Há um português que esta época vai disputar um troféu em Wembley a 17 de maio. Bernardo Silva? Bruno Fernandes? Diogo Dalot? Rúben Dias? Pedro Neto? Matheus Nunes? Todos jogam na Premier League e representam clubes que estão habituados a marcar presença nas principais decisões do futebol inglês, mas quem lá vai estar a jogar nesse dia é Jandir Cruz, defesa-central de 37 anos do Cockfosters.Este modesto mas centenário clube de um subúrbio do norte de Londres com o mesmo nome e cerca de 14 mil habitantes vai estar pela primeira vez na final da FA Vase, uma taça disputada por todos os clubes da nona e décima divisões de Inglaterra. E para lá chegar, os fosters contaram com contribuição ativa do futebolista luso-caboverdiano, que marcou em ambas as mãos das meias-finais, diante do Punjab United (1-1 em casa e 2-0 fora), na sequência de um canto e de um lançamento lateral. Antes disso, passaram outras sete eliminatórias, entre as quais quatro no desempate por penáltis - numa delas, caiu o detentor do troféu, o Whitstable Town.. Já sabe o que vai levar na mala“Até estar garantido, jogar em Wembley era como se fosse um sonho. Desde que conseguimos que não se fala de outra coisa, mas ainda vamos jogar o play-off de subida e jogos da taça da nossa liga”, contou, ao DN, Jandir, que compete na Spartan South Midlands Football League Premier Division (9.ª Divisão).Embora ainda faltem mais de três semanas para a grande final diante do Stoneham, o defesa já pensou em fazer uma tatuagem para eternizar o momento na pele e até já sabe o que vai levar na mala: “Se ganhar, ou mesmo não, já pensei fazer uma tatuagem. Já encomendei umas caneleiras especiais para esse dia, com os nomes dos meus filhos. Tornei mais conhecido o nome de Cabo Verde, já tenho as bandeiras de Cabo Verde e Portugal juntas e nas minhas caneleiras levo as duas bandeiras. É uma forma de mostrar de onde é que vim até este grande momento.”. O entusiasmo é extensível aos adeptos. Nas primeiras 72 horas, voaram 3200 bilhetes, algo assinalável tendo em conta que o Cockfosters tem normalmente 200 a 300 pessoas a assistir aos encontros em casa. “Estão todos entusiasmados. Até adeptos de outros clubes da nossa liga já enviaram mensagem a dizer que nos vão apoiar em Wembley. Esse vai ser o Non-League Finals Day, com duas finais. A primeira final é a nossa, às 12h00, e a segunda final é às 16h00 [da FA Trophy, para clubes do quinto ao oitavo escalão, entre Southend United e Wealdstone]. Todos os adeptos querem ir e até famílias dos jogadores vêm de Portugal e Luxemburgo para ver o jogo”, explicou o possante defesa (1,93 m), que no futebol português atuou apenas nos campeonatos distritais da AF Setúbal, tendo representado clubes como União Banheirense, Lagameças, Luso do Barreiro, Desportivo Portugal e Amora.Em 2015, após deixar o Exército, decidiu emigrar para o Reino Unido, onde está instalado com a família e a trabalhar na área do marketing, como personal assistant. Mas não foi por mudar de país que deixou de querer jogar futebol. Bem pelo contrário. “Vinha de uma época muito boa no Amora, tinha feito dez golos, o que é muito para um defesa, e decidi experimentar uma liga diferente. Enviei o CV para alguns clubes e quando viram esses números foi fácil integrar equipas daqui. Tem sido uma carreira a conciliar o trabalho e o futebol. Comecei na quinta divisão [Nation League], estive lá dois ou três anos e com idade fui baixando, agora é mais para me divertir”, confessou.. Ingleses mais fervorososNo que concerne a diferenças entre o futebol português e inglês, Jandir diz que em Inglaterra o jogo “é mais direto, muito físico”, enquanto em Portugal “é mais técnico”. Fora das quatro linhas, “os ingleses são mais fervorosos”: “Há adeptos que, se lhes perguntarem se são do Arsenal ou do Cockfosters, dizem Cockfosters.”