Francisco Neto: “Estamos num patamar em que conseguimos competir com toda a gente”
Depois de anunciar as escolhidas para os próximos compromissos, Francisco Neto recebeu o Diário de Notícias para uma entrevista. O treinador, que lidera a seleção feminina desde 2014, assume que Portugal já ganhou respeito internacional, mas considera que o passo seguinte é transformar boas exibições pontuais numa consistência competitiva mais sólida. Nesta conversa, aborda ainda a formação, a profissionalização da Liga BPI, o sonho olímpico e a responsabilidade de quem representa Portugal.
Que critérios presidiram à convocatória para os jogos com a Irlanda do Norte?
Acima de tudo, procuramos dar continuidade. Numa convocatória há dois princípios muito importantes: identificar as jogadoras que nos dão consistência na nossa ideia de jogo, tendo em conta o pouco tempo de treino que temos, e estar atentos ao momento de cada uma nos clubes. Precisamos de uma base sólida, de jogadoras que conheçam bem a nossa forma de jogar e o contexto internacional, mas também de abrir espaço a quem aparece, como aconteceu com jogadoras sub-20. Observamos o adversário, percebemos os problemas que nos pode criar e procuramos as jogadoras que melhor consolidam a nossa ideia, ou que podem acrescentar-lhe algo novo.
O modelo de jogo da Irlanda do Norte pesou nas escolhas?
Procuramos sempre diversidade, sobretudo em determinadas posições. Não queremos avançadas todas iguais, nem médias todas iguais; queremos laterais que possam jogar dos dois lados. Olhamos mais para nós do que para o adversário, isso é essencial, mas essa diversidade dá-nos armas diferentes para responder aos desafios de cada jogo.
Há cada vez mais opções. As escolhas tornam-se mais difíceis?
A noite anterior à convocatória é sempre mais difícil, não por haver indecisão, mas pelo respeito que temos pelas jogadoras. Sabemos que uma convocatória traz felicidade a umas e tristeza a outras. É importante que percebam que as portas não se fecham: dificilmente repetimos uma convocatória. Ter mais dúvidas é sinal de competência e de crescimento. Ficamos muito satisfeitos por haver cada vez mais opções, por vermos a formação a trabalhar bem e por haver jogadoras que regressam depois de períodos de ausência.
Como gerem as jogadoras que regressam de lesões prolongadas?
O regresso à competição é sempre uma situação delicada. Precisamos de perceber que espaço essas jogadoras estão a ter nos clubes, porque a exigência física de um jogo internacional é muito alta. Quando há qualidade e competência, sabemos que mais cedo ou mais tarde voltarão a estar aptas e a seleção estará cá para as receber.
Quando uma jogadora fica de fora por opção, fala com ela?
Depende das situações e dos momentos. Já aconteceu falarmos e já houve casos em que não foi necessário. Na preparação de um Europeu, por exemplo, estivemos todos juntos e tivemos de dizer cara a cara a umas jogadoras que iam e a outras que não iam. São decisões e momentos difíceis, mas fazem parte do nosso trabalho.
Portugal é hoje visto de outra forma pelas adversárias?
O reconhecimento e o respeito internacionais são completamente diferentes do que sentíamos há alguns anos. Nota-se na preparação que as equipas fazem para nos defrontar, nas conferências de imprensa dos treinadores adversários, que já conhecem bem as nossas jogadoras, e nos onzes que apresentam: contra Portugal ninguém quer facilitar ou rodar. Esse é um sinal de respeito pelo que a seleção tem vindo a fazer.
Sente-se um dos responsáveis pelo desenvolvimento do futebol feminino português?
Sinto-me mais uma pessoa que ajudou. A minha cara aparece mais vezes, por ser selecionador, mas seria impossível concentrar essa responsabilidade numa pessoa. Há muita gente a trabalhar: a Federação, a formação, o staff, os clubes e as associações. O crescimento dos clubes, as condições dadas às jogadoras e o trabalho de base, muitas vezes invisível, têm sido essenciais.
A eliminatória com a Irlanda do Norte permite pensar já na Croácia ou na Islândia, possíveis adversários se Portugal passar esta fase?
Só na Irlanda do Norte. Apesar de estar abaixo de nós no ranking, é uma equipa que merece o máximo respeito. Já esteve num Campeonato da Europa, quer chegar ao Mundial, tem um treinador relativamente novo e jogadoras novas. Conhecemo-la de jogos recentes e sabemos que será um adversário difícil. Se pensarmos no play-off seguinte, não conseguiremos ultrapassar este.
Qual é o passo seguinte para a seleção?
Dentro da nossa ideia e dos resultados, temos de ser cada vez mais dominadores. Isso aproxima-nos da consistência. Dizemos às jogadoras que temos de encontrar o nosso jogo para encontrar o resultado. Não basta fazermos um jogo extraordinário contra os Estados Unidos e depois não sermos capazes de apresentar uma boa exibição contra a Irlanda do Norte. Estamos num patamar em que conseguimos competir com toda a gente; agora temos de o fazer mais vezes, e não apenas num jogo de cada janela internacional.
As jogadoras entram hoje em campo convictas de que podem discutir o jogo com qualquer adversário?
Sinto que já não olhamos para ninguém com medo, porque provámos em campo que conseguimos jogar de igual para igual. Empatámos com a campeã europeia, a Inglaterra, e fomos competitivos contra os Estados Unidos, em casa deles. Houve períodos mais difíceis nos resultados, e as dúvidas aparecem sempre, mas esta equipa já deu provas do que pode fazer perante as melhores do mundo.
Onde evoluiu mais a seleção e onde precisa ainda de crescer?
A mentalidade mudou muito, e a capacidade física para responder ao contexto internacional está num patamar diferente. Temos de continuar a crescer na base técnica, reduzindo erros sem pressão e falhas técnicas. E há uma tendência decisiva no futebol atual: jogar bem sob pressão. Para isso, é importante que as jogadoras tenham, durante a época, contextos de alta exigência, em ligas internacionais, na Champions ou na Europa Cup.
A evolução da Liga BPI acompanha o crescimento da seleção?
Não se pode exigir que as velocidades sejam iguais, mas é inegável que somos melhores porque a Liga BPI está melhor. Os clubes dão melhores condições e mais contexto profissional às jogadoras. Portugal consegue colocar três equipas nas competições europeias, o que é um sinal muito positivo. A seleção bebe desse crescimento e, por sua vez, as jogadoras levam para os clubes experiência internacional adquirida aqui.
O que falta para a Liga BPI dar um salto comparável ao de outros campeonatos europeus?
Temos de olhar para o passado e perceber que a nossa liga ainda é muito jovem. As grandes ligas estão consolidadas há muito mais tempo. Há já uma percentagem significativa de jogadoras com contratos profissionais e as condições continuam a melhorar. Portugal até tem aspetos em que está à frente: utiliza VAR há vários anos. Precisamos de continuar a aumentar a competitividade e de encontrar o melhor formato para o crescimento da jogadora portuguesa. O que não pode acontecer é estarmos iguais daqui a dez anos.
A formação continuará a ser uma prioridade?
Sem dúvida. Há dez anos tínhamos primeira e segunda divisões e um campeonato de sub-19. Este ano abrimos um campeonato de sub-17. Estamos a criar mais contextos competitivos, através das provas nacionais, das taças e das competições regionais organizadas pelas associações. É um caminho que o futebol masculino fez há muito tempo e que no feminino ainda estamos a percorrer.
É realista comparar, a médio prazo, o futebol feminino e o masculino em qualidade, remunerações e profissionalismo?
Tudo depende do produto e de quem o quer ver e comprar. Como treinadores, temos de criar um bom produto, valorizar o jogo e a jogadora para atrair pessoas. O mercado está a crescer no mundo inteiro, incluindo nas transferências. Mas não devemos perder-nos em comparações com o masculino. Temos de olhar para o nosso caminho, perceber onde queremos estar e crescer de forma sustentada.
Como se responde ao sentimento de injustiça de jogadoras de grande qualidade que não atingem os mesmos patamares do masculino?
Esse é o contexto em que estamos, mas não podemos deixar de fazer aquilo de que gostamos por causa disso. Se queremos mais e entendemos que merecemos mais, temos de trabalhar para acrescentar valor ao nosso produto: ser profissionais, jogar melhor, tornar o espetáculo mais atrativo e criar razões para que as pessoas queiram ir ao estádio e comprar uma camisola.
As internacionais portuguesas têm noção do que representam para as crianças e para o público?
Acho que sim. Desde as primeiras qualificações para fases finais, e sobretudo desde o Mundial, muita coisa mudou. Vemos nos estádios pessoas com camisolas com os nomes das jogadoras portuguesas. Elas sabem que são referências e que isso traz responsabilidade. Há uma proximidade muito grande entre as jogadoras e os adeptos, e isso fortalece a ligação à seleção.
O que o mantém motivado após tantos anos no mesmo projeto?
Não há nada mais bonito do que representar o nosso país. Cheguei cedo à seleção, aos 32 anos, também para ajudar a implementar um plano estratégico de desenvolvimento do futebol feminino. Essa continua a ser a maior motivação. Gosto também do trabalho que faço na UEFA e na FIFA como observador técnico e mentor de treinadoras, mas o treino e a adrenalina do jogo continuam a ser insubstituíveis.
Levar Portugal aos Jogos Olímpicos é um sonho possível?
É um sonho, sem dúvida. No futebol, com apenas 12 vagas, é muito difícil, porque a Europa é muito forte e normalmente há apenas três ou quatro lugares disponíveis. Mas seria extraordinário. A densidade competitiva também está a aumentar e há discussões sobre a possibilidade de o torneio olímpico alterar os escalões, o que mostra que o futebol feminino está a evoluir em todas as dimensões.
Vê-se a fazer outra coisa no futebol, feminino ou masculino?
Nada é para sempre e tenho essa consciência. Revejo-me muito como treinador, embora goste de outras funções. Mas a pressão do dia de jogo, as decisões e essa adrenalina são coisas de que ainda não prescindo.
Como acompanha a polémica em torno de Cristiano Ronaldo e a discussão sobre liderança e regras?
Acompanho de longe. É o contexto de um colega que respeito e não me cabe opinar sobre o que se está a passar na seleção masculina. Gostaríamos todos de estar a falar apenas do jogo e da qualidade de Portugal, depois de vitórias importantes na Liga das Nações.
Independentemente do estatuto, um jogador ou jogadora pode colocar-se acima das regras do grupo?
As regras são claras. Uma coisa são as regras, outra é a forma como as aplicamos e como lideramos. Lideramos pessoas diferentes e comunicamos de forma diferente com cada uma, mas as regras têm de ser iguais para toda a gente: jogadoras, staff e todos os que estão envolvidos no dia-a-dia de uma seleção.
Recorda-se do caso de Cláudia Neto, que acabou por deixar a seleção?
Não considero que seja um caso comparável. A Cláudia tomou a decisão, depois de não termos alcançado uma qualificação direta, e acabámos por aceitar. Foi uma jogadora muito importante a quebrar barreiras a nível interno e internacional, abriu portas a muitas portuguesas no estrangeiro e foi uma das nossas capitãs. Merece o máximo respeito.
Cristiano Ronaldo está no final da carreira. Cuidar da imagem pública também faz parte do legado?
É uma questão para o Cristiano e para quem gere essas situações. Todos os jogadores que chegam à seleção deixam um legado. Ser internacional é representar o país e deixar uma marca. O Cristiano fez isso com muito orgulho em campo ao longo de tantos anos. Quanto ao resto, não me cabe pronunciar-me, mas tenho o máximo respeito pelo que fez e ainda pode fazer por Portugal. É uma marca portuguesa internacional que abriu muitas portas.
Que legado gostaria o selecionador de deixar?
Gostaria de contribuir para a afirmação e o posicionamento da seleção feminina portuguesa, a nível nacional e internacional, e para o reconhecimento da jogadora portuguesa. Mas esse não é um legado apenas meu: é de todos os que trabalham à volta da equipa. No plano pessoal, a minha preocupação é simples: que, no dia em que sair, as pessoas digam que fui boa pessoa, que tratei bem os outros e que os respeitei.
