A final inédita da Taça de Portugal Feminina entre Benfica e FC Porto é “mais um momento marcante” para o futebol feminino português e simboliza o crescimento sustentado da modalidade em Portugal. A convicção é de Sofia Teles, ex-jogadora e atual dirigente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), que, em entrevista ao Diário de Notícias, destacou a importância de ver dois dos maiores clubes nacionais disputarem pela primeira vez o troféu no feminino.“A festa da Taça de Portugal Feminina é uma grande festa. Nos últimos anos tivemos cinco vencedores diferentes e, portanto, será mais um momento marcante. Obviamente que ter clubes como o Benfica e como o Porto a apostarem no futebol feminino e a quererem trazer mais competitividade, mais atletas, mais visibilidade, é fundamental”, afirmou.A responsável da FPF sublinha, no entanto, que o crescimento da modalidade não se resume aos chamados “grandes”. “Felizmente temos também outros clubes que o fazem há muito tempo, o Sporting, o Braga, o Torreense, que este ano também teve uma grande prestação nas competições nacionais. Portanto, para nós é um motivo de satisfação termos uma final inédita, o primeiro clássico feminino, e naturalmente que será uma festa bonita, em família, com um público diferente, alegre.”.Apesar do entusiasmo em torno da final do Jamor, Sofia Teles reconhece que ainda há caminho a percorrer para levar multidões ao futebol feminino. “Nós gostávamos muito de encher o Jamor. Sabemos que é um estádio com uma lotação grande para aquilo que são as médias das assistências do futebol feminino. Mas queremos convidar toda a gente a participar nesta festa com espírito de respeito, fair play e ambiente familiar, porque o futebol feminino tem muito esta característica.”O crescimento da modalidade é, aliás, uma das prioridades centrais da FPF. Sofia Teles revelou que o novo plano estratégico para o futebol feminino, com horizonte até 2029, tem metas ambiciosas, sobretudo ao nível da participação. “Uma das nossas prioridades é aumentar o número de praticantes. Ainda temos muita margem para crescer. Queremos trazer mais raparigas, cada vez mais jovens, para o futebol.” Atualmente, Portugal conta com cerca de 14 mil jogadoras federadas, mas a meta traçada pela Federação é praticamente duplicar esse número. “A nossa meta é chegar às 27 mil praticantes em 2029. É muito ambiciosa, temos consciência disso, mas queremos que o caminho seja este de crescimento.”Entre as medidas previstas está também a criação, já na próxima época, de uma Liga Sub-17 feminina. “Será mais um espaço de competição para as equipas de formação e de crescimento”, explicou.Sofia Teles considera que a Liga BPI continua a ser “a principal montra do futebol feminino em Portugal”, ao lado da Seleção Nacional, e defende que a evolução das jogadoras portuguesas é já visível além-fronteiras. “As jogadoras são cada vez mais conhecidas, mais valorizadas e chamadas para jogar lá fora. Isso mostra que há qualidade.”.A antiga futebolista abordou também uma das questões mais debatidas no futebol feminino: a profissionalização e os salários. Questionada sobre a possibilidade de existir um acordo coletivo de trabalho e uma equiparação salarial mínima, Sofia Teles admite que esse é um objetivo, mas lembra que o processo exige entendimento entre todas as partes. “Faz sentido. É uma das propostas do nosso plano estratégico, naquilo que tem a ver com a profissionalização da Liga BPI. Mas um acordo desta natureza tem de ser negociado também com os clubes”, explicou.Ainda assim, rejeita comparações simplistas entre futebol masculino e feminino. “Temos de olhar para o futebol feminino no patamar em que está e naquilo que consegue gerar em receitas, patrocínios e apoios. Felizmente já temos uma grande maioria de jogadoras profissionais e esse é o caminho que queremos.” A dirigente da FPF acredita que a evolução da modalidade nos últimos anos é evidente. “Se olharmos para a realidade de há cinco ou dez anos, é completamente diferente da atual e será diferente daqui a cinco ou dez anos.”Outro dos objetivos passa por aumentar a presença feminina em todas as áreas do futebol. “Queremos aumentar o número de mulheres envolvidas no futebol, não só no feminino, mas também no masculino. Mais treinadoras, mais gestoras, mais mulheres na comunicação, na saúde, em todas as áreas do ecossistema.”Sofia Teles considera que o futebol feminino ainda enfrenta barreiras estruturais, mas acredita que elas estão a ser gradualmente quebradas. “O futebol feminino não tem de ser apenas para mulheres e as mulheres não devem estar só no futebol feminino.”Sobre a competitividade da Liga BPI, frequentemente criticada pelo fosso entre equipas do topo e da parte inferior da tabela, a dirigente defende que a edição deste ano demonstrou uma evolução significativa. “Foi uma competição muito apelativa. Tivemos luta pelo título até ao fim, pelos lugares europeus e pela manutenção. Isso mostra crescimento.” O exemplo do Torreense, terceiro classificado e apurado para as competições europeias, é apontado como sinal positivo. “É precisamente este dinamismo que queremos para a Liga BPI.”.Num balanço da época, Sofia Teles faz uma avaliação positiva, tanto a nível interno como nas seleções nacionais. “Foi uma época muito dinâmica. Tivemos bons resultados nas seleções e sinais positivos para o futuro do futebol feminino.”A ex-jogadora admite que muitas atletas da sua geração acabaram por não concretizar todo o potencial devido à falta de condições existentes na altura. “Não tenho dúvidas de que se perderam talentos. Muitas jogadoras pagavam para jogar ou não recebiam nada. Tinham outros trabalhos, estudavam e chegava um momento em que era preciso escolher.”Hoje, acredita, a realidade é diferente. “As jogadoras têm mais condições para fazer do futebol a sua carreira. Esperemos que aproveitem essas oportunidades.”E quanto ao futuro europeu dos clubes portugueses? Sofia Teles não hesita: “É possível chegar a títulos europeus. Temos talento, temos qualidade. Claro que os clubes estrangeiros também investem muito, mas acredito que Portugal pode lá chegar.”.Futebol feminino já vale mais de 1,7 mil milhões de euros.Portugal domina e goleia Eslováquia por 4-0 na qualificação para o Mundial de futebol feminino de 2027