A 16 de abril, Lionel Messi oficializou a compra de 100% da Unió Esportiva Cornellà, clube da Catalunha, que disputa a III Divisão do Campeonato Espanhol, juntando-se assim à lista dos jogadores e ex-jogadores proprietários de clubes de futebol, como Cristiano Ronaldo, que a 26 de fevereiro, anunciou a compra de 25% da SAD do UD Almería, clube espanhol da La Liga 2. Além de Ronaldo e Messi, também Vinícius Jr. (investiu no Alverca), Kylian Mbappé ou N’golo Kanté entraram no capital social das SAD, abrindo assim caminho para um pós-carreira ligado ao negócio do futebol, uma paixão e uma profissão rentável o suficiente para eles pensarem em reinvestir parte do dinheiro no futuro da modalidade. Assim como o fizeram os agora ex-jogadores Gerard Piqué, David Beckham, Ronaldo Nazário (o Fenómeno), Zlatan Ibrahimovic, David Beckham, Thierry Henry ou Cesc Fràbregas.O cenário mostra que há outra via para seguir ligado aos relvados, para quem não sentir o chamamento do treino ou quiser ser diretor desportivo. Os jogadores estão, assim, a ser duplamente ativos na construção do futuro do futebol, dentro e fora de campo, influenciando a cadeia de formação e o modelo de negócio e gestão. Eles querem jogar e ser donos do jogo, que também é um negócio.Muitos criam empresas e apoiam-se em sócios mais ou menos anónimos para investirem e gerirem clubes, emprestando muitas vezes apenas o seu (bom) nome a projetos desportivos. Portugal tem mostrado ser um mercado atrativo, por ser um país que forma bem e vende caro, mas a lei tem funcionado como escudo e/ou barreira.Há muito que CR7 tinha revelado “o sonho de ser dono de um ou mais clubes” e ambicionava “contribuir para o futebol, muito para além do campo”, mas poucos esperariam que o pontapé de saída do primeiro jogador de futebol a tornar-se bilionário ainda em atividade fosse dado no UD Almería, “um clube com bases sólidas e um claro potencial de crescimento”, segundo Ronaldo.As ligações do emblema espanhol ao capital saudita podem ajudar a explicar esta aposta no clube andaluz, onde será parceiro do consórcio liderado por Turki Al-Sheikh. No comunicado da CR7 Sports Investments, uma subsidiária da CR7 SA, constituída para gerir os investimentos de Cristiano Ronaldo, o jogador do Al Nassr classificou a compra como “um passo decisivo na expansão do seu portefólio global de investimentos”.O valor investido não foi revelado, mas a notícia gerou um impacto imediato na popularidade digital do clube espanhol, que passou para o top-5 dos mais seguidos nas redes sociais, à boleia da personalidade com mais seguidores no Instagram (673 milhões em abril de 2026).A aposta de Messi no Cornellà tem fundamentos emocionais. O argentino pretende viver em Barcelona, para onde se mudou com 13 anos para jogar nos blaugranna, e optou por apostar cinco milhões de euros num clube da região e com histórico na formação. David Raya (Arsenal), Jordi Alba (Inter Miami) e Gerard Martín (Barcelona) são os melhores exemplos.Apostar em clubes de menor dimensão, com estruturas simples, sem a pressão do profissionalismo, baixo custo de aquisição e com elevado potencial de valorização, tem levado muitos outros a entrar no grupo de jogadores-acionistas.Com apenas 27 anos e longe da idade da reforma, Kylian Mbappé escolheu ser coproprietário de um emblema da Normandia. Em julho de 2024, o capitão da seleção francesa e atacante do Real Madrid tornou-se sócio maioritário do SM Caen, pagando 15 milhões de euros para adquirir 80% do clube através do seu fundo de investimento, a Coalition Capital. O também Campeão do Mundo francês N’Golo Kanté (Fenerbahçe ) não se ficou pelo investimento e assumiu a propriedade total do Royal Excelsior Virton, da Bélgica, em julho de 2023. E já no ano passado, o senegalês Sadio Mané fez o mesmo ao oficializar a compra do Bourges Foot, da IV Divisão francesa, investindo assim parte do valor do contrato com o Al Nassr.Casemiro (Manchester United) seguiu um caminho diferente, entrando no capital do Marbella FC, clube inserido num grande projeto imobiliário e turístico na Costa do Sol espanhola. Também de olho nos milhões do futebol profissional, Luka Modric, Bola de Ouro em 2018 e atual jogador do AC Milan, se tornou, em abril de 2025, sócio minoritário no Swansea City do Championship, sendo consultor do emblema que aposta no regresso à Premier League.Já o motivo que levou Héctor Bellerín, que jogou no Sporting durante meia época, a tornar-se o segundo maior acionista individual do Forest Green Rovers, em 2020, foi a gestão focada na sustentabilidade e na defesa dos ideais ecológicos que o espanhol do Bétis defende..Gerard Piqué, um dos pioneirosUm dos casos mais bem-sucedidos é o de David Beckham, que ajudou a construir um clube do zero, nos EUA, o Inter Miami, e o transformou numa das mais valiosas franquias da MLS, capaz de seduzir Lionel Messi. Mas o fenómeno é centrado em clubes europeus, principalmente espanhóis e franceses.Em 2025, Ronaldo Nazário, conhecido por Fenómeno, tal a mais valia futebolística empregada nos relvados, vendeu as ações (51%) do Valladolid a um fundo de investimento norte-americano (Ignite) por 50 milhões de euros, quase o dobro do valor que pagou para as comprar cinco anos antes. O Bicampeão Mundial pelo Brasil (1994 e 2002) e um dos melhores avançados da história é o exemplo que todos gostariam de seguir, mostrando que o investimento tem retorno e gera lucro, apesar do sucesso relativo que o Valladolid teve, andando a subir a descer de divisão em Espanha.Já o espanhol Gerard Piqué é um dos pioneiros da geração de jogadores-acionistas. Ainda era jogador do Barcelona quando entrou no FC Andorra, através da Kosmos, uma holding criada em parceria com o milionário japonês Hiroshi Mikitani, dono da Rakuten. Com investimentos graduais, viu a equipa subir à II Liga espanhola em quatro anos. O projeto foi usado como plataforma de negócios de Piqué, que mais tarde se tornou influente na organização de eventos ligados ao desporto, tendo inclusive negociado a realização da Supertaça de Espanha na Arábia Saudita - um caso que a Justiça espanhola ainda investiga.Por sua vez, Zlatan Ibrahimovic foi igual a si próprio quando, em 2019, decidiu entrar na estrutura acionista do Hammarby, atualmente em 6. º lugar da I Divisão sueca, e cortar a ligação emocional ao clube que o formou, o Malmö. Ser um dos donos do clube deu jeito a Zlatan, quando ainda era jogador do AC Milan - onde agora é conselheiro dos donos - e o futebol parou em Itália por causa da pandemia da covid-19, para poder continuar a treinar e manter a forma.No caso de Thierry Henry, ele juntou-se ao projeto Como 1907 motivado pela amizade com Cesc Fàbregas, que se tornou jogador e coproprietário, e depois treinador e coproprietário, do clube liderado pelos irmãos Michael e Robert Hartono. O clube estava na II Divisão italiana e subiu ao escalão principal, ao fim de 20 anos, com a ajuda de Cesc Fàbregas, ocupando agora um sólido 5.º lugar do Calcio. Resta saber o que acontecerá quando a equipa deixar de ter resultados, porque despedir um dos donos deve ser mais complicado do que demitir um técnico sem ligação financeira ao projeto. Para evitar conflitos de interesses e questões de natureza ética, a FIFA, segundo soube o DN. está a preparar legislação sobre a propriedade de clubes. As normas atuais não proibem um jogador ou treinador de ser dono de um clube ou de jogar contra a equipa onde investiu o seu dinheiro... ... E a lista não pára de crescer. Vinícius Jr. investiu no Alverca, Marcelo desistiu do Mafra A maioria da SAD do Alverca (64%) é detida pela estrela brasileira Vinícius Júnior desde fevereiro de 2025. A operação rondou os oito milhões de euros, mas aumentou para 10 milhões com a subida do clube à I Liga, após 21 anos afastado da elite. O jogador do Real Madrid já esteve nas bancadas do estádio do clube ribatejano, na 4.ª jornada da I Liga, para ver o jogo com o Benfica, tirou selfies com adeptos e promoveu o equipamento do Alverca, mas nunca admitiu ser o dono por razões estratégicas.Foi sempre Soares Raymundo Thassilo, empresário do futebolista internacional brasileiro, a dar a cara pelo grupo de investidores. No entanto, consultando os documentos de Transparência da Federação Portuguesa de Futebol, a SAD do FC Alverca é detida a 64% pela Universo Big 7, registada em Madrid e detida a 100% por uma pessoa singular. E, pelo registo da empresa, verifica-se que a empresa Universo Big 7 tem como administrador único a Papa Media House, detida por Vinícius José Paixão de Oliveira Júnior. Ou seja Vinícius Jr.O caso do Mafra, que está no 6.º lugar na fase de apuramento de campeão da Liga 3, é um exemplo de como nem sempre as coisas correm bem. O brasileiro Marcelo ainda era jogador do Real Madrid quando anunciou ter adquirido, em dezembro de 2021, o Clube Desportivo de Mafra, então na II Liga, através da sua holding, a Doze, mas o negócio - 7, 5 milhões de euros por 70% da SAD - não se concretizou.Por lei, em Portugal, para jogarem nas competições profissionais, os clubes têm de estar organizados como Sociedade Anónima Desportiva (SAD), na qual o clube tem de ter, pelo menos, 10% das ações, ou como Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas (SDUQ), em que a totalidade do capital tem de ser subscrita pelo clube. Por isso, quando Marcelo se interessou por investir, o Mafra teve de passar de SDUQ para SAD, o que aconteceu em janeiro de 2022. No entanto, o antigo internacional brasileiro desistiu da compra meses depois.Já Daniel Alves comprou 50% da SAD do São João de Ver, da Liga 3, em janeiro. A ideia era ser jogador-acionista, mas a inscrição não foi autorizada.Emanuel Calçada: “FIFA devia atuar com regras mais claras sobre a propriedade”Há alguma lei que proíba um jogador no ativo ser de dono de um clube? E existem limitações, como não poder atuar contra o seu próprio clube, por exemplo? Nos regulamentos FIFA, não existe proibição expressa e geral de um jogador no ativo ser dono de um clube. O problema jurídico surge quando essa posição gera influência sobre a independência do clube, conflitos de interesse ou interferência em matérias laborais, transferências e competição. Também não me parece que haja uma regra expressa que o impeça automaticamente de jogar contra o ‘seu’ clube. Ainda assim, esse cenário é altamente sensível do ponto de vista da integridade competitiva.A FIFA devia agir para evitar possíveis conflitos de interesse e salvaguardar a integridade das competições e do futebol em geral?Penso que a FIFA devia atuar com regras mais claras sobre propriedade, controlo e participações societárias de jogadores no ativo em clubes de natureza profissional. Deveria impor um disclosure obrigatório de interesses, registo de beneficiários efetivos e incompatibilidades em decisões e jogos com risco de conflito. Além disso, devia reforçar mecanismos de prevenção, monitorização e investigação em matéria de integridade. Hoje já existem bases normativas, mas elas só abordam o problema de forma indireta.Com a profissionalização e o modelo de Sociedades Anónimas Desportivas (SAD), o futebol tornou-se um negócio atrativo também para os jogadores?Sim, com a profissionalização e o modelo das SAD o futebol tornou-se mais atrativo como investimento para jogadores no ativo e para quem está perto da reforma. Os regulamentos FIFA não rejeitam o investimento privado, mas exigem que ele não afete a independência dos clubes, nem a verdade desportiva. O investimento é mais facilmente compatível no caso de ex-jogadores do que no de jogadores ainda em atividade. Para estes últimos, o risco aumenta muito quando há controlo, influência ou cruzamento competitivo de clubes.isaura.almeida@dn.pt