Das pastagens dos Açores para o seu supermercado. Nova Açores lança novo leite

Valorizar a produção de leite açoriana, posicionando o produto num valor mais elevado, com impacto nos produtores, é o objetivo da nova gama.
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Todos os dias pelas seis da manhã Aniceto Resendes vai buscar as vacas à pastagem da quinta de Milhafres, na ilha de São Miguel, para a ordenha. O ritual repete-se novamente por volta das 18h. Há 38 anos que esta é a rotina do produtor de leite açoriano, com 61 anos.

Uma atividade que passou de pai para filho. Foi o seu pai que comprou os 17 hectares de terreno e é com os filhos que Aniceto Resendes se dedica à produção de leite. Diariamente, as 90 vacas em produção entregam cerca de 2400 litros de leite, refrigerado na vacaria e depois encaminhado para a fábrica da Unileite, a poucos quilómetros em Arribanas-Arrifes.

A Quinta de Milhafres de Aniceto Resendes é uma das 136 explorações, de um total de cerca de 680, da Unileite - União das Cooperativas Agrícolas de Lacticínios da Ilha de São Miguel com certificação de leite de pastagem, o mais recente produto que a união de cooperativas açoriana vai colocar à venda nos supermercados sob a marca Nova Açores. Leite Biológico e "dentro de seis meses" leite enriquecido com iodo são outras das apostas.

Foram dois anos para lançar, em parceria com a APCER - Associação Portuguesa de Certificação, o novo leite de pastagem e que exigiu do lado dos produtores e união de cooperativas um esforço para a adaptar a produção e sistema de recolha e armazenamento às exigências de certificação do leite de pastagem.

No caso de Aniceto Resendes foi simples. "Tinha praticamente tudo dentro dos parâmetros, exigiu apenas uns ajustes de pormenor", conta. A vacaria tinha abastecimento de água, eletricidade (podendo garantir a refrigeração do leite) e ordenha mecanizada, alguns dos requisitos mínimos, a juntar a ida diária às pastagens dos animais, para obter o selo de certificação.

Nem todos os produtores da Unileite têm as mesmas condições, mas o objetivo é garantir que todos os associados possam vir a receber a certificação de leite de pastagem, adianta Pedro Tavares, presidente do Conselho de Administração da Unileite, sem adiantar uma data para que essa meta seja atingida. Até lá continuarão a fornecer a fábrica com a produção de leite UHT, bem como manteiga e queijo.

O ano passado a Unileite produziu 200 milhões de litros, o que representa 48% da produção de leite de São Miguel, 32% da produção de leite dos Açores e 11% da produção nacional. Neste momento, apenas 27% do leite produzido pela união de cooperativas é leite de pastagem, mas no futuro o objetivo é que todo o leite tenha esta certificação. Mas não só. "Numa fase seguinte a certificação vai abranger toda a carteira de produtos", diz Pedro Tavares. Ou seja, depois do leite, querem "em breve" estender a certificação de pastagem à manteiga.

"Nos últimos quatro anos" a união de cooperativas realizou um investimento de 14 milhões de euros em equipamento, sendo que no caso do leite de pastagem foi feito um investimento de cerca de 1 milhão de euros em tanques de recolha e armazenamento de refrigeração, adianta o responsável.

Tarifas Trump com impacto

Em 2018, os 200 milhões de litros de leite (um crescimento de 6%) gerou 80 milhões de euros de volume de negócios, valor que se deverá manter este ano tanto ao nível de volume de leite produzido como de faturação. Oitenta por cento desse volume é encaminhado para o exterior, 80% fica no Continente, com o restante a seguir para exportação para países como China, Angola, Canadá ou os EUA.

O ano passado exportaram 217 toneladas de queijo da Ilha para os EUA, mas a exportação para este território tem sido impactada pelas tarifas impostas pela Administração Trump, que saltaram de à volta de 15% para 40%.

"Deixamos de ser competitivos com outros produtores. Tivemos dois contentores para os EUA que foram cancelados, um total de 18 toneladas", refere Pedro Tavares. Canadá é um mercado onde estão a apostar para contrariar quebra do mercado norte-americano.

Pastagem para valorizar leite

Irlanda e Nova Zelândia são dois dos países que também produzem leite de pastagem. Nos Açores, a Unileite é, depois do Terra Nostra (do grupo Bel Fromageries), a segunda a apostar nesta oferta que visa valorizar as práticas de produção local de leite e com isso levar a uma valorização de preço pago ao produtor.

"Ao preço que o leite está ninguém está a juntar dinheiro no banco", lamenta Aniceto Resendes. Desde que acabaram as quotas leiteiras, "recebo menos 10 cêntimos do que recebia, mas com as mesmas despesas". Hoje recebe entre 29 a 30 cêntimos por litro de leite, adianta.

"Mas este produtor está no topo, tem uma vacaria com eletricidade, sala de ordenha mecanizada. Em média pagamos 28 cêntimos por litro de leite", comenta Pedro Tavares.

O leite de pastagem vai ser vendido 15% mais caro do que a linha UHT da Nova Açores. De que modo esse aumento se irá refletir no preço pago aos produtores?

"Não vou atirar números", diz Aniceto Resendes, mas não tem dúvidas: "quem quer bom paga".

Pedro Tavares não adianta valores. O valor pago ao produtor deste leite de pastagem terá de ser definido em assembleia geral da união de cooperativas.

Cadeias de distribuição

Um "produto de valor acrescentado" e "diferenciador no mercado", é como João Cunha, diretor-geral da LactAçores, classifica esta nova gama. O braço comercial da Unileite e das cooperativas Uniqueijo e CALF (que gere ainda a cooperativa Leite Montanha, da ilha do Pico), quer começar de "forma gradual" a introduzir nas cadeias de distribuição o leite de pastagem. "Mas a grande maioria optou também por manter o leite UHT da Nova Açores", diz.

Estão presentes em cadeias como Sonae, Pingo Doce ou Dia, mas João Cunha não adianta um valor de quota de mercado para esta nova oferta, onde vai concorrer nas prateleiras com a Terra Nostra, mas o objetivo é "continuar a manter os níveis de crescimento".

"No primeiro trimestre tivemos um dos maiores crescimentos de quota de mercado: 37%, para uma quota de 6,2%", adianta o responsável, citando dados da Nielsen.

Leite, queijo e manteigas produzidos na fábrica da Unileite. Na unidade é produzida as várias referências da marca Nova Açores (do leite UHT, com chocolate e agora Pastagem, mas também manteiga com sal e meio sal; e queijos do flamengo ao da ilha com várias curas), mas também marca própria para as cadeias Sonae (com a gama Açores) e Dia, que representa cerca de 30% da produção.

O foco da atividade (70%) é, contudo, na produção da marca Nova Açores. Com mais de 200 pessoas a trabalhar na fábrica, a unidade tem quatro linhas de enchimento de litro de leite e duas linhas para 200 ml, produzindo 2 milhões de litros de leite por dia, somando no fim do ano 100 milhões de litros de leite.

Um terço do leite UHT que chega à fábrica é, no entanto, encaminhado para a produção queijo, onde as três cubas existentes tem cada uma capacidade para 1400 toneladas de queijo. Um quilo de queijo da ilha exige 11,5 litros para a sua produção. A unidade tem ainda cinco tanques de salmoura para a produção do queijo e zonas de repouso. "O próximo investimento deverá ser feito em aumentar a capacidade de armazenamento do queijo para fazermos o queijo da Ilha", adianta Marco Marchado, diretor fabril da Unileite. Uma aposta que estima poderá implicar um investimento na ordem de 1,5 milhões de euros.

O queijo teve um aumento de produção de cerca de 21% este ano, estimando Pedro Tavares que possa vir a registar para o próximo ano uma subida entre 15% a 20%.

Por dia a unidade produz ainda 8 a 9 toneladas de manteiga pasteurizada por dia (em cuvetes, papel de alumínio e unidoses) estando a cadeia da trabalhar para uma marca de distribuição num produto com uma redução de sal (de 1.8 para 1.4 g de sal).

Toda a produção é acondicionada num armazém totalmente automatizado, com capacidade para 6,5 milhões de embalagens, até serem expedidos em contentores para fora da ilha. Na época alta (fevereiro-junho) saem diariamente entre as 8h e as 17h cerca de 85 a 90 contentores rumo às prateleiras dos supermercados.

*a jornalista viajou a convite da Unileite/LactAçores

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