Aos 22 anos, Francisca Veselko garantiu de forma antecipada a qualificação para o Championship Tour (CT) de 2026, assegurando um lugar na elite do surf mundial feminino e protagonizando um momento histórico para o surf português. O apuramento ficou confirmado após a etapa do Pipe Challenger, no Havai, graças à consolidação do quarto lugar no ranking do Challenger Series, tornando impossível a qualquer concorrente ultrapassá-la na luta pelas sete vagas de acesso ao circuito principal. Num percurso marcado por consistência, resiliência e uma preparação exigente, Veselko junta-se a Yolanda Hopkins no CT de 2026, abrindo um novo capítulo para o surf feminino nacional.A Francisca foi para esta prova com a expectativa de garantir o acesso ao circuito mundial?Sim, sabia que precisava de um bom resultado. Inicialmente tinham-me dito que, para garantir a qualificação, teria de ganhar o evento, mas depois tudo acabou por depender também dos resultados das atletas que estavam atrás de mim no ranking. Essas atletas acabaram por perder mais cedo do que eu e, com os resultados delas e com a minha presença nas meias-finais, isso foi suficiente para, nas contas finais, garantir o World Tour na etapa de Pipeline. Confesso que foi um campeonato em que estive muito nervosa, mas muito por ser em Pipeline, que é uma onda extremamente perigosa e difícil. Ao mesmo tempo, sabia que tinha vindo para cá treinar. Estive no Havai um mês e meio antes, foi um mês e meio de muito trabalho, muita dedicação, muitas quedas, muitas tentativas. Apesar de ser um campeonato em que estava bastante nervosa pela onda em si, senti-me também entusiasmada e preparada. Fiz uma boa preparação para este evento.Quando percebeu que tinha garantido o lugar, este momento histórico, o que é que lhe passou pela cabeça?Passaram-me várias imagens pela cabeça. Imagens de mim mais nova, quando comecei a competir, pequenina, com dois totós, uma menina cheia de garra, cheia de vontade, supercompetitiva, sempre com os dentes cerrados. Vieram-me muitas memórias do início, de quando tudo começou. A primeira coisa que fiz foi ligar aos meus pais para agradecer por tudo. Eles sempre foram os meus maiores apoiantes e, se não fossem eles, nada disto seria possível. Também me lembrei do meu treinador, o Rodrigo Sousa, que me acompanha desde pequenina. Foi um verdadeiro flashback de como tudo começou. É incrível olhar para o presente e perceber que consegui realizar o meu sonho.O que é que foi diferente este ano em relação aos anteriores em termos de preparação?Não é que nos outros anos não acreditasse, mas este foi realmente o ano em que me senti preparada. Tive de fazer várias mudanças nos últimos anos da minha carreira e todas essas mudanças têm dado resultados. Nada disto seria possível sem a minha equipa. Tenho treinadores físicos, Pilates, psicóloga, manager. Acho que é mesmo preciso ter uma boa equipa por trás, que nos dê conforto e que complete o puzzle, para eu me sentir bem e focar-me apenas no surf. Estou mesmo muito contente.Ainda há mais uma etapa do Challenger Series. É obrigatório fazê-la ou pode optar por não competir?Posso não a fazer, mas vou fazê-la. Vou tentar manter o quarto lugar ou até melhorar, por isso competir nessa etapa está completamente nos meus planos.A partir daqui quais são os seus próximos objetivos?O próximo passo é, sem dúvida, manter-me no World Tour. O meu sonho sempre foi qualificar-me, mas agora o grande desafio é conseguir manter-me lá dentro e não cair logo novamente para o Challenger Series. O nível é muito elevado, por isso ainda estou a digerir tudo isto. O facto de estarem duas portuguesas no circuito, nomeadamente com a presença da Yolanda Hopkins, é algo especial?Conheço a Yolanda há muitos anos. No início do ano, eu, a Yolanda e a Teresa Bonvalot estivemos as três no Top 7, antes de qualquer atleta estar oficialmente qualificada. Foi um marco histórico. Nunca se tinha visto três portuguesas no topo da qualificação. Isso mostra que o nosso país tem muito potencial. Somos um país pequeno, mas somos grandes. Portugal tem atletas de topo em várias modalidades. Espero que a minha qualificação e a da Yolanda consigam inspirar a nova geração.Acha que Portugal e a Europa estão cada vez mais fortes no surf mundial?Sem dúvida. O Top 7 está bastante dominado pela Europa. Portugal, em particular, nunca teve tanta ajuda ou tanto destaque mediático como países como os Estados Unidos ou a Austrália. Somos um bocadinho “underdogs”. Mesmo nas redes sociais, não somos tão faladas. Acho que tudo isto demonstra que cada uma fez o seu caminho, lutámos muito e conseguimos aquilo que queríamos. Se tivesse de escolher apenas um grande título para conquistar no futuro, qual seria?Essa é difícil. Gostava muito de participar nos Jogos Olímpicos e de conquistar uma medalha olímpica. Mas também quero ser campeã do mundo no CT. É difícil escolher apenas um, mas é trabalhar para tudo. .Francisca Veselko perto da elite mundial de surf após chegar às meias-finais no Havai.Surfista portuguesa Francisca Veselko campeã mundial de juniores