Dez anos depois de ter chegado ao poder com a promessa de devolver transparência e credibilidade à FIFA, Gianni Infantino enfrenta a maior crise da sua presidência. O polémico projeto FIFA Forward Enterprise (FFE), que previa a abertura de parte da exploração comercial das principais competições da FIFA ao investimento privado, desencadeou uma das mais profundas divisões institucionais da última década, obrigou o dirigente suíço a retirar a proposta e abriu uma frente de conflito entre a FIFA, a UEFA e um número crescente de federações nacionais.No centro da polémica esteve a intenção da FIFA de criar uma empresa para gerir os direitos comerciais das suas principais competições, incluindo os Campeonatos do Mundo masculino e feminino. A estrutura teria uma avaliação próxima dos 20 mil milhões de dólares e permitiria a alienação de até 20% do capital a investidores privados, numa operação avaliada em cerca de 4,2 mil milhões de dólares. A FIFA defendia que parte desse encaixe financeiro seria distribuída pelas 211 federações filiadas, que receberiam cerca de 20 milhões de dólares cada, reforçando o financiamento ao desenvolvimento do futebol. Para muitos dirigentes, porém, a proposta representava uma alteração profunda do modelo associativo da organização e uma excessiva abertura ao capital privado.A contestação foi imediata. A UEFA acusou a FIFA de ter preparado o projeto sem consulta prévia das confederações e de colocar em causa um património que considera coletivo. Perante a dimensão da oposição, Infantino acabou por retirar a proposta. O recuo, contudo, não travou a escalada da crise.O momento assume um simbolismo especial porque foi precisamente com a promessa de romper com os erros do passado que Gianni Infantino chegou à presidência da FIFA. Em fevereiro de 2016, o então secretário-geral da UEFA venceu as eleições realizadas poucos meses depois da queda de Sepp Blatter, afastado na sequência do maior escândalo de corrupção da história da organização. As investigações iniciadas em 2015 expuseram uma vasta rede de corrupção, fraude e branqueamento de capitais, provocando detenções de dirigentes em vários países e mergulhando a FIFA numa crise sem precedentes. Infantino apresentou-se então como o líder de uma nova era, comprometendo-se com uma governação transparente, maior escrutínio das decisões e uma reforma profunda da instituição.Dez anos depois, é precisamente a transparência que voltou a colocar a FIFA sob escrutínio. A UEFA considera que o processo da FIFA Forward Enterprise foi conduzido sem o necessário diálogo com as confederações e acusa a liderança de Infantino de se afastar dos princípios de boa governação que defendera quando assumiu o cargo.A oposição rapidamente deixou de ser apenas europeia. A CONCACAF e a Confederação Asiática de Futebol (AFC) criticaram igualmente a forma como o projeto foi preparado, defendendo que uma reforma com esta dimensão deveria resultar de um processo transparente e participado por todas as confederações.A contestação começou também a traduzir-se em perdas de apoio político. As federações de Inglaterra, País de Gales, Suécia e Sérvia retiraram o apoio à recandidatura de Gianni Infantino para um novo mandato na presidência da FIFA, alegando perda de confiança na atual liderança e criticando a forma como foi conduzido todo o processo relacionado com a FIFA Forward Enterprise. Trata-se do mais significativo revés político sofrido por Infantino desde que chegou ao poder e de um sinal de que o consenso que o acompanhou durante a última década está longe de ser o mesmo.Ao mesmo tempo, a UEFA passou da crítica política à ação institucional. A confederação europeia notificou formalmente a FIFA para preservar toda a documentação, mensagens e comunicações relacionadas com o projeto, um procedimento habitualmente utilizado quando se admite recorrer aos tribunais. Embora ainda não tenha sido formalizada qualquer ação judicial, a possibilidade de um confronto jurídico entre as duas organizações deixou de ser um cenário meramente teórico.Nos bastidores, a crise está igualmente a alterar o equilíbrio de forças no futebol mundial. Até há poucas semanas, a recandidatura de Gianni Infantino para um quarto mandato parecia praticamente assegurada. Hoje, vários dirigentes admitem que o descontentamento gerado por este episódio poderá abrir espaço ao aparecimento de um candidato alternativo nas eleições previstas para 2027.O contraste é evidente. O dirigente que chegou à presidência da FIFA prometendo romper definitivamente com os métodos da era Blatter enfrenta agora acusações de falta de transparência, excesso de centralização das decisões e défice de diálogo com as federações. A retirada da FIFA Forward Enterprise evitou uma rutura imediata, mas dificilmente encerrará a crise. Dez anos depois da maior transformação institucional da história recente da FIFA, o futebol mundial volta a viver um clima de divisão que ameaça marcar o futuro da organização e da liderança de Gianni Infantino..UEFA diz ter "perdido a confiança" em Infantino e agrava crise na FIFA