No dia seguinte à vitória da Alemanha no Mundial de 2014, após triunfo na final sobre Argentina e goleada nas meias-finais por escandalosos 7-1 sobre o anfitrião Brasil, comentadores desportivos e económicos alemães e internacionais concordaram que a vitória no campo reproduzia a reputação do país na economia por aqueles dias: um modelo de ordem, organização e planeamento num mundo caótico. “É o início de um século de sucesso alemão”, titulava a Newsweek naquele julho de 2014. Doze anos depois, a mesma revista publica uma longa análise sob o título “o declínio alemão”, em que traça paralelo entre futebol e economia. Dias depois, o Financial Times fala na “crise gémea alemã no futebol e na economia: o país precisa de recuperar a seleção e a indústria nacionais”. “Em 2014, a Alemanha vivia uma fase de crescimento económico constante, com queda no desemprego e na dívida pública, e a sua posição económica e política parecia sólida, sustentada por um setor de exportação robusto, um mercado de trabalho forte e uma expertise industrial líder mundial”, afirmou Clemens Fuest, presidente do Instituto Ifo de Pesquisa Económica, sediado em Munique, à Newsweek. Politicamente, a Alemanha gozava de prestígio em Bruxelas e Washington e a sua líder à época, a chanceler Angela Merkel, era amplamente descrita como “mulher mais poderosa do mundo” e “líder da Europa” de facto.Nos três Mundiais seguintes, porém, a National Mannschaft caiu na fase de grupos em 2018 e 2022 e na fase de dezasseis avos de final, frente ao acessível Paraguai no passado dia 29 de junho, em Boston. E como Fuest afirma à Newsweek, “o declínio da seleção de futebol vem refletindo o declínio do desempenho económico e da coesão política na Alemanha”.Desde 2019, a economia alemã estagnou: o PIB está no mesmo patamar de há sete anos e o investimento privado recuou a números de 2015. E para 2026 as previsões da UE são de crescimento tímido de 0,6%.A invasão da Ucrânia pela Rússia, país do qual a Alemanha obtinha metade do gás natural e um terço do petróleo, prejudicou. A produção interna chinesa, ao substituir as importações alemãs em setores-chave, idem. E, de 2014 para cá, a mesma China e também os EUA ultrapassaram o país como principais fornecedores de equipamentos industriais da Europa. A produção de automóveis, considerada a espinha dorsal da prosperidade germânica, recuou de um pico de 5,65 milhões de carros em 2017 para uma previsão de 4,1 milhões em 2026, em parte por culpa da transição para veículos elétricos.Na política, a ascensão do partido de extrema-direita AfD colapsou a estabilidade que a alternância entre CDU/CSU (centro-direita, de Merkel) e o SPD (centro-esquerda) assegurava. Aos obstáculos económicos, às rupturas no setor industrial e à fragmentação política junta-se então um declínio da antes sempre fiável seleção que, nos 16 mundiais de 1954 e 2014, chegou, no mínimo, às meias-finais em 12 ocasiões. Antes do Mundial, a seleção alemã era, ainda assim, considerada a quinta mais valiosa do mundo, em valor de mercado, segundo o Transfermarkt. Mas acabou eliminada pelo Paraguai, apenas 30.º dessa tabela.Números3. Número de Mundiais consecutivos em que a Alemanha vem desiludindo: eliminada na fase de grupos em 2018 e 2022 e nos dezasseis avos este ano.4,1. Milhões de automóveis alemães produzidos este ano; em 2017 eram 5,6.30.ª. Posição, em valor de mercado, do Paraguai, carrasco alemão neste Mundial. A Mannschaft era a quinta mais valiosa.