Há miúdos que crescem a jogar à bola na rua. Rodrigo Barbosa cresceu a ouvir tiros. Não tiros de guerra, nem de violência, mas o som seco e ritual do chumbo a partir pratos no céu. Cresceu entre cartuchos, coletes de tiro, campos enlameados em manhãs frias e conversas de homens que medem o mundo em concentração, precisão e nervos de aço. Para ele, aquilo nunca foi estranho. Era casa.Quando fala da infância, Rodrigo não fala de brinquedos. Fala do pai, campeão do mundo e campeão da Europa, fala dos campos de tiro onde passava horas ainda demasiado novo para perceber que aquele ambiente intimidava quem vinha de fora. “Sempre estive habituado a vir para os campos de tiro”, conta. O gosto apareceu cedo, quase sem pedir licença. Primeiro por admiração, depois por vontade própria. “Foi um gosto que eu fui ganhando desde muito pequeno.”Há uma ideia feita sobre o tiro desportivo em Portugal: quem está de fora vê perigo antes de ver desporto. Rodrigo conhece esse preconceito e desmonta-o sem dramatismo. “As armas não são perigosas, perigosas são quem as usa.” Diz isto com uma serenidade desconcertante para alguém de 16 anos. Depois explica, quase pedagogicamente, que todos os atletas passam por exames médicos, regras de segurança apertadas e rotinas rigorosas. “No tiro desportivo, na minha opinião, é completamente impossível haver algum tipo de acidente.”.Mas antes dessa consciência, antes das seleções nacionais, das Taças do Mundo e dos Europeus, houve um adolescente a experimentar modalidades. Começou pelo fosso universal e pelas hélices, modalidades mais acessíveis e populares dentro do universo do tiro. “É uma modalidade para começar”, explica. “Mais acessível e fazemos melhores resultados.”O fosso olímpico apareceu depois, muito por influência de Custódio Ezequiel, selecionador nacional e uma das figuras maiores do tiro português. Rodrigo fala dele com respeito absoluto. Não apenas pelo currículo, mas pela proximidade humana. “Para além de selecionador, é nosso amigo e uma referência para nós.”Foi Custódio quem o foi “puxando” para o fosso olímpico. Rodrigo resistiu algum tempo, até aceitar participar num estágio de juniores, em Famalicão. Tinha 14 anos. Chegou, competiu e ganhou. Conta isso sem arrogância, quase como quem ainda não percebe bem a dimensão do momento. “Ganhei o estágio e pronto… ganhei um bocadinho de vício.”O vício transformou-se rapidamente em rotina de alto rendimento. No mês seguinte participou num apuramento para uma Taça do Mundo em Marrocos. Voltou a ganhar. Voltou a surpreender. E começou aí uma vida feita de aeroportos, campos de tiro internacionais, viagens longas e a sensação permanente de representar Portugal além-fronteiras.“Foi muito também pelo gosto de representar o nosso país.”Enquanto muitos adolescentes vivem presos ao telemovel, Rodrigo vive entre treinos, competições e calendários internacionais. A naturalidade com que enumera provas impressiona: Campeonato da Europa em Itália, Taça do Mundo na Alemanha, Campeonato do Mundo em Braga, Europeu de fosso olímpico na Grécia. Parece o discurso de um atleta veterano, mas vem de um rapaz que ainda está no secundário..E talvez seja aí que a história ganha outra dimensão.Porque Rodrigo não encaixa no cliché do jovem atleta que sacrifica tudo pelo desporto. Pelo contrário. Fala dos estudos quase com mais exigência do que fala das medalhas. “Os estudos são ainda a parte mais importante.” Frequenta Ciências e Tecnologias e garante, entre sorrisos, que as notas são “de 19 e 20”.Não sabe exatamente se o futuro passará exclusivamente pelo tiro. Sabe apenas que quer manter todas as portas abertas. Quer estudar Economia na Universidade do Porto. E depois quer voar. Literalmente.“Tenho um sonho desde muito pequenino, que é ser piloto de aviões.”Talvez seja essa mistura improvável que o torna diferente: o rapaz que dispara sobre pratos a alta velocidade, mas fala de aviões como quem olha para o horizonte. Não existe nele aquela agressividade competitiva que muitas vezes se associa aos desportos de precisão. Existe antes um raciocínio frio, quase matemático. Uma maturidade rara.Quando fala dos Jogos Olímpicos, por exemplo, não fala em medalhas de ouro. Nem em glória. Nem em fama. “Estar no topo, onde estão os vinte e poucos melhores do mundo.”É aí que quer chegar. Mesmo sabendo que o caminho ainda é longo. No fosso olímpico, os juniores não disputam vagas olímpicas. Para chegar aos Jogos, Rodrigo terá de competir entre homens (categoria para maiores de 21 anos) , integrar a seleção principal e conquistar espaço entre atletas mais experientes. Ainda assim, acredita que o sistema acabará por mudar. “Já temos juniores a fazer médias mais altas do que os homens.” Não há revolta nas palavras dele. Apenas convicção.A verdade é que Rodrigo já começou a entrar nesse território onde deixam de existir “promessas” e começam a existir atletas capazes de discutir resultados internacionais. Em 2025 terminou em sétimo lugar numa Taça do Mundo na Alemanha, ficando a um prato de entrar na final dos seis melhores. Um detalhe mínimo separou-o da elite absoluta. No entanto, fala desse resultado quase como uma etapa natural. Sem dramatizar a proximidade da glória. Sem transformar a frustração em discurso épico. “Pode ser sempre uma frustração não atingir o resultado que nós sonhamos. Mas ao fim de chegar lá a primeira vez, acredito que seja mais fácil chegar depois.”É talvez essa lucidez que impressiona mais do que os títulos.Porque títulos já são muitos. Campeão nacional de fosso olímpico. Campeão nacional de hélices. Vice-campeão europeu de hélices. Campeão europeu de trap universal. Quarto lugar num Campeonato do Mundo. Resultados que muitos atletas perseguem durante décadas.Ele tem 16 anos. E continua a falar como quem ainda está só a aprender.No Clube Caçadores de Braga, onde treina e compete, já não é apenas “o miúdo”. É o rapaz que começou cedo demais a habituar-se a ganhar. Mas também o rapaz que continua a tratar o tiro como paixão antes de o tratar como carreira. “Até hoje nunca deixei de atirar hélices e fosso universal.” Como se tivesse medo de esquecer as origens.