O treinador português Filipe Martins construiu uma trajetória sólida no futebol nacional ao afirmar-se como um técnico de projetos estruturados e crescimento sustentado, destacando-se sobretudo pelo trabalho realizado no Casa Pia AC, que conduziu a uma histórica subida à I Liga após décadas de ausência do principal escalão. Mais recentemente orientou o GD Chaves na II Liga, num percurso interrompido de forma consensual com a administração do clube transmontano, encontrando-se atualmente a aguardar o próximo desafio, com possibilidades em Portugal e no estrangeiro. Experiente e ponderado nas decisões, o técnico de 47 anos, acredita que a seleção portuguesa reúne condições para discutir a conquista do Campeonato do Mundo, sublinhando a evolução competitiva do futebol português e o momento particularmente forte vivido pela atual geração de jogadores.“Há uma expectativa muito grande em relação à seleção portuguesa e isso é sinal da qualidade que temos”,afirmou, considerando que o estatuto internacional da equipa das quinas se alterou de forma significativa nos últimos anos. “Neste momento já somos vistos como uma seleção de top 3 ou top 4 mundial. Isso traz responsabilidade, mas também mostra o respeito que Portugal conquistou”, acrescentou. Para Filipe Martins, o grupo atual tem maturidade competitiva e experiência suficiente para lidar com essa pressão acrescida. “Se me perguntarem se Portugal pode ser campeão do mundo, pode claramente. Há talento, há experiência e há uma geração habituada a competir ao mais alto nível nas melhores ligas europeias”.O treinador considera que a consolidação desse estatuto internacional resulta não apenas da qualidade individual dos jogadores portugueses, mas também da evolução estrutural do futebol nacional ao longo das últimas décadas. Ainda assim, entende que há desafios importantes a ultrapassar para aproximar o campeonato português das principais ligas europeias. “A liga portuguesa está cada vez mais competitiva e continua a produzir e a recrutar bons talentos. O jogador estrangeiro sabe que vir para Portugal pode ser uma porta para outro patamar”, explicou. No entanto, defende que o crescimento do futebol nacional depende também da valorização do espetáculo e da imagem global da competição. “Não podemos ser atrativos apenas pela capacidade de vender jogadores. Temos de saber vender melhor o campeonato como produto”..Nesse sentido, identifica como prioritária a melhoria do ambiente competitivo nos estádios e da perceção externa da liga. “Muitas vezes vemos transmissões com qualidade televisiva, mas bancadas com pouca gente. Isso não ajuda a valorizar o campeonato. Se não houver espetáculo e uma imagem forte da liga portuguesa, vai ser difícil reduzir a diferença para os principais campeonatos europeus”, sublinhou, defendendo uma estratégia integrada que envolva clubes, liga e investidores. “O crescimento tem de ser também comercial e estrutural, não apenas desportivo”.Sem clube desde a saída do GD Chaves, Filipe Martins garante atravessar uma fase de reflexão tranquila, assumindo que já recebeu contactos, mas que prefere aguardar por uma oportunidade que se enquadre no seu perfil e ambição. “Neste momento estou claramente com a cabeça tranquila. O telefone já tocou, houve contactos, mas ainda não apareceu o projeto que eu considero certo”, afirmou, deixando claro que a escolha do próximo desafio será feita com critério. “Os projetos fazem-se de sucessos e de insucessos, e os insucessos marcam muito negativamente. É importante escolher bem e não acumular decisões erradas”.A saída do emblema flaviense, garante, aconteceu num clima de respeito institucional e entendimento mútuo. “Saímos amigavelmente deste projeto. Sinto que o trabalho da equipa técnica foi positivo, mas os resultados aceleraram a saída”, explicou, admitindo que também sentiu ser o momento adequado para encerrar o ciclo. “Também percebi que não me identificava totalmente com o momento e isso pesou na decisão”.Apesar da curta duração da experiência em Chaves, o técnico considera que deixou bases importantes para o futuro do clube. “Criámos estruturas e dinâmicas que podem ajudar o Chaves a crescer. Muitas vezes o trabalho feito não é imediatamente visível, mas fica para o futuro”, referiu, defendendo que os projetos desportivos precisam de estabilidade temporal para produzir resultados consistentes. “Hoje o futebol vive muito da pressão imediata do investimento e isso reduz o tempo de trabalho dos treinadores”..Entre as hipóteses em aberto para o futuro, o estrangeiro surge como uma possibilidade concreta, com especial destaque para um eventual regresso ao futebol chinês, onde trabalhou durante alguns meses e deixou boa impressão. “Voltaria claramente para a China, porque hoje iria muito mais preparado do que na primeira passagem”, afirmou, recordando o contexto particular que encontrou nessa experiência. “É uma realidade completamente diferente ao nível da mentalidade competitiva e da cultura de treino, mas guardo um sentimento bastante positivo em relação ao país e ao futebol chinês”.Em Portugal, um dos capítulos mais marcantes da carreira continua a ser a ligação ao Casa Pia, clube com o qual alcançou uma subida histórica ao principal escalão do futebol português, criando uma relação duradoura com adeptos e estrutura. “Há clubes e treinadores que ficam ligados para sempre e sinto que o meu nome ficará sempre associado ao Casa Pia”, afirmou, recordando o impacto desse percurso. “Foi um projeto muito especial, construído desde a base, com uma identidade muito forte”.Apesar da ligação emocional ao emblema lisboeta, o treinador prefere preservar essa memória como um marco positivo na carreira. “Fizemos uma história muito bonita e não quero correr o risco de estragar aquilo que foi construído. Quero sempre manter o Casa Pia como um sítio onde possa voltar com orgulho”, sublinhou..Portugal vence Estados Unidos no jogo 700 da história da equipa das quinas (veja os golos)