Diana Silva não esconde que o Benfica é clube do coração.
Diana Silva não esconde que o Benfica é clube do coração.Gerardo Santos

Diana Silva: ”Espero um dia estar a ver um jogo e saber que todas as jogadoras conseguem viver do futebol“

É uma das melhores jogadoras nacionais e defende a profissionalização do futebol feminino para que “os clubes e as seleções possam chegar a patamares nunca antes vistos”.
Publicado a
Atualizado a

Diana Silva nasceu a 4 de junho de 1995 na Amadora (tem 31 anos). Soma 125 jogos e 24 golos pela seleção nacional. Começou no Ouriense, jogou ainda no Albergaria e no Aston Villa, mas foi no Sporting que se destacou. No verão de 2025 deu o salto para o Benfica.

A época 2025/26 correu bem. Conquistou o campeonato e a Taça de Portugal no primeiro ano com o símbolo do Benfica ao peito... A nível pessoal fez 10 golos em 28 jogos.

Sim, de uma forma geral, correu muito bem, estou muito feliz com o desfecho. Comecei com algumas expectativas, não vou dizer receio, porque eu nunca tenho receio, mas queria que as coisas corressem bem e poderia não conseguir adaptar-me a uma equipa nova, a um treinador novo, a uma nova posição... Era tudo muito novo para mim. Foi muita mudança, muita coisa nova, mas estou mesmo muito feliz pela forma como as coisas se encaminharam no sentido certo.

A época acabou com a vitória na Taça de Portugal, frente ao FC Porto (2-0). Um clássico no feminino, no Jamor, é a melhor promoção que o futebol feminino poderia ter?

Se calhar já é um cheirinho daquilo que pode acontecer para a próxima época. O FC Porto vai estar na Liga BPI e vai ser um adversário mais frequente. Foi um bom jogo, também pela adesão dos adeptos do Benfica. Foram espetaculares: encheram a nossa parte da bancada para ver o primeiro clássico da história, fizeram-nos sentir super acarinhadas, não nos deixaram no momento final da época e isso foi super especial para nós.

A moldura humana também mostra a evolução do futebol feminino em Portugal?

Quando comecei a jogar não havia praticamente pessoas na bancada. Joguei no Ouriense, a bancada estava composta, era mais pequenina, havia aquele espírito de apoio, mas em sítios maiores não há tanta gente a aderir, até porque há imensa coisa para fazer, anda tudo muito à pressa e muitas vezes não tiram esse tempo para nos acompanhar. Mas aqui no Benfica os adeptos aderem muito, acompanham muito, gostam de nos ver e isso para nós é gratificante. Mas sim, o crescimento tem sido notório e não é à toa que se consegue ver neste momento estádios muito bem compostos. Antigamente não ias colocar um jogo de futebol feminino num estádio grande, quanto mais o Estádio da Luz, para um dérbi ou um jogo da Champions. Temos tido grandes audiências tanto a nível de clubes como na seleção.

A nível salarial também mudou muito. Passou do não receber nada para um contrato profissional.

Na altura em que comecei não houve um salário, nem ajudas de custo, porque também não havia esse tipo de condições. Os clubes não tinham, infelizmente, condições para dar às jogadoras. Hoje em dia, também com a ajuda da Federação, os clubes têm tido mais capacidade. Infelizmente nem todos os clubes são profissionais e acho que o nosso caminho é nesse sentido. Espero que um dia possa estar a ver um jogo na bancada e saber que todas as jogadoras conseguem viver do futebol, porque para ser jogadora profissional tens que abdicar de muita coisa, portanto também tem que haver um salário, senão não conseguimos desempenhar a função. Muitas colegas que conheci na altura em que comecei, e depois durante a carreira, abandonaram porque não conseguiam viver disto. Hoje em dia posso dizer que vivo do futebol e que consigo perfeitamente fazer a minha vida e sonhar mais alto porque tenho muito melhores condições.

O modelo espanhol é uma inspiração a esse nível? Apostaram na profissionalização, o Barcelona passou a vencer a Champions e a seleção espanhola foi campeã do mundo.

E têm um salário mínimo, é esse o caminho que nós queremos fazer em Portugal. Com investimento, claro que vai aumentar muito a probabilidade de sucesso. Ainda por cima a jogadora portuguesa tem qualidade, tem um talento gigante. Se houver esse investimento, a competitividade vai subir e isso vai notar-se nos palcos internacionais. Iremos ver equipas portuguesas, e mesmo a seleção portuguesa, a atingir patamares nunca antes vistos.

Na época de estreia pelo Benfica foram 10 os golos somados por Diana Silva.
Na época de estreia pelo Benfica foram 10 os golos somados por Diana Silva.Gerardo Santos

Uma jogadora valorizada rende mais em campo?

Sim, valorizada em todos os sentidos, não tem a ver só com a parte monetária. Eu acho que se o treinador te valoriza, se as tuas colegas te valorizam, se os adeptos te valorizam, acabas por ter maior rendimento. É natural. Emocionalmente vais estar mais forte, mais estável e vais estar mais preparada e mais confiante para desempenhar o teu trabalho, porque às vezes tens qualidade e há talento mas se não for valorizado é como noutros trabalhos: se uma pessoa não é valorizada sente-se menos confiante, perde motivação, vontade de estar, e o rendimento acaba também por baixar.

Também por isso esta época foi especial, por fazer parte da equipa do Benfica, o seu clube do coração?

Sim, este ano foi muito especial, por conseguir estar num clube tão grande como o Benfica. Por ser o meu clube de coração nem parece um trabalho. Tem um gosto especial e nem nos meus melhores sonhos imaginaria tal coisa.

Sentiu algum receio quando decidiu mudar do Sporting para o Benfica, até pelos exemplos que tinha do futebol masculino, em que as mudanças entre estes dois clubes não são bem aceites pelos adeptos?

Eu entendo essa parte, nós vivemos no meio desportivo e sabemos que essas rivalidades existem, mas sempre que representei um clube dei o melhor de mim. Nunca penso que estou a jogar no clube X e Y, quero é dar o melhor de mim em todos os momentos. Claro que às vezes jogamos melhor, às vezes jogamos pior, mas não tem necessariamente a ver com o clube que representas. No Benfica sinto que tenho tudo, consigo focar-me só no que eu tenho que fazer dentro de campo e isso também ajuda bastante, mas dei sempre tudo de mim em todos os clubes onde estive.

E fora das quatro linhas, quem é a Diana Silva? Tendo em conta que o campo é um trabalho, quando não está a trabalhar faz o quê?

Eu gosto muito de estar comigo mesma, de me organizar, de pensar na minha vida, nos meus objetivos. Tenho tudo muito esquematizado. Gosto muito de estar também com a minha família e com amigos. Sou alguém que gosta de se formar, de saber mais, e também por isso tenho um curso à parte do futebol e vou fazendo as minhas formações em Ciências farmacêuticas.

De onde vem esse interesse?

Eu acredito que seja porque os meus pais vêm da área da saúde e, então, eu sempre estive muito dentro desse meio, as conversas à mesa eram muito sobre o dia de trabalho deles e eu acho que isso também me deu um bocadinho o bichinho de querer ajudar nessa área.

É esse o objetivo para o pós-carreira?

Inicialmente foi uma forma de ter um plano B, eu queria acabar os estudos e queria trabalhar porque na altura o futebol não dava garantias e os meus pais sempre me orientaram para esse objetivo de terminar os estudo. Eu sempre disse que sim, que queria terminar os estudos, mas também não desejava abdicar do futebol, portanto fui sempre fazendo os dois. E, depois, acabou por haver esta possibilidade de me tornar profissional de futebol e continuar os estudos.

Como foi esse dia, em que se tornou profissional de futebol? Devia ter vivido aquele dia de forma diferente?

Não acho que devia ter vivido o dia de forma diferente, até porque caiu um bocadinho assim de surpresa, não era uma coisa que eu estava à espera, lá está, porque eu também estava a preparar a minha vida para ter uma carreira fora do futebol. Entretanto recebi a notícia que estavam interessados em que eu fizesse parte de uma equipa profissional, a receber um salário. Para mim aquilo era tudo novo, tudo espetacular, era algo que nunca antes pensara que ia acontecer. Fiquei super entusiasmada e a minha decisão foi logo dizer sim. Eu adorava o que fazia, era uma oportunidade de uma vida. [Nesse dia] A única coisa que queria era falar com a minha família, dizer-lhes a novidade.

Alguma vez parou para pensar onde chegou?

Penso nisso sim, porque estou imensamente grata pelo meu percurso e pelas oportunidades que tive na vida. E também pela forma como as agarrei.

Vive o sonho?

Vivo o sonho. Posso dizer que sim, que sou uma sortuda, uma privilegiada, e agradeço todos os dias por isso.

Integrou a seleção nacional que fez história com presenças em Europeus e Mundiais. O Mundial 2027 é o grande objetivo?

Vivo todas as épocas com intensidade... Eu penso muito, escrevo muito, faço os meus objetivos, organizo a minha vida. Todos os anos tenho metas e todos os anos quero conquistar coisas. Se pudesse para o ano era Supertaça, campeonato, Taça da Liga, Taça de Portugal. Eu seria imensamente feliz se pudesse concretizar mais esse objetivo.

Faria muitas outras jogadoras infelizes...

Sim, mas também não posso pensar nas outras equipas. Eu estou no Benfica, quero que o Benfica seja bem sucedido e ser feliz aqui. Os objetivos são esses: conseguir tudo o que há para conseguir em Portugal e também passar a fase grupos da Liga dos Campeões, o que seria um momento marcante para mim a nível pessoal. Sei que o Benfica também quer chegar um bocadinho mais longe na prova, e por isso esses seriam os objetivos na próxima época.

isaura.almeida@dn.pt

Diário de Notícias
www.dn.pt