Gonçalo Ramos. Como o feiticeiro de Olhão ganhou um lugar na seleção

Fernando Santos chamou avançado do Benfica para ocupar a vaga de Rafa, que renunciou à equipa das quinas. Jogos com a Rep. Checa e Espanha decisivos para Portugal.

A chamada à seleção premeia o excelente início de época de Gonçalo Ramos. Com oito golos e três assistências em 12 jogos, o jovem avançado do Benfica foi convocado por Fernando Santos para ocupar o lugar de Rafa Silva - que renunciou à seleção - na lista dos 26 eleitos para o duplo compromisso de Portugal no apuramento para a fase final da Liga das Nações. O avançado de 21 anos estará assim à disposição do selecionador para os jogos com a República Checa (sábado, em Praga) e com a Espanha (terça-feira, em Braga).

Natural de Olhão, Gonçalo é filho de Manuel Ramos, um antigo jogador do Farense da era Paco Fortes, que também representou o Salgueiros na I Divisão. "Apesar de nunca o ter visto jogar, tenho o bichinho pelo futebol graças a ele", confessou, numa entrevista o avançado, admitindo que ouve com atenção os conselhos do pai e que, depois dos jogos, tem sempre uma mensagem dele à sua espera.

Tinha 5 anos quando chegou ao Olhanense integrado num grupo de 60 miúdos que ia fazer testes de captação. Não parava de dizer que queria ser jogador de futebol profissional, como o pai. Foi aprovado e integrado numa equipa com miúdos mais velhos. Quando foi jogar um torneio a Vila Real de Santo António, a equipa de Olhão ganhou o prémio fair-play, que consistia numa visita ao Benfica Campus, no Seixal. E foi assim que teve o primeiro contacto com os encarnados. Passou a jogar na escolinha das águias, em Olhão, e juntou-se à família benfiquista, no Seixal, em 2013.

Foi lançado na equipa B aos 17 anos por Renato Paiva, o mesmo treinador que pouco mais de um ano e meio depois se estreou na equipa principal pela mão de Nélson Veríssimo, a 21 de julho de 2020. E que estreia. Entrou aos 85 minutos e marcou dois golos, na visita ao Desp. Aves (4-0). O último jogador a marcar dois golos na estreia pelos encarnados tinha sido o galês Mark Pembridge, em 1998... ainda Gonçalo Ramos não era nascido (2001).

Nesse momento entrou para a história, pois acaba de marcar golos por quatro equipas do Benfica na mesma época (juniores, sub-23, equipa B e formação principal). Quando lhe pediram que se definisse como avançado respondeu: "Tenho golo, mas tenho de melhorar as rotinas, porque nem sempre joguei a ponta-de-lança." Admitiu que se sentia "mais confortável como segundo avançado e médio ofensivo, atrás do ponta de lança", porque tinha "facilidade de entrar em zonas de finalização".

Sozinho e com liberdade

Já o comparam ao alemão Thomas Müller, do Bayern Munique. Ramos gosta da referência porque se revê na "inteligência posicional" e no "contributo para a organização defensiva da equipa". Como tem sorte nos ressaltos, os colegas de seleção, nos Sub-19, puseram-lhe a alcunha de feiticeiro, mas o avançado garante que é com trabalho e sem magia que a bola vai ter com ele. Em 2019, depois de ser Vice-campeão Europeu de Sub-19 e de se sagrar Melhor Marcador do torneio, revelou à Rádio Planície os desejos que tinha para a carreira. "Quero ganhar algumas competições, como campeonatos, Liga dos Campeões, Europeu, Mundial e chegar à equipa principal do Benfica e da seleção."

A incerteza fez parte do início desta época de Gonçalo Ramos, devido ao interesse de clubes como a AS Roma, PSG, Chelsea, Bayern Munique e Wolverhampton na sua contratação. E até ontem a imprensa inglesa juntou o Manchester United de Cristiano Ronaldo à lista de interessados. No entanto, Ramos ficou na Luz.

Começou logo no onze - há 16 anos que um avançado português não era titular do Benfica no primeiro jogo oficial da época - e destacou-se sob as ordens de Roger Schmidt, que o recuperou das tarefas de avançado mais recuado e lhe deu liberdade para estar sozinho na frente. E assim foi decisivo no apuramento do Benfica para a fase de grupos da Champions e tem sido preponderante na boa época da equipa, com 13 vitórias em 13 jogos.

Gonçalo Ramos participou em 12 partidas e contribuiu com oito golos, quatro deles na I Liga e outros tantos na Champions, sendo que três deles foram marcados na pré-eliminatória frente ao Midtjylland (4-1), que lhe permitiu tornar-se no terceiro mais jovem (21 anos e um mês) a marcar um hat-trick pelo Benfica na Europa, depois de João Félix e Eusébio.

Números que justificam a chamada à seleção, onde terá a concorrência de João Félix, Rafael Leão, Pedro Neto, Diogo Jota e Cristiano Ronaldo, mesmo que fique associado a uma vaga que inicialmente não era sua.

isaura.almeida@dn.pt

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