não só, de que realmente não se tem feito muito, mas felizmente ao longo dos anos isso tem vindo a mudar. Esta próxima geração já estará mais conectada e terá um papel mais ativo, com mais noção do potencial que aqui reside e que tem de se desenvolver e trabalhar. Acima de tudo, devemos perceber que temos 20 vezes mais mar do que terra e que isso é um imenso privilégio. Não fizemos nada para o ter, mas estamos aqui plantados, este mar é nosso e temos de fazer coisas.

No passado, dizia que para financiar os seus projetos costumava ouvir quatro mil nãos até ter um sim. Hoje ainda recebe muitas negas?

Essa fase dos nãos foi muito difícil, mas ensinou-me imenso sobre marketing, pessoas, vendas e hoje, curiosamente, é disso que falo nas minhas palestras em empresas um pouco por todo o mundo. Hoje já não abordo tantas empresas, porque tenho de me alinhar com elas. Já fui abordado por empresas às quais agradeci o interesse mas não aceitei o trabalho, porque não há o alinhamento, ou porque produzem produtos animais e eu não quero ter nada que ver com esse mundo. Sou mais incisivo nas abordagens e hoje, quando tenho o sim, não falei com mais do que 15 ou 20 entidades.

A vela e as iniciativas que promove permitem-lhe levar uma vida financeiramente confortável?

Levo uma vida simples que não precisa de muito. Desenvolvo projetos por prazer e sentido de missão. Não ligo muito a dinheiro.

Qual é a principal mensagem que procura passar nas suas palestras?

Ouvir o coração. Posso estar a falar de vendas, superação, estratégia, trabalho de equipa e no fundo o que estou a dizer é para seguirem e ouvirem o coração. Chamo a atenção para ter tempo para parar, para sentir, para ter os pés na terra, desligar os telefones. Se formos todos os dias fazer uma caminhada ao nascer do Sol, em silêncio e sem telefone, nem que seja meia hora, algo vai mudar na nossa vida. Bastam dez dias seguidos a fazer esse ritual e a nossa vida começa a mudar e nem percebemos bem porquê. Esse silêncio é muito importante.

Já tem um novo projeto em marcha. No que consiste?

Há 18 meses que trabalho nisto. Vou receber no Santuário de Fátima uma imagem de Nossa Senhora. Depois vou a pé até Peniche, onde estará o veleiro coberto de flores. Sigo à vela sozinho para o Brasil para entregar a Nossa Senhora. No barco estão escritas três palavras - Fé, Paz, Amor. Uma mensagem universal de Portugal para o mundo independentemente da fé de cada um. São os 100 anos de Fátima e os 300 de Nossa Senhora da Aparecida no Brasil...

E para quando será?

Possivelmente para outubro, já que se trata do mês das últimas aparições de Fátima e também das celebrações de Nossa Senhora da Aparecida no Brasil. Para esse alinhamento, faz sentido partir de Peniche no início de outubro para chegar no mesmo mês ao Brasil.

É um homem de fé.

Sou. Nem tudo me faz sentido, mas não tenho a mínima dúvida de que Deus existe e que é um grande companheiro de viagem. Há um diálogo constante no mar. Tenho ali um copiloto fantástico e, já agora, com grande sentido de humor.

Leia a segunda parte desta entrevista:

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