Chega de saudade. Palmeiras de Abel e Santos lutam pelo trono sul-americano

Decide-se hoje no Maracanã a competição que consagra o campeão sul-americano. Uma rivalidade nascida nos tempos de Pelé e Ademir da Guia e que volta a ter um protagonista português.

Um palco majestoso e lendário (mas vazio), 191 países a ver na televisão (20.00 na Sport TV2, em Portugal), um prémio de 15 milhões de dólares (cerca de 12,4 milhões de euros), o troféu mais apetecido pelas equipas da América do Sul e um bilhete para o próximo Mundial de Clubes, que se realiza em fevereiro. São estes os ingredientes da segunda final da Taça Libertadores disputada apenas a uma mão (a primeira foi conquistada por Jorge Jesus em 2019 e pelo seu Flamengo), que se realiza hoje no Rio de Janeiro entre duas históricas formações do estado de São Paulo, Palmeiras e Santos.

Abel Ferreira vai jogar a sua primeira grande final da carreira - ainda terá pelo menos mais uma (Copa do Brasil, frente ao Grémio), mas poderá ter uma segunda caso hoje conquiste o troféu diante do Santos e participe no Mundial de Clubes -, ele que como técnico apenas conquistou um título de juniores no Sporting.

"É uma oportunidade que temos. Trabalhamos toda a nossa vida para chegar ao futebol de mais alto nível. Não vamos alterar processos, vamos manter a nossa identidade, a nossa forma de ser e estar dentro do grupo. O que vou dizer aos jogadores é que desfrutem do momento, que vivam esse momento com grande intensidade, que façam aquilo que sabem fazer, que é jogar futebol de alto nível. É um grande desafio. Prefiro ter toda essa tensão do que estar em casa a ver o jogo sentado. Este era nosso sonho", disse Abel.

Será a quinta decisão para ambos na competição (os alvinegros venceram três e o Verdão uma), mas a primeira grande final para o técnico português Abel Ferreira. Do outro lado, o experiente Alexi Stival, mais conhecido por Cuca, vai tentar conquistar uma competição que já venceu em 2013, então ao serviço do Atlético Mineiro, numa caminhada iniciada por Jesualdo Ferreira - entre os finalistas temos assim um clube que começou com dedo português e está agora em mãos brasileiras, e outro que fez o caminho inverso, depois de Vanderlei Luxemburgo ter sido despedido, apesar da vitória no Paulistão, para dar o lugar a Abel.

Com um longo historial de confrontos, os dois conjuntos paulistas partilham uma enorme rivalidade. Talvez por isso, os jogos entre ambos, e já foram muitos durante a história (330, com 138 vitórias e 561 golos do Palmeiras, 105 triunfos e 474 golos do Santos, além de 87 empates), até tenham ganho um nome simpático: o Clássico da Saudade. Tudo porque os principais duelos se disputaram nos anos 1950 e 1960, altura em que as duas equipas dominavam o futebol do estado.

E, também, graças aos míticos confrontos entre Pelé e Ademir da Guia, uma vez que o Palmeiras era das poucas equipas brasileiras que davam luta à extraordinária equipa da Vila Belmiro.

Desse tempo, quando venceram duas Libertadores, Pepe (que já passou como treinador pelo Boavista, entre 1987 e 1989), Lima e Mengálvio vão estar hoje presentes no Maracanã, a convite do novo presidente do clube, Andrés Rueda. O mesmo não se vai passar com Pelé, que está algo debilitado a nível de saúde e ficará em casa, mas será representado por uma filha e um neto, o que não o impediu de deixar uma mensagem de apoio à equipa: "Estarei aqui tremendo. Eu queria estar lá dentro, ajudando o Santos, mas tudo tem o seu tempo. Vamos ficar torcendo para que o Santos nos traga mais esta vitória. Vamos juntos!"
Picardias em 2015

Se esses tempos foram os de maior rivalidade entre os finalistas, a verdade é que a animosidade se reacendeu em 2015, ano em que ambos disputaram duas finais. No Paulistão, levou a melhor o Santos, graças à maior eficácia no desempate por penáltis, com a curiosidade de o remate decisivo ter sido de Lucas Lima. O médio até tatuou o lance numa perna, mas hoje vai estar a defender o Palmeiras.

Ainda nesse ano, um dos confrontos no Brasileirão acabou por ficar marcado pela provocação de Ricardo Oliveira, que após marcar um golo fez uma expressão facial que não caiu bem entre os jogadores do Verdão, sobretudo no guarda-redes Fernando Prass (que jogara três épocas na U. Leiria). Os dois jogadores mantiveram um conflito durante todos os confrontos da época, que acabaria com o último a rir-se no fim. Na segunda final da época, para a Copa do Brasil, o Palmeiras ganharia (também no desempate por penáltis), e no fim do jogo a foto para a posteridade foi feita com toda a equipa a imitar a "careta" do avançado do peixe. Kelvin (sim, "aquele" Kelvin do FC Porto), foi mesmo dos mais efusivos, passeando-se no relvado com uma foto de Ricardo Oliveira...

Mas, como diz a canção escrita pelos cariocas Vinicius de Moraes (adepto do Botafogo) e Tom Jobim (torcedor do Fluminense), hoje chega de saudade. O prémio maior do presente vai estar em jogo e quem perder a taça só poderá cantar "a realidade é que sem ela/ Não há paz, não há beleza, é só/ Tristeza e a melancolia". É hora de enterrar o passado e olhar para o futuro.

Quarta final fratricida

Desde que a Taça Libertadores deu o pontapé de saída, em 1960, esta será a quarta vez que o jogo mais importante terá dois intervenientes do mesmo país. A estreia foi em 2005, quando o São Paulo levou a melhor sobre o Athlético Paranaense (1-1; 4-0), mas a situação repetiu-se no ano seguinte, com o campeão em título a tornar-se finalista vencido perante os gaúchos do Internacional de Porto Alegre (2-1; 2-2).

Há dois anos, foi a vez de a Argentina (que domina a competição com 25 vitórias, contra 21 brasileiras, já incluindo a de hoje) assistir a um dérbi local entre os grandes rivais Boca Juniors e River Plate na última decisão a duas mãos - e assistir é uma forma de expressão, uma vez que o segundo encontro teve de ser disputado em Madrid, devido à violência que antecedeu a partida original. No Santiago Bernabéu, e depois de 2-2 na Bombonera, o River acabaria por se superiorizar.

Este facto permite que a situação de hoje possa ser um pouco estranha para Cuca, técnico santista. O antigo avançado vestiu as duas camisolas durante a carreira de jogador e, apesar de estar na sua terceira passagem pelo banco da Vila Belmiro, também treinou o adversário de hoje em duas ocasiões - numa delas sagrando-se campeão brasileiro (2016).

Talvez por isso, o treinador não quer assumir favoritismo para a final de hoje. "Acho meio a meio. Metade para lá e metade para cá. O Palmeiras fez mais pontos, teve quase 80% de aproveitamento, e nós tivemos 75%. As equipas chegaram à final com merecimento", afirmou.

Apesar de confessar que não conhecia Abel, Cuca não deixou de elogiar o trabalho efetuado pelo seu rival português: "Vocês têm visto mais do que eu, está trabalhando muito bem, vivo em todas as competições em que o Palmeiras está e tem jogado bem. Tem usado bastante o plantel todo. O Palmeiras tem um grande plantel."

Peixe contra Porco ou a história de duas vinganças

Os dois finalistas da Libertadores têm alcunhas de animais e ambas surgiram como termo pejorativo. Mas com o passar dos anos, e alguma visão de marketing, foram adotadas pelos próprios adeptos. A do Santos é fácil de explicar: a cidade está junto ao mar, e sempre que a equipa se deslocava para jogar na capital estadual, os adeptos eram chamados de "peixeiros" e "peixes podres". Até que num confronto na Vila Belmiro, em 1933, os torcedores responderam aos gritos adversários cantando "somos peixeiros com muita honra". Mais tarde, para dar corpo ao peixe, escolheu-se a orca como símbolo do clube.

Já o Palmeiras, também conhecido por Verdão, só mais tarde se tornou no porco, embora durante a II Guerra Mundial, quando o Brasil se aliou aos EUA, as origens italianas do clube tenham levado a que os adeptos fossem insultados dessa forma. A situação agravou-se em 1969, quando o Palmeiras não permitiu que o Corinthians inscrevesse dois jogadores falecidos num acidente de viação. O presidente do Timão achou que o Palmeiras demonstrara um "espírito porco" e a coisa pegou: em todos os estádios ouviam-se gritos de "porco". Todavia, ao fim de 16 anos, o diretor de marketing teve uma ideia brilhante: assumir o "apelido". A ideia não foi facilmente aceite, mas acabou por vingar. Quando Jorginho, melhor jogador do clube, foi capa da revista Placar "embalando" um bácoro, o "tabu foi quebrado". Hoje, antes dos jogos, o periquito, que já era a mascote, surge ao lado de um porco feroz.

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