Quando Paolo Rossi marcou três golos ao Brasil passei a ter um ídolo. No dia seguinte, no jogo na rua, com duas pedras a fazer de postes da baliza, já me apresentava como Paulo Rossi. Para os amigos da Reboreda, o meu bairro, eu era o Paulo. Leonídio era o nome só na escola, e eu andava então no Ciclo, na outra ponta de Setúbal, a dois autocarros de distância. Portanto, naquele verão chamei-me Paolo Rossi. A mim próprio. E quando gritava “goooolo de Paolo Rossi”, tentando imitar o relato das rádios. Ajudou a esse meu entusiasmo paolorrossiano que a Itália tivesse acabado por ser campeã do mundo, tricampeã.O Mundial de Espanha, em 1982, é o mais antigo do qual tenho memória. A minha prima Vanda tinha-me oferecido um Guia do Mundial publicado pela RTP e devorei a história dos campeonatos do mundo. Foi onde aprendi que o Uruguai organizou o primeiro Mundial de Futebol e também foi o primeiro campeão. Em 1930. E que a Itália tinha sido campeã em 1934 e em 1938, no tempo de Mussolini. E depois disso, nada, enquanto o Brasil se tinha tornado tricampeão. Portugal, com Eusébio, tinha o terceiro lugar de 1966 para se orgulhar. E não conseguira uma vez mais apurar-se.Nesse Mundial de Espanha, não me posso esquecer dos desenhos animados do Naranjito. E muito menos do Brasil de Zico, Sócrates e Falcão. Antes da derrota com a Itália, tinham maravilhado com um futebol tão artístico como eficiente. A Itália demorou a impressionar, e até passou da primeira fase por milagre, só com empates.Naquele ano, depois de grupos de quatro, seguia-se grupos de três. E um deles tinha a Itália do Rossi, o Brasil de Zico, e a Argentina de Maradona. Aliás, os argentinos chegaram a Espanha como os campeões mundiais. Tinham vencido em 1978, quando jogaram em casa.Itália ganhou 2-1 à Argentina. O Brasil ganhou 3-1 à Argentina. Itália ganhou 3-2 ao Brasil. Nas meias-finais, os italianos enfrentaram os polacos. E o resultado foi 2-0. Final marcada com a Alemanha, que já tinha sido também duas vezes campeã mundial. Itália ou Alemanha, uma delas seria tricampeã.No Santiago Bernabéu, 90 mil pessoas para ver quem seria o novo campeão. Vi pela televisão, claro. No tal guia, numas páginas reservadas para isso, anotava os resultados todos. E os marcadores. Já não o tenho há muito tempo, e por isso tive de ir ao google ver se a minha memória de um golo de Rossi era verdadeira. Sim. Marcou o primeiro dos três golos italianos. 3-1.Na memória ficou forte, sim, o festejo de Sandro Pertini. O presidente italiano tinha 85 anos. Tinha idade mais que suficiente para ter visto os campeonatos de 1934 e 1938, os tais da era fascista, do tempo do regime que o tinha enviado para a prisão. Fervor futebolístico, e também amor à pátria. Um amor à pátria que fez dele, quando recuperou a liberdade, um partigiano durante a Segunda Guerra Mundial. Lutou contra Mussolini e também contra os alemães, que chegaram a capturá-lo (mas conseguiu escapar).Ficou célebre a sua frase: "Alla più perfetta delle dittature preferirò sempre la più imperfetta delle democrazie."Rossi e Pertini. Dois heróis. Diferentes, mas dois heróis. Naquele dia, em Madrid, orgulharam Itália e impressionaram o mundo. Há fotos de Pertini à conversa com o futebolista, que sorri de orelha a orelha. Também sorrio enquanto relembro este Mundial de há 44 anos.