O ano em que Queiroz treinou Fernando Santos no Estoril

Reencontro 35 anos depois de o atual selecionador nacional ter sido um dos primeiros jogadores treinados por Carlos Queiroz

Segunda-feira, quando se encontrarem na Arena Mordovia, para o Irão-Portugal que vai decidir o destino imediato de cada uma das seleções neste Mundial, Carlos Queiroz e Fernando Santos não terão seguramente muito tempo para recordar histórias do passado. Mas nestas horas de preparação do duelo "fratricida" que se anuncia - do qual, muito provavelmente, só um seguirá "vivo" em prova - é inevitável que ambos façam uma viagem de 35 anos na memória, até um ponto comum: Estoril, 1983.

O ano em que um "novato" técnico saído dos gabinetes da faculdade se estreava como adjunto do consagrado Mário Wilson. Entre o plantel de um Estoril em dificuldades, um veterano homem da casa a viver os últimos tempos como jogador. Esta é a história do ano em que Carlos Queiroz treinou Fernando Santos no Estoril.

Foi aí que se cruzaram pela primeira vez os dois técnicos que agora se enfrentam no maior palco do futebol mundial. O reencontro entre ambos neste Irão-Portugal reforça a curiosidade histórica sobre esse momento, testemunhado de perto por homens como Amílcar Fonseca, Pedro Xavier e Diamantino Costa, jogadores do Estoril nessa época de 1983-84.

Impacto revolucionário no treino

"Foi o ano em que o Carlos Queiroz apareceu. Deu logo para perceber que ia chegar longe, pela forma como falava e se relacionava com os jogadores, pelas ideias que trazia do ISEF [atual Faculdade de Motricidade Humana], tudo aquilo era novidade", recorda Amílcar, um antigo central que fez muitas vezes dupla com Fernando Santos.

"Trazia novos métodos a que a malta não estava habituada, novas formas de pensar o futebol. Veio modernizar o treino", acrescenta Pedro Xavier [irmão gémeo de Carlos Xavier]. "O Mário Wilson era a figura carismática, escolhia a tática e a equipa, mas o Queiroz já era quem metia as coisas em prática no treino", lembra. "Uma rotura completa", sintetiza Diamantino Costa, jogador dessa equipa que tinha já um passado de vários anos no Benfica.

Um "choque" de conhecimento para um plantel que misturava "miúdos", como Pedro Xavier, com outros jogadores bem experientes, como Amílcar Fonseca, Diamantino Costa, Vítor Madeira ou... Fernando Santos, que também sofreu esse impacto de ideias frescas com que Queiroz revolucionaria o futebol português na década de 1980.

O dinheiro extra com casacos

Amílcar Fonseca salienta a forma como o grupo rapidamente acolheu Queiroz e tem até uma história curiosa para o exemplificar. "Ele trazia lá do ISEF uns casacos de inverno, de chuva, que também eram novidade na época, e eu ajudava-o a vendê-los para ele ganhar um dinheiro extra. Ele e eu, vá", conta.

Nenhum deles consegue estabelecer uma relação causa-efeito entre Carlos Queiroz e a decisão de Fernando Santos em tornar-se treinador, pouco mais tarde.

Mas o que se sabe é que o atual selecionador nacional foi mesmo um dos primeiros premiados pela chegada da equipa técnica de Mário Wilson, que substituiu António Medeiros após o mau arranque de temporada. À 11.ª jornada, depois de um par de jogos no banco, Fernando Santos saltou para o onze inicial para ajudar ao empate (0-0) com o Sporting, na Amoreira, na estreia do novo treinador.

Amílcar Fonseca também fez parte do onze, ao lado do homem com quem mantém "uma relação de irmão". Formaram dupla de centrais muitas vezes ao longo da carreira e mantêm até hoje uma relação da qual Amílcar tem "orgulho". "Fico até um pouco vaidoso", confessa, sobre os êxitos do "Fernandinho", como se refere ao amigo. "Conseguiu tudo graças ao seu trabalho", sublinha. "Não teve favores de ninguém. A única ajuda foi dos pais", diz, realçando o trajeto do homem que se formou engenheiro, e chegou a praticar, ao mesmo tempo que jogava futebol de elite.

"Como capitão já era um líder dentro e fora do campo", recorda Pedro Xavier, revelando que deve a Fernando Santos a alcunha que ganhou no futebol, Patolas. "Pela forma como eu saltava as barreiras nos treinos, com os pés para fora, e também porque um dia fomos almoçar ao Guincho e eu pisei um cocó de cão. E ele disse logo: és mesmo patolas. Assim ficou."

Se a carreira de sucesso de Carlos Queiroz como treinador já era fácil de adivinhar naqueles tempos, a de Fernando Santos - que "foi sempre um rapaz a sério" - "tornou-se uma agradável surpresa", admite Diamantino Costa, que já não foi treinado pelo atual selecionador nacional quando ele resolveu dar esse passo, em 1986/87, então como adjunto de António Fidalgo.

O Fernando "malandro"

Já para Amílcar Fonseca não foi assim tão surpreendente. E explica como é que descobriu que o Fernando "ia dar treinador". "Como jogador era muito "malandro" a treinar. Não gostava de treinar, não gostava de correr. E no futebol cedo percebi que esses são os "piores". São aqueles que dão os treinadores mais exigentes", conta, entre risos, assegurando que "o Fernando Santos jogador não teria hipóteses com o Fernando Santos treinador".

De resto, destaca essa malandrice como um dos fatores de sucesso do selecionador. "Tem aquela cara de quem toda a gente lhe deve e ninguém lhe paga, mas é um malandro, muito esperto. Não é fácil um jogador enganá-lo".

A história dessa época 1983/84 acabaria mal para os estorilistas, com uma descida de divisão decidida de forma traumática na última jornada, com um goleada "das antigas" sofrida perante o FC Porto, nas Antas, 8-0. Mas "não foi por causa do Queiroz, ou da equipa técnica, nem dos jogadores", asseguram. "Foi uma época complicada, o clube tinha muitos problemas financeiros", aponta Pedro Xavier.

Agora que Carlos Queiroz e Fernando Santos se preparam para reencontrar-se, esperam, naturalmente, que o engenheiro leve a melhor sobre o professor que os impressionou há 35 anos.

Frente-a-frente estarão os dois treinadores mais bem sucedidos na história das seleções portuguesas. Queiroz lançou a grande escalada do futebol português com os dois títulos mundiais de sub-20 que revelaram uma geração dourada. Santos conquistou o Evereste com o título europeu de há dois anos.

Para esta espécie de mata-mata entre Portugal e Irão, "o engenheiro vai ter a tática certa", confia Pedro Xavier. Até porque o Irão precisa de ganhar e "o Fernando não lhe vai dar o jogo que eles querem, de certeza", frisa Amílcar Fonseca.

Do que também têm a certeza é que Carlos Queiroz e Fernando Santos vão "dar um forte abraço" antes do jogo. "O Fernando dá-se bem com toda a gente e o Queiroz é educadíssimo", diz Diamantino.

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