Francisco Simões Rodrigues: “Se temos surfistas na elite mundial, vamos ter um campeão do mundo”Francisco Simões Rodrigues é o presidente da Associação Nacional de Surfistas (ANS), entidade responsável pela representação dos surfistas profissionais e pela organização do principal circuito competitivo do país, a Liga MEO Surf. Nesse contexto, atua como intermediário entre atletas, patrocinadores, organizadores de eventos, marcas e estruturas do turismo e da economia do mar, desempenhando funções de gestão, estratégia e promoção da modalidade. A sua intervenção pública tem incidido frequentemente na valorização do surf como setor económico estruturado e não apenas como desporto. Quando o surf começou, há muitos anos em Portugal, era quase visto como uma contracultura; agora é uma indústria. Em que momento percebeu que houve essa transição?Isso leva-me bem lá atrás, aos momentos em que comecei a fazer surf, em 1992, quando o ambiente na praia era bastante diferente do que é hoje. Havia muitas diferenças: transportes públicos com pranchas, um ambiente mais rústico e por vezes alguma insegurança; era tudo mais primitivo e menos profissionalizado. Entrei neste processo numa lógica familiar — andava com o meu irmão mais velho e com uma irmã e eles, de certa forma, tomavam conta de mim — e isso facilitou um início mais orgânico. Houve depois dois momentos que considero fundamentais para a estruturação do surf em Portugal: um mais falado e outro menos mediático. O menos falado, e que eu vivenciei de perto, foi a criação em 1993 do Circuito de Esperanças. Coincidentemente competi na primeira bateria desse circuito e vi de perto como miúdos de diferentes zonas do país — Costa da Caparica, Estoril, Algarve, Porto — começaram a cruzar-se e a formar uma geração. Dali saíram nomes que moldaram o futuro do surf português, como o Tiago Pires, que abriu portas a nível internacional, e outros que hoje desempenham papéis fundamentais, como treinadores, dirigentes e empresários ligados ao setor. Esse foi o início da segunda fase do surf em Portugal — a afirmação e a consolidação de estruturas, centros de treino e competições — que preparou o caminho para a terceira fase, mais explosiva, liderada por surfistas que se afirmaram internacionalmente, como o Frederico Morais e o Vasco Ribeiro. O que é que o surf tem que poucos desportos conseguem ensinar sobre a vida adulta?O surf tem uma dimensão social e cultural muito particular. Em Portugal, o mar faz parte do nosso quotidiano — muitas vezes até respiramos mar nas cidades costeiras — e isso espalha o surf por muitas camadas da sociedade. É raro não conhecer alguém ligado ao surf, seja de forma direta — um familiar — ou indireta — um amigo. Essa proximidade cria uma rede social intensa e um sentido de comunidade. Além disso, a própria natureza do mar — imprevisível e mutável — ensina resiliência: o surf exige que a pessoa aprenda a avaliar, a readaptar, a gerir expectativas. A procura da “onda boa” obriga a uma paciência, disciplina e humildade que se traduzem depois em outros domínios da vida. A entrada regular na água traz também benefícios de saúde mental: o contacto com a água salgada, o sol, o exercício físico e a comunhão com a natureza são condutas que favorecem o bem-estar psicológico. Tudo isto faz com que o surf não seja só um desporto, mas um conjunto de aprendizagens práticas para a vida adulta. .Nesse binómio «mar imprevisível» e «gestão estruturada», como é que se estabelece o equilíbrio?É uma conjugação complexa. O inesperado faz parte da essência do surf — se o desporto for tão controlado que se perca esse elemento, perde também parte do seu fascínio. Ao mesmo tempo, os atletas de alto rendimento exigem planeamento, rotinas de treino, preparação física e mental, e calendários que se articulem com circuitos internacionais. A gestão tem de ser rígida quando o objetivo é a excelência, mas deve deixar espaço para o elemento imprevisível que torna o surf tão especial. Esta tensão obriga a gestores, treinadores e atletas a terem uma relação madura: planeiam o que podem planear e aprendem a improvisar quando as condições mudam. Esse equilíbrio também se reflete nas competições e na organização dos eventos — há formatos e regulamentos, mas a natureza das ondas é sempre uma variável que obriga a flexibilidade. O surf vende-se como liberdade; no entanto, os profissionais vivem sujeitos a regras e rotinas. Não é um contrassenso?Não é um contrassenso quando se compreende a diferença entre a prática de lazer e a prática profissional. O surf de lazer é mais próximo da ideia romântica de liberdade, mas o surf de alta competição exige disciplina extrema. Um atleta de topo tem planos de preparação física, de nutrição, de treino técnico e um apoio psicológico tão exigente quanto em qualquer outro desporto profissional. A imagem de alguém que apenas vai à praia e “faz surf” não corresponde à realidade dos profissionais. Na Liga MEO Surf, por exemplo, se coroarmos um campeão de etapa, minutos depois estamos todos juntos num convívio social; isso mostra que o ambiente é saudável e que as liberdades convivem com a exigência. Mas essa mesma liberdade não implica ausência de regras — o profissionalismo exige limites, horários e um compromisso total. Enquanto presidente da Associação Nacional de Surfistas, o que é mais desafiante: gerir egos de atletas ou lidar com patrocinadores e parceiros?Ambos são desafios de naturezas diferentes. O surf é um desporto individual e os atletas trazem ego — e o ego nem sempre é negativo: traz ambição e “raça”. Gerir egos implica manter a cultura competitiva saudável e, ao mesmo tempo, assegurar que a disciplina e o espírito coletivo se mantenham. Quanto aos patrocinadores, tratar com empresas exige rigor, prestação de contas e uma capacidade contínua para demonstrar valor. Os patrocinadores têm expectativas de visibilidade, retorno e profissionalismo; quando as coisas não correm bem, a pressão sobe. Há momentos em que existe conflito entre as necessidades económicas do circuito e decisões de justiça desportiva — e aí é preciso aplicar regulamentos e gerir fricções com firmeza. A Associação tem regimentos para resolver estas situações, mas são sempre momentos delicados. Já teve de escolher entre manter a integridade desportiva e garantir a sobrevivência financeira de um evento?Pessoalmente, não sou juiz disciplinar, mas já estive em situações em que decisões difíceis tiveram de ser tomadas. Há casos em que comportamentos de atletas, treinadores ou terceiros obrigam-nos a aplicar regulamentos que podem desagradar. A nossa posição sempre foi respeitar as regras e proteger o interesse coletivo do surf. Quando surgem reclamações de pais ou treinadores, a questão tem de ser tratada à luz dos regulamentos e com o devido processo — não há atalhos. Ao mesmo tempo, a sustentabilidade financeira do circuito depende de patrocinadores e de uma gestão cuidada, por isso é preciso procurar soluções que preservem a justiça desportiva sem comprometer a viabilidade económica. O que distingue, mentalmente, um campeão nacional de alguém que se afirma no circuito internacional?É uma questão complexa e muitas vezes discutida. Há uma ideia antiga — dos anos 90 — de que o “campeão do bairro” e o atleta internacional são mundos diferentes, mas hoje as gerações mudaram. Os jovens que ambicionam o circuito internacional sabem que têm de provar o seu valor para serem reconhecidos como surfistas globais. A diferença pode residir, em parte, na exposição internacional, na capacidade de gerir a pressão maior, na resiliência e na disponibilidade para fazer sacrifícios: treinos longos, deslocações, investimento financeiro, compatibilização com a escola. Mas a Liga tem feito esforços para alinhar o calendário nacional com o internacional, encaixando provas de modo a não prejudicar a progressão dos atletas. É um processo que envolve diálogo com treinadores e atletas, e exige alguma flexibilidade organizativa. .Portugal tem condições para formar um campeão do mundo ou um campeão olímpico?Sim, temos todas as condições para chegar lá. Já tivemos campeões mundiais juniores — o Vasco Ribeiro e a Francisca Veselko são exemplos — e temos surfistas que competem ao mais alto nível. O aparecimento de um campeão mundial sénior ou de um campeão olímpico é uma questão de tempo, de investimento e de continuarmos a estruturar o caminho certo. Os jovens de hoje parecem mais preparados do que os da sua geração?Sem dúvida. A minha geração abriu caminho sem grandes recursos; hoje existe uma estrutura competitiva nacional mais desenvolvida, centros de treino informais e uma cultura familiar que apoia a prática desde muito cedo. As famílias aceitam hoje que o surf exige dedicação e, quando possível, investimento em estágios internacionais. Contudo, o desporto de alto rendimento é caro e isso limita oportunidades; muitas vezes são os próprios pais que assumem a maior parte do custo do processo de formação. Há política no surf e, se sim, em que dimensão ela se manifesta?A política existe, como em qualquer desporto organizado. Desde o início que há relações entre diferentes entidades — liga, federação, clubes e patrocinadores — e isso gera discussão e negociação. Historicamente houve acordos e “contratos de paz” que moldaram a relação entre as estruturas, e isso aproxima o surf do que se vê noutros desportos com órgãos autónomos e ligas profissionais. Além disso, há uma política natural dentro da água: hierarquias locais, respeito pelos mais velhos e pelos que conhecem melhor uma praia. Tudo isso é, de certo modo, um comportamento político em pequena escala. As piscinas de ondas são uma revolução: são melhores para treinar ou para competir?As piscinas de ondas são uma ferramenta fantástica de treino porque permitem repetir manobras e treinar com eficiência; a tecnologia das piscinas está a evoluir e há formatos mais ou menos aptos para diferentes tipos de surf. Contudo, surfar no oceano é uma experiência que não se reproduz totalmente num ambiente controlado. Para competir, as piscinas ainda precisam de amadurecer em termos de formato para se tornarem mais apelativas ao público — já há etapas do circuito mundial em piscina, mas nem sempre são as mais emocionantes para assistir. Ainda assim, creio que nenhuma nação que queira liderar o surf no futuro se pode dar ao luxo de prescindir de piscinas de ondas; são um complemento imprescindível ao treino no oceano. Qual é, na sua opinião, o maior risco para o surf em Portugal: as ondas, a economia ou o próprio sucesso dos atletas?Há várias ameaças. Primeiro, notamos uma redução na entrada de jovens na base — possivelmente influenciada pela tecnologia e por novas formas de entretenimento que competem com o desporto. Depois há a limitação financeira: o surf de alto rendimento é caro e muito do investimento inicial vem dos pais. A modalidade globalmente sempre viveu muito do patrocínio das marcas endémicas, e esse tipo de patrocínios está mais escasso hoje. Apesar disso, a cultura do surf em Portugal e a amizade entre as marcas e os atletas ajudam a colmatar lacunas — muitas marcas de pranchas apoiam jovens promissores sem recursos, e isso é um alicerce moral importante para a sustentabilidade do desporto. .Os centros de treino que frequentemente se falam são equivalentes a centros de alto rendimento?Na minha perspetiva, os verdadeiros centros de treino estão nas praias. Ericeira, Peniche, Matosinhos — esses locais oferecem as condições ideais para passar tempo dentro de água, que é o essencial para o desenvolvimento técnico. Claro que os centros de alto rendimento formais têm valor e contribuem com preparação complementar (ginásio, apoio médico, nutrição), mas o que faz um surfista ser realmente bom é o tempo passado dentro de água a ensaiar, errar e acertar. A repetição, a tentativa e o erro, a familiaridade com as condições variadas do oceano são insubstituíveis. Que lições aprendeu com surfistas que nunca aplicaria na gestão?Há um certo romantismo e uma atitude de “deixar-se ir” quando as ondas estão boas. Essa dualidade entre o prazer imediato e a responsabilidade pode ser perigosa na gestão diária, porque gerir exige disciplina e planeamento constantes — coisas que, por vezes, o espírito livre do surfista pode pôr em causa. Eu próprio sou disciplinado, mas sei que há momentos em que apetecia ficar mais tempo no mar e adiar obrigações. Na gestão, isso não é sustentável. Quando o seu trabalho como dirigente terminar, o que terá de existir para dizer que valeu a pena?Sempre que vejo surfistas que passaram pela Liga a chegar a patamares internacionais e a afirmar-se globalmente, sinto que valeu a pena. Não importa se o contributo foi grande ou pequeno; importa que, dentro do ecossistema que ajudámos a criar, surjam talentos que representem Portugal com mérito. Se sairmos com a certeza de que contribuímos para formar atletas com condições para competir internacionalmente, então valeu a pena. O que falta concretamente à Liga MEO Surf para crescer ainda mais?Mais investimento — sobretudo para premiar de forma mais consistente os melhores atletas e alargar incentivos. A Liga já é considerada um dos melhores circuitos nacionais, alinhado com padrões internacionais, e funciona essencialmente com o setor privado e o apoio das autarquias. Não temos apoio governamental direto, e isso limita algumas ambições. No entanto, estamos a trabalhar em projetos que trazem valor, como estágios com treinadores de topo internacional (por exemplo trazer o Leandro Dora, pai e mentor do Iago Dora, campeão mundial), e parcerias com entidades como o Turismo de Portugal ajudam a criar oportunidades para os melhores juniores. São passos importantes, mas é um caminho longo e contínuo. .Francisca Veselko perto da elite mundial de surf após chegar às meias-finais no Havai.Francisca Veselko: “Sem trabalho não há sonhos que cheguem ao topo”