"A arte de sobreviver” é um bom título para resumir o caminho de Inglaterra e Argentina até ao jogo das meias finais do Mundial 2026, que hoje se disputa em Atlanta (20h00, TVI). As palavras são da FIFA, que assim destaca uma das maiores rivalidades do futebol mundial, muito por culpa da “mão de Deus” e desse confronto do Mundial 1986 em que Diego Maradona marcou um golo com a mão (ver fotografia abaixo) e decidiu o jogo a favor dos argentinos (2-1). Mas também devido à Guerra das Malvinas, um conflito que provocou mais de 900 mortes, deixando aberta uma ferida que teima em não cicatrizar. Por causa disso, as autoridades de Atlanta vão reforçar a segurança no estádio e em todas as concentrações de adeptos para ver o jogo das meias-finais. De um lado estará a campeã mundial à procura de repetir a final (e o título) de 2022 e uma Inglaterra, que reclama ser o berço do futebol, à procura de acabar com um jejum de 60 anos sem conquistar um grande troféu. Embalada pelo tema “It’s Coming Home” (Está a voltar para casa), eternizado pela banda The Lightning Seeds durante o Euro 1996, a seleção inglesa alimenta o sonho de repetir a conquista de 1966, quando Bobby Charlton ergueu o troféu Jules Rimet. Agora, os ingleses são liderados por Harry Kane e Jude Bellingham, os dois jogadores que mais têm alimentado o sonho de fazer a taça “voltar a casa”. Juntos são responsáveis por 12 dos 13 golos da equipa e fazem sonhar os acérrimos adeptos da seleção dos três leões.Com vitórias sofridas frente à RD Congo (2-1) na fase de 16-avos, México (3-2) nos oitavos e Noruega nos quartos (2-1), a Inglaterra chegou à meia-final do Mundial 2026, onde vai encontrar uma Argentina que não sofreu menos para superar Cabo Verde (3-2), Egito (3-2) e Suíça (3-1). Como, aliás, admitiu Lionel Messi. “Esta equipa compete e nunca deixa de insistir, de querer mais. Não é normal o que faz este grupo: ser campeão do mundo, ganhar duas vezes a Copa América e voltar a estar em uma semifinal de Mundial”, disse o capitão argentino, que lidera a Chuteira de Ouro, troféu para o melhor marcador da prova, a par do francês Mbappé.Messi tem oito golos em seis jogos, mais dois do que Harry Kane e Bellingham, tendo registou 33 finalizações e criado 21 oportunidades de golo, num total combinado de 54 oportunidades, o maior número desde Diego Maradona em 1986..40 anos de “La Mano de Dios” No Estádio Azteca, na Cidade do México, a 22 de junho de 1986, Diego Maradona eternizou-se com um golo marcado com a mão (e outro em que fintou meia-equipa inglesa). Numa partida disputada em clima tenso por causa da Guerra das Malvinas, Maradona colocou a Argentina nas meias finais do mundial, após vencer a Inglaterra (2-1).Décadas antes do VAR, o árbitro Ali Ben Nasser, da Tunísia, validou o lance, que, para desespero dos ingleses, seria batizado pelo próprio autor como La Mano de Díos (A Mão de Deus). “Marquei um pouco com a cabeça e um pouco com a mão de Deus”, disse Maradona, que nesse ano iria comandar a a sua seleção ao título mundial.Argentina e Inglaterra enfrentaram-se mais duas vezes depois desse duelo, em 1998 (2-2, 4-3 nos penáltis a favor dos argentinos) e 2002 (1-0 para os ingleses), mas passados 40 anos, ainda é a “mão de Deus” que mais assombra os ingleses, que hoje atuarão com o tradicional equipamento branco, enquanto os argentinos pediram à FIFA para jogar de azul, a cor do equipamento usado por Maradona no jogo do México 1986.Thomas Tuchel Vs. Lionel Scaloni “É um jogo de futebol, nada mais. É tudo o que posso dizer. Vamos jogar contra um adversário muito difícil, eles têm um excelente treinador. Obviamente, dentro e fora das quatro linhas, é uma partida com muita história, muita dor e muitos significados”, afirmou Lionel Scaloni, que, segundo o jornal Olé, pode surpreender com Palacios e Simeone no onze.Já o alemão Thomas Tuchel, que lidera a seleção inglesa, deve optar pela base de sempre e fazer orelhas moucas ao mau estar de Jude Bellingham, que respondeu publicamente às críticas do selecionador, que tem provocado alguns debates em Inglaterra com a frontalidade do discurso e ideias que defende. Antes do jogo com o México, por exemplo, pediu ao governo do agora demissionário Keir Starmer para decretar um “feriado de emergência” para as crianças poderem faltar à escola para ver a partida dos oitavos de final.A hora do jogo de hoje não obrigará a fazer noitadas, mas poderá colocar a Inglaterra de novo numa final depois de falhar a final do Mundial 2018 ao perder com a Croácia - depois também saiu derrotada pela Bélgica, de Roberto Martínez, no jogo do 3.º lugar. Aliás a única vitória da Inglaterra numa meia-final de um Mundial até hoje ocorreu em 1966... e a vítima foi Portugal, que iria terminar em 3.º lugar e ver os ingleses a festejar no fim.Hoje o duelo é com a Argentina e quem vencer garante um lugar na final do Mundial 2026, marcada para domingo, às 20h00, no MetLife de Nova Jérsia.isaura.almeida@dn.pt .Espanha está na final do Mundial 16 anos depois.Malvinas/Falklands: do “quem não salta é um inglês” ao “um jogo de futebol é melhor do que uma guerra”