Jogava-se o Mundial 1982 quando um jovem de 12 anos, de seu nome Pedro Leitão de Brito (Bubista), despertou para a emoção do futebol de Zico, Platini, Maradona e Rossi através de uma televisão a preto e branco, a única que havia na ilha de Boavista, em Cabo Verde. O dono cobrava para deixar as pessoas assistir aos jogos, mas como ele não tinha dinheiro recorria a esquemas para “driblar” o homem que ficava à porta a controlar as entradas. “Foi nessa época que comecei a entender o que eu queria para a minha vida. A exemplo daqueles jogadores e treinadores, também queria chegar aos grandes palcos do futebol”, contou ao site Coaches Voice o selecionador de Cabo Verde, que hoje, 44 anos depois dessas memórias, enfrenta a campeã Argentina, nos 16-avos-de-final do Mundial 2026 (23h00).Natural da ilha de Boavista - dito de forma rápido pelos locais soa “Bubista” e daí a alcunha -, tornou-se jogador profissional em 1995/96 a jogar pelos espanhóis do Badajoz e representou ainda os cabo-verdianos Falcões do Norte, os angolanos do ASA e os portugueses do Estoril. Jogava a médio e chegou à seleção em 1990, tendo sido capitão dos Tubarões Azuis . Depois de terminar a carreira tornou-se auxiliar técnico na seleção (2007-2013 e 2016-17). Foi aí, nessa função de adjunto, que, segundo ele, se forjou o treinador que é hoje. Campeão da liga cabo-verdiana em 2013, pelo Mindelenses, Bubista assumiu o cargo de técnico principal em janeiro de 2020 e em 2023, e logo colocou em ação o “Bubismo”. O estilo do técnico alia organização defensiva e coragem ofensiva, tudo isto com constantes acelerações, capacidade na reação à perda e... muita alegria. Foi assim que o selecionador cabo-verdiano (56 anos) ganhou o grupo e uniu um país descrente e sem tempo para se iludir com a seleção.Na qualificação para o Mundial, os Tubarões Azuis calharam no grupo dos Camarões - seleção africana com mais participações em Mundiais (8) -, Angola, Líbia, Ilhas Maurício e Essuatíni. “Na estreia disse aos jogadores: ‘Quero que tenham coragem.’ Essa foi a principal mensagem. O primeiro passo da nossa conquista foi confiar verdadeiramente no nosso potencial. Mudámos a mentalidade dos jogadores”, contou o selecionador, recordando que o 0-0 frente a Angola foi o menos importante. E foram todos para a rua falar com os adeptosA semente da crença estava lançada e nem a pesada derrota (4-1) nos Camarões iria abalar a confiança. Somaram cinco vitórias, incluindo frente aos Camarões (1-0), e a decisão ficou para o duelo com Essuatíni. Na véspera da partida, Bubista decidiu levar os jogadores às ruas de Praia, para terem contacto com a população e ouvirem deles o que significava aquele jogo. Foi melhor que a melhor palestra que poderia dar. Venceram 3-0, apuraram-se para o primeiro Mundial da história e Bubista chorou por “todas as decisões em silêncio e tantas noites longe da família”. “Tinha tudo valido a pena.”Com a alma, humildade e coragem que bem retratam o País, Cabo Verde e Bubista chegaram ao Mundial na 69.ª posição do ranking da FIFA e muita vontade de se darem a conhecer ao Mundo. Tal como na qualificação, caiu num grupo complicado, com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita. Sem a pressão do resultado, a seleção deu uma masterclass do Bubismo frente à campeã da Europa Espanha e empatou (0-0). Esse jogo era especial para o treinador que sempre admirou a elegância do espanhol Vicente Del Bosque e a forma de liderar um grupo, “com honestidade e habilidade para tirar o melhor de cada indivíduo em benefício da equipa”. Ele tem feito o mesmo e já utilizou 21 dos 26 jogadores chamados. Seguiu-se o Uruguai de Marcelo Bielsa, alguém que lhe ensinou que “o futebol precisa de um pouco de loucura e fair play” e a quem ele retribuiu os ensinamentos, com mais um louco empate (2-2) que deixou Cabo Verde com o apuramento à vista diante da Arábia Saudita. Outro empate a zero com os sauditas confirmou o acesso à fase a eliminar e cumpriu o desejo do técnico: “Ter a sorte de encontrar a Argentina e o Messi.”E assim será. O jogo frente à Campeã Mundial é hoje, às 23h00. Terá o selecionador encontrado a fórmula mágica para travar o endiabrado Messi, que já leva seis golos no Mundial? Os cabo-verdianos, esses, esperam que sim e que a sorte continue a proteger os audazes... como Bubista.isaura.almeida@dn.pt.Seleção de Cabo Verde encanta e já sonha com um segundo milagre no Atlântico.Vozinha garante empate histórico de Cabo Verde frente à campeã europeia Espanha (com vídeos)