Estrela Paula. "Há jogadoras com melhores contratos do que alguns futebolistas da I Liga"

Há uma década que faz negócios no futebol feminino e defende um salário para todas as atletas. A empresária Estrela Paula já fez contratos de centenas de milhares de euros, acredita num futuro de transferências pagas e elogia os clubes que fazem grande esforço para ter profissionais.

Como entrou no negócio do futebol feminino?

Há mais de uma década que trabalho com o futebol feminino. Ainda não se falava de agentes e eu já colaborava com uma agência conceituada, numa perspetiva de ajudar o futebol feminino a crescer. Em 2016 entendi que deveria ter a minha agência, com a minha filosofia de trabalho e que fosse especializada nesta área. Oficializei-me enquanto agente e tenho vindo a trabalhar no sentido de continuar a ajudar as atletas e à evolução do futebol feminino.

Quantas atletas representa?

Para cima de 30, um número que considero razoável para atender a todas. A ideia é sempre representar as melhores e a esse respeito tenho a honra de agenciar grandes jogadoras, que reúnem as competências do perfil que tenho definido para ser atleta da TopBaller Sports Management.

Qual foi o valor da maior contrato que já fez?

Sem querer avançar com um número exato, posso dizer que já fiz contratos de centenas de milhares de euros...

Qual é o contrato típico? Que cláusulas os clube impõem?

Existem diferentes contratos. O mais seguro para todas as partes é o contrato de trabalho desportivo, vulgarmente chamado contrato profissional. Geralmente são acordos standarizados do masculino, em que variam as cláusulas de rescisão. Curiosamente há clubes cujos contratos chegam a ter quase 20 páginas e outros que resolvem o assunto em sete ou oito. A diferença está nas cláusulas de proteção para o clube, a todos os níveis possíveis e imaginários.

O que acha dos valores envolvidos nos contratos? Estão longe da igualdade tão em voga...

Estão dentro do possível para a realidade nacional. Há jogadoras com melhores contratos do que alguns futebolistas da I Liga. Obviamente que isso não é sinónimo de acomodação, mas deve ser motivo de satisfação. É verdade que estamos muito longe da maioria dos valores do futebol masculino, mas também estamos a falar de realidades distintas. Há todo um processo de crescimento natural e inerente àquilo que é a própria sociedade e da qual não nos podemos dissociar. O futebol feminino teve de passar por etapas que o masculino nunca passou, por exemplo na mudança de mentalidades, para que os pais de hoje permitam que as meninas joguem à bola. Atualmente existem outras dores de crescimento. Acredito que a médio prazo se consiga evoluir para outro patamar, mas para isso também é preciso que as entidades competentes não usem a igualdade apenas como bandeira, mas que atuem em conformidade.

Porque não há transferências pagas?

Nos campeonatos de topo da Europa já começa a ser comum. Em Portugal já aconteceu, mas falamos de valores irrisórios quando estamos dentro de uma modalidade que é uma autêntica indústria que gera milhões. Tem muito a ver com a duração dos contratos. Num passado recente e ainda em alguns casos atuais, era muito comum que os contratos tivessem a duração de uma época desportiva e isso automaticamente deixava a jogadora livre no final do mesmo. Nesta altura já estamos a assistir a renovações de 3/4 anos, eu inclusive já fiz a renovação do contrato de uma jogadora por cinco anos. Acredito que se ela continuar a evidenciar a qualidade que tem demonstrado possam surgir propostas de transferência. Os próprios clubes, na altura de renovar, já começam a ter esse pensamento.

Não havendo transferências pagas, como se paga aos empresários? E qual a percentagem?

O pagamento é feito através de comissões pagas pelos clubes, à semelhança do que acontece no futebol masculino. A percentagem pode variar e é acertada com o clube, mas geralmente fixa-se nos 10% sobre o valor do vencimento líquido auferido pela atleta.

Cerca de 80 jogadoras profissionais... O que diz isto do futebol feminino em Portugal?

Diz que continuamos a ter uma liga amadora com algumas equipas profissionais e algumas jogadoras profissionais em equipas amadoras, mas por agora é inevitável que assim seja. Não estão criadas condições para profissionalizar a Liga. Há passos que precisam de ser dados, nomeadamente a criação de garantias para que todas as jogadoras tenham um valor mínimo mensal. A verdade é que isso não se faz de um dia para o outro. Há clubes a fazerem grandes esforços para terem algumas profissionais e esses têm de se valorizar tanto como aqueles que conseguem ter um plantel 100% profissional. Acredito que os passos vão ser dados, porque são inevitáveis.

isaura.almeida@dn.pt

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