A secção Cannes Classics continua a ser uma montra muito especial de memórias cinéfilas. Como Thierry Frémaux, delegado geral do festival, tem sublinhado nas suas apresentações, esta é também uma maneira, de uma só vez festiva e pedagógica, de dar a conhecer às novas gerações títulos marcantes, mais ou menos “antigos”, historicamente incontornáveis. As cópias restauradas que têm sido apresentadas ilustram também a necessidade de “devolver” os filmes às suas qualidades originais — e, desde logo, como é óbvio, em termos fotográficos.Frédéric Bonnaud, diretor da Cinemateca Francesa, sublinhou isso mesmo ao apresentar o restauro de The Stranger/O Estrangeiro (1947), de Orson Welles, lembrando com ironia que o filme circulou nas últimas décadas em cópias mais ou menos “cinzentas” — agora, finalmente, podemos revê-lo com os requintados contrastes a preto e branco da direção fotográfica de Russell Metty, afinal reveladores das influências expressionistas que Welles integrou no seu trabalho.O mesmo se dirá da nova cópia de L’Innocente/O Intruso (1976), fotografado por Pasqualino De Santis, derradeira realização de Luchino Visconti — o filme passou em maio de 1976 no Festival de Cannes, mas Visconti já não acompanhou o seu lançamento, tendo falecido a 17 de março desse ano, contava 69 anos. Baseado no romance de Gabriele D'Annunzio, publicado em 1892, nele encontramos o retrato trágico de um triângulo amoroso (Giancarlo Giannini, Laura Antonelli e Jennifer O’Neill) em que a arrogância masculina e a vulnerabilidade feminina decorrem tanto de um contexto social muito preciso como de uma transcendência simbólica a que, obviamente, Visconti não era indiferente. Fica um voto: o de que estes filmes possam reaparecer nas salas portuguesas..Festival de Cannes recorda John Lennon.Cannes. Um festival de muitas histórias paralelas