Caso no golfe mostra os riscos de construir uma competição dependente de um financiador único.
Caso no golfe mostra os riscos de construir uma competição dependente de um financiador único.Arquivo DN

Fim do casamento entre golfistas e Arábia Saudita

Os principais jogadores da LIV Golf, maior rival do PGA Tour, reclamam 100 milhões do fundo público do país do Golfo, após cinco anos de milionária parceria.
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O casamento milionário entre o golfe profissional e o dinheiro saudita está a acabar numa batalha por contratos, indemnizações e promessas por cumprir. Os principais jogadores da LIV Golf, campeonato rival da PGA Tour, reclamam mais de 100 milhões de dólares ao Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF), depois de este ter decidido retirar o financiamento à competição que criou em 2021. A informação foi avançada pelo The Athletic e confirmada pela Reuters, a 25 de Outubro.

A disputa é um dos capítulos mais recentes da crise de uma liga que pretendia revolucionar o golfe mundial, atraindo algumas das suas maiores estrelas, entre as quais Dustin Johnson, antigo número do mundo, e Bubba Watson, com contratos de centenas de milhões de dólares, prémios elevados e um formato de competição por equipas. Agora, os jogadores que ajudaram a construir o projeto receiam ficar sem o dinheiro que lhes tinha sido prometido.

O PIF investiu mais de 5 mil milhões de dólares na LIV desde a sua criação, em 2022, segundo a Associated Press, mas anunciou em abril que deixaria de apoiar financeiramente a competição no final da temporada de 2026.

A liga entrou, a 8 de Setembro, num processo de reestruturação ao abrigo do capítulo 11 da lei de insolvência norte-americana, que permite às empresas reorganizarem-se sob supervisão judicial. O objetivo é sobreviver sem o seu principal financiador.

Os jogadores liderados por Johnson pretendem recuperar mais de 100 milhões de dólares, relativos a pagamentos contratuais e indemnizações por cessação de contratos. O advogado do golfista, David Cornwell, acusou o fundo saudita de ter “abandonado atletas que tomaram decisões determinantes para as suas carreiras com base nas garantias financeiras que lhes tinham sido dadas”, numa declaração reproduzida pela Reuters.

Entretanto, a LIV procura sobreviver sem o dinheiro saudita. A empresa de investimento BC Partners comprometeu-se a disponibilizar até 300 milhões de dólares para financiar uma nova versão da competição, batizada LIV 2.0. O plano prevê que os jogadores passem a deter, em conjunto, 52,5% do capital da liga, ficando a BC Partners e outros investidores minoritários com 45%, de acordo com o Golf Channel.

Mas a reestruturação revelou uma contradição: documentos apresentados no tribunal mostram que a LIV pagou 15,6 milhões de dólares em prémios de retenção a sete dos seus executivos nos meses anteriores à entrada no processo de insolvência. A mesma documentação identificou 129 pagamentos a credores nos 90 dias anteriores ao pedido de protecção judicial, a 24 de outubro.

A crise já está também a provocar a saída de figuras importantes. Jon Rahm, Tyrrell Hatton e Ian Poulter estão entre os jogadores que se afastaram ou indicaram que não continuarão na competição. Sergio García também anunciou o regresso ao circuito europeu DP World Tour em 2027, depois de ter pedido a libertação do contrato com a LIV.

O caso coloca uma questão sobre o futuro do investimento saudita no desporto internacional: a estratégia de utilizar o dinheiro do fundo soberano para atrair estrelas, comprar visibilidade global e desafiar estruturas tradicionais produziu resultados mas a retirada da LIV mostra os riscos de construir uma competição dependente de um financiador praticamente único.

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