Depois de um ano como 2025, marcado por conquistas históricas, medalhas europeias e mundiais e uma afirmação transversal do desporto português, 2026 surge não como um ano de deslumbramento, mas como um momento decisivo de consolidação. A diferença entre ambos os anos não está na ambição nem no talento disponível, mas na forma como o sistema desportivo nacional pretende transformar o sucesso recente em continuidade estrutural. Essa é, aliás, a mensagem central que tem sido repetida pelos principais dirigentes desportivos do país ao longo dos últimos meses.O presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), Fernando Gomes, tem sido particularmente claro ao enquadrar o pós-2025. Em várias intervenções públicas, sublinhou que “o sucesso não se decreta, constrói-se com estabilidade, planeamento e continuidade”, alertando para o risco de Portugal confundir um grande ano com um ponto de chegada. A leitura institucional é inequívoca: 2026 não será um ano para medir apenas medalhas ou títulos, mas para avaliar a capacidade de proteger carreiras, garantir condições de treino e evitar ruturas após ciclos de alta exigência competitiva.Essa preocupação surge diretamente da comparação com 2025. Um ano em que Portugal ganhou muito, mas também exigiu muito dos seus atletas. Para o COP, o foco de 2026 passa por reforçar os programas de apoio ao alto rendimento, melhorar a articulação entre federações e universidades e assegurar que o sucesso não se traduza em abandono precoce ou desgaste excessivo. Como o próprio Fernando Gomes afirmou num balanço público do ano desportivo, “o maior desafio não é chegar ao topo, é lá ficar”.No futebol, a transição para 2026 é particularmente simbólica. Depois da conquista da Liga das Nações e da consagração internacional da seleção nacional em 2025, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, tem defendido uma abordagem de continuidade sem ruturas. Em declarações públicas ao longo do ano, sublinhou que “a estabilidade é hoje uma vantagem competitiva do futebol português” e que o trabalho iniciado não depende de ciclos curtos nem de figuras isoladas.A proximidade do Mundial de 2026, que marcará o provável adeus de Cristiano Ronaldo à seleção, reforça essa visão. Para a liderança federativa, a herança de 2025 não está apenas nos troféus, mas na normalização de uma cultura de exigência. Como referiu Pedro Proença num contexto institucional, “o futebol português aprendeu a ganhar sem perder identidade”, apontando o sucesso da formação — comprovado pelo título mundial de Sub-17 — como base para o futuro imediato.Em Doha, os Sub17 sagraram-se campeões do mundo, ao vencer a Áustria por 1-0 na final. Mais do que um título inédito, a conquista confirmou a vitalidade do modelo formativo nacional, que continua a produzir jogadores tecnicamente evoluídos, taticamente inteligentes e preparados para competir ao mais alto nível, garantindo continuidade para o sucesso da equipa principal. Fora do futebol, o discurso dos dirigentes e atletas segue uma linha semelhante. No andebol, após a inédita presença nas meias-finais do Campeonato do Mundo, Miguel Laranjeiro, o presidente da Federação Portuguesa de Andebol assumiu publicamente que 2026 será um ano de consolidação, não de euforia. O líder federativo afirmou que “Portugal deixou de ser uma surpresa, e isso traz novas responsabilidades”, sublinhando que o verdadeiro teste será manter competitividade de forma regular frente às principais seleções europeias.Ainda sobre o Mundial e o 4º lugar, entre os protagonistas esteve Francisco Costa, distinguido como Melhor Jogador Jovem do torneio, que não escondeu a ambição apesar do reconhecimento individual: “É bom, mas, para mim, era melhor a medalha de bronze.” Após a eliminação, deixou uma mensagem clara sobre o futuro: “Temos de continuar a crescer… mas, por mim, é pouco. Quero mais e vou lutar por muito mais.”No atletismo, 2025 foi marcado pelos títulos mundiais de Isaac Nader e Pedro Pichardo, no entanto, a Federação Portuguesa de Atletismo tem sido cautelosa na projeção de 2026. O discurso institucional, repetido em várias comunicações públicas, centra-se na gestão de expectativas e na proteção dos atletas. “Não se pode pedir todos os anos o extraordinário sem reforçar o quotidiano”, numa referência clara à necessidade de investimento estrutural e não apenas na alta competição.Pichardo, também campeão olímpico chamou a atenção para uma questão que não deixa de ser sensível: “Acho que muitos ainda não me veem como 100% português ou sequer como português”, uma reflexão que ultrapassa o atletismo e convoca o debate sobre pertença, integração e identidade no desporto contemporâneo e concretamente no desporto português.Também no judo, após o ano de consagração de Patrícia Sampaio, a federação tem defendido que 2026 será determinante para alargar a base da modalidade, ligando diretamente o impacto de 2025 à necessidade de crescimento sustentado no feminino.Talvez onde a comparação entre 2025 e 2026 seja mais delicada seja nos desportos emergentes. O título mundial júnior de Jéssica Rodrigues na patinagem de velocidade colocou os desportos de inverno na agenda mediática e política, mas os responsáveis têm sido prudentes. O IPDJ, em intervenções públicas, tem destacado que “não há desenvolvimento sem enquadramento a longo prazo”, apontando para a necessidade de parcerias internacionais e soluções fora do território nacional, dada a realidade climática portuguesa. A jovem madeirense explicou a exigência da disciplina: “O gelo exige muito mais fisicamente, é muito mais preciso e técnico.” E admitiu o impacto emocional do resultado: “Eu sonhava já com o resultado. Sabia que era possível, mas não tão cedo. Foi um grande choque quando aconteceu.” Num país sem tradição nem infraestruturas naturais para este tipo de modalidades, o feito de Jéssica revelou que o talento, quando acompanhado de condições mínimas e ambição, pode desafiar a geografia e os hábitos culturais. Talvez por ter condições mais escassas, a atleta ainda está a tentar um lugar nos Jogos Olímpicos de 2026 em Milano-Cortina, que se realizam em fevereiro. No rugby e no basquetebol, o discurso é de consolidação silenciosa. Após a qualificação para o Mundial de 2027, a liderança do rugby português afirmou que “a presença regular entre os melhores exige mais trabalho do que a qualificação pontual”. No basquetebol, depois de um 2025 histórico, os responsáveis federativos alertaram que “chegar à Europa foi difícil; lá ficar será ainda mais”, numa leitura realista do desafio que 2026 representa.O rugby português confirmou a sua consolidação ao garantir a presença no Mundial de 2027, enquanto o basquetebol viveu um ano histórico, com a qualificação inédita da seleção feminina para o EuroBasket e o regresso da seleção masculina à competição após 14 anos de ausência. Passando ao ciclismo e à canoagem, modalidades habituadas a resultados consistentes, os dirigentes têm insistido numa ideia simples: continuidade sem excesso de pressão. Em ambos os casos, foi reiterado publicamente que “a longevidade das carreiras é hoje tão importante como a medalha seguinte”, numa resposta direta ao risco de sobrecarga após épocas excecionais como a de 2025.No ciclismo, João Almeida alcançou o segundo lugar na Volta a Espanha, igualando o melhor resultado de sempre de um ciclista português numa grande volta, conseguido por Joaquim Agostinho em 1974. Ao longo da temporada, venceu provas de grande prestígio e afirmou-se como um dos corredores mais consistentes do pelotão internacional. E Iúri Leitão confirmou a hegemonia europeia no scratch, resumindo o feito de forma simples: “Ser o melhor da Europa nesta disciplina é uma grande honra.”No que diz respeito à canoagem, a medalha de ouro do K4 500 metros, conquistada em Milão, reforçou uma evidência antiga: esta é uma das modalidades mais eficazes do desporto português. Pedro Casinha explicou o significado da conquista com palavras que traduzem bem o espírito da equipa: “Esta medalha representa todo o esforço e sacrifício. É um sonho…, mas vencer é um delírio.” Resultados como este confirmam que a canoagem portuguesa assenta num modelo de trabalho estável, discreto e altamente produtivo. A comparação entre 2025 e 2026 revela, assim, uma mudança de foco. Se 2025 foi o ano da afirmação externa, 2026 será o ano da prova interna. Os dirigentes desportivos portugueses parecem alinhados numa convicção comum: o maior perigo não é falhar resultados, mas falhar a consolidação do sistema que os tornou possíveis.2026 será, muito provavelmente, um ano menos exuberante aos olhos do público. Mas poderá ser, paradoxalmente, o mais importante da década. Porque é nos anos sem euforia que se decide se o sucesso é exceção ou regra. Se Portugal souber transformar as conquistas de 2025 em estrutura duradoura, então esse ano ficará como o verdadeiro ponto de viragem do desporto nacional. Portugal mostrou que sabe ganhar, em diferentes contextos, modalidades e gerações. O verdadeiro desafio começa agora: transformar este momento excecional num padrão sustentável, capaz de resistir ao tempo e às inevitáveis mudanças de ciclo. Se o país conseguir aprender com 2025, este ano não será apenas lembrado como um grande ano desportivo, mas como o ponto de viragem em que o sucesso deixou de ser exceção para passar a ser regra, já em 2026. .Nomes fortes do desporto português a acompanhar em 2026