Quando uma atleta portuguesa teve de ser operada na Turquia sem possibilidade de ser acompanhada pelos pais, Cristina Moreno decidiu deslocar-se ao país para prestar apoio. Mais tarde, perante um contexto de instabilidade regional no Médio Oriente, a empresária voltou a intervir, desta vez para garantir apoio jurídico e logístico a uma atleta portuguesa a competir na Arábia Saudita. São episódios que, segundo a responsável, refletem uma forma de trabalhar centrada no acompanhamento integral dos desportistas, para lá das negociações e transferências.Nos últimos anos, Cristina Moreno tem vindo a reforçar a presença da sua estrutura de gestão desportiva em mercados internacionais, com especial incidência no Médio Oriente, nomeadamente na Arábia Saudita e na Turquia, e mais recentemente nos Estados Unidos e no Brasil. O crescimento da operação começou sobretudo através do futebol feminino, área onde a empresária identifica um espaço de afirmação ainda pouco explorado por estruturas portuguesas. “Começámos a abrir mercado através do feminino e isso permitiu-nos construir relações importantes fora de Portugal”, afirma. Segundo Cristina Moreno, a expansão internacional resultou de uma estratégia deliberada num setor altamente competitivo, dominado por grandes estruturas ligadas ao futebol masculino. A aposta passou por acompanhar atletas em modalidades e segmentos menos disputados, procurando criar oportunidades em novos mercados. “Percebemos que seria muito difícil competir pelos grandes jogadores num mercado já consolidado. O feminino representava um desafio maior, mas também uma oportunidade”, explica. A empresária sustenta, contudo, que o papel de uma estrutura de representação desportiva não deve limitar-se à mediação de contratos. Defende uma abordagem mais próxima, que inclua apoio emocional, acompanhamento em processos burocráticos e intervenção em momentos de maior fragilidade pessoal.“Não vemos apenas o lado financeiro. O atleta precisa de equilíbrio e muitas vezes há circunstâncias pessoais que influenciam diretamente a performance”, afirma. Entre os exemplos referidos está o acompanhamento de uma atleta portuguesa na Turquia durante um processo cirúrgico, numa altura em que a família não pôde deslocar-se. Noutro caso, relacionado com uma atleta na Arábia Saudita, Cristina Moreno diz ter articulado apoio legal e administrativo para garantir melhores condições de permanência e segurança num contexto internacional particularmente exigente. A conciliação entre desporto de alto rendimento e percurso académico é outra das preocupações apontadas pela empresária. Cristina Moreno afirma que a equipa procura perceber desde cedo as expectativas dos atletas relativamente à carreira e à formação académica, defendendo modelos de “carreira dual”, sobretudo em modalidades com menor estabilidade financeira..“Se percebemos que um atleta quer concluir estudos superiores e continuar a competir, tentamos criar condições para que isso aconteça”, refere. Em alguns casos, explica, houve necessidade de dialogar com clubes para compatibilizar calendários competitivos com avaliações escolares ou universitárias. “Já tivemos situações em que os atletas tinham provas académicas importantes e procurámos intervir para evitar prejuízos.” A comparação com mercados internacionais surge frequentemente no discurso da empresária, sobretudo no que diz respeito ao investimento. A Arábia Saudita, país que tem reforçado significativamente a aposta no desporto nos últimos anos, é apontada como exemplo de um ecossistema em rápida transformação. “Existe um investimento muito forte e isso cria outro tipo de condições”, diz, embora reconheça que se trata de mercados igualmente exigentes e culturalmente distintos. Cristina Moreno lamenta ainda o impacto das alterações regulamentares da FIFA relativas ao acompanhamento de jovens talentos, argumentando que algumas mudanças dificultaram modelos de apoio precoce, especialmente em contextos socialmente vulneráveis. “Queríamos acompanhar atletas muito cedo, sobretudo em situações em que as famílias não tinham recursos, mas as regras mudaram e obrigaram a um reposicionamento”, explica. A empresária deixa igualmente reservas quanto ao envolvimento de marcas e patrocinadores nas fases iniciais da carreira dos atletas, defendendo uma visão de longo prazo. “O apoio tende a surgir quando já existe notoriedade, mas muitas vezes é antes disso que os atletas mais precisam”. Para Cristina Moreno, uma maior colaboração entre agentes do setor poderia traduzir-se em melhores condições de desenvolvimento para jovens talentos desportivos.