Existe alguma verdade histórica no mito de Rómulo e Remo como fundadores de Roma?Não existe uma verdade histórica literal nessa história. Um pequeno povoado surgiu no Monte Palatino no século VIII a.C., mas certamente não foi fundado por esta criatura mítica chamada Rómulo. A lenda de Rómulo foi registada por escrito apenas no final do século III a.C. Rómulo recebeu o seu nome da cidade de Roma, e não o contrário.O período monárquico em Roma foi tão mau ao ponto de explicar o entusiasmo pela República durante séculos?O período monárquico provavelmente não foi assim tão mau, exceto nos seus últimos anos, sob Tarquínio, o Soberbo, que se tornou muito tirânico após tomar o poder num golpe sangrento.A expressão “Império Romano” pode ser utilizada mesmo quando Roma era uma República e conquistou, por exemplo, a Península Ibérica?Sim, Roma tornou-se um império no século II a.C., depois de conquistar muitos territórios ultramarinos, como a Península Ibérica, o Norte de África, a Grécia e partes da Ásia Menor. Tratava-se de uma vasta coleção multiétnica de terras conquistadas, governada por um poder central - a definição literal de um império.Estaria Aníbal, o Cartaginês, apesar da invasão bem- -sucedida da Península Itálica, realmente prestes a derrotar Roma, ainda antes do apogeu desta? Apesar do seu génio militar, Aníbal teria dificuldades em capturar Roma devido às defesas maciças da cidade, nomeadamente a Muralha Serviana, e à falta de equipamento de cerco. Além disso, a maioria dos aliados de Roma na península mantinham-se leais, o que significava que os romanos podiam continuar a recrutar novas legiões. Mesmo depois de perder mais de 100.000 homens em três anos, Roma simplesmente formou mais Exércitos. Aníbal, a 1600 quilómetros de casa, não podia facilmente repor as suas perdas.Por que razão Júlio César, que nunca foi imperador, é tão central na História de Roma?Quando César “atravessou o Rubicão”, em 49 a.C., iniciou uma guerra civil que pôs, efetivamente, fim ao sistema de freios e contrapesos da República. De seguida, ao autoproclamar-se Dictator Perpetuo (Ditador Vitalício), provou que o antigo governo liderado pelo Senado já não conseguia controlar um indivíduo poderoso com um Exército. Os historiadores ainda debatem se César destruiu a República ou se simplesmente enterrou um sistema que já estava morto. Independentemente disso, o seu assassinato em 44 a.C. não salvou a República, como os seus assassinos esperavam. Apenas desencadeou mais guerras civis que culminaram na monarquia totalitária que tinha idealizado..Augusto, o primeiro imperador romano, pode ser considerado um bom imperador, apesar da má reputação de vários dos seus sucessores na primeira dinastia?Se Augusto foi um “bom” imperador depende inteiramente da perspetiva de cada um. Aos olhos de um cidadão romano que vivia em 10 d.C., era provavelmente visto como um salvador que trazia paz e estabilidade. Para um senador romano que valorizava a liberdade política, poderia ter sido visto como um tirano de sangue frio. No entanto, os historiadores consideram-no geralmente o governante mais eficaz da História romana, mesmo que discordem sobre a sua moralidade. Inaugurou a Pax Romana, um período de 200 anos de relativa estabilidade. Por outro lado, era um mestre da manipulação política e, por vezes, da violência extrema.Qual foi o segredo do sucesso dos Cinco Bons Imperadores?O “segredo” do sucesso dos Cinco Bons Imperadores (Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio) foi um truque político notavelmente simples: com exceção de Marco Aurélio, não deram o cargo aos seus filhos. Durante quase um século (96-180 d.C.), o Império Romano foi governado por um sistema de sucessão adotiva. Como nenhum dos quatro primeiros imperadores teve filhos biológicos, foram obrigados a procurar o homem mais capaz e respeitado do Império e a “adotá-lo” como seu herdeiro. O mérito, portanto, era muito mais importante do que a linhagem sanguínea. O sistema só colapsou quando Marco Aurélio foi sucedido por Cómodo.Ao aceitar o cristianismo, Constantino alterou definitivamente a identidade romana?Constantino mudou de facto a identidade romana, mas foi uma transformação, não uma substituição total. Quando morreu, em 337 d.C., ser “romano” e ser “cristão” já tinham começado a fundir-se numa única identidade que definiria a Europa e o Médio Oriente durante os mil anos seguintes. Ironicamente, aceitar o cristianismo pode ter salvado a identidade “romana”. Com o colapso do Império Romano do Ocidente sob as invasões bárbaras no século V, a única coisa que restava era a Igreja. Como Constantino alinhou o cristianismo às estruturas estatais romanas, as tribos germânicas invasoras não destruíram a cultura romana - adotaram a religião romana. O bispo de Roma (o papa) acabou por preencher o vazio de poder deixado pelos imperadores, preservando o latim, o Direito Romano e os estilos administrativos romanos dentro da Igreja.O triunfo final das tribos germânicas sobre Roma no século V era previsível desde a Batalha de Teutoburgo, sob Augusto?Não, não era previsível. Embora a Batalha da Floresta de Teutoburgo tenha sido um enorme choque psicológico, o Império Romano atingiu o seu auge absoluto durante 200 anos após essa batalha. No entanto, Teutoburgo preparou o terreno geográfico para o colapso 400 anos depois. Não tornou a queda inevitável, mas escolheu a “barreira” que acabaria por se romper. Antes de Teutoburgo, Augusto pretendia conquistar toda a Germânia até ao rio Elba. Se tivesse tido sucesso, a Alemanha moderna teria sido totalmente “romanizada” (tal como a França ou a Espanha). Após a derrota, porém, Augusto recuou até ao rio Reno. Criou-se assim uma divisão cultural e militar permanente. A oeste do Reno estava a Roma “civilizada”, enquanto a leste estava a Germânia “bárbara”. Ao não conquistar as tribos, Roma permitiu que estas permanecessem fora do seu sistema jurídico e cultural, onde podiam crescer, aprender as táticas romanas e, eventualmente, formar as enormes confederações que invadiriam no século V..A civilização romana sobreviveu em Constantinopla mais mil anos, no chamado Império Bizantino?A resposta é um rotundo sim. Os historiadores referem-se a isto como a Continuidade Romana. Embora hoje nos refiramos ao “Império Bizantino”, este é um rótulo inventado pelos estudiosos do século XVI. Para as pessoas que viveram em Constantinopla até à sua queda em 1453, eram simplesmente os romanos. E a civilização romana não “sobreviveu” apenas no Oriente: evoluiu, mantendo o coração do império a pulsar durante 977 anos após a deposição do último imperador do Ocidente.A Igreja Católica, com o bispo de Roma como papa, é uma espécie de herdeira de Roma?Em 1651, o escritor inglês Thomas Hobbes escreveu que o papado era “o fantasma do Império Romano sentado coroado sobre o seu túmulo”. Esta expressão capta uma verdade profunda: a Igreja não sobreviveu apenas ao Império - herdou a sua estrutura, a sua linguagem e o seu sentido de missão universal. Quando o Império Romano do Ocidente entrou em colapso no século V, a sofisticada burocracia romana desapareceu - exceto no seio da Igreja. Por exemplo, uma diocese era originalmente um distrito administrativo romano. A Igreja adotou este mesmo mapa para organizar o seu próprio território, estrutura que se mantém em vigor até aos dias de hoje. Da mesma forma, a Igreja preservou o latim como língua da erudição, do direito e da liturgia, assegurando que a “língua romana” se mantivesse a língua universal da Europa durante mil anos.Fala-se do fascínio dos Pais Fundadores dos Estados Unidos pela República Romana. Vê semelhanças entre os Estados Unidos, que mais tarde se tornariam uma superpotência, e a Roma Imperial?O fascínio dos Pais Fundadores americanos por Roma centrava-se quase inteiramente na República - os seus freios e contrapesos, o seu estilo de virtude cívica e a sua liderança estóica. Viam a Roma Imperial como um exemplo do que acontece quando uma república se deteriora a partir do seu interior. No entanto, à medida que os Estados Unidos passaram de um conjunto de colónias a uma superpotência global, os paralelos com o Império Romano (o período de expansão e domínio global) tornaram-se muito mais evidentes. Existem inúmeros paralelismos. A transição do poder do Senado para o poder do “Princeps” (Imperador) ocorreu porque o legislativo ficou paralisado e ineficaz. Os observadores modernos notam frequentemente o crescente poder do Poder Executivo dos EUA (a Presidência) em relação a um Congresso paralisado. Ou ainda, Roma acabou por sofrer com o “excesso imperial” - o custo de manutenção das Forças Armadas tornou-se superior à receita fiscal que estas geravam. Este é um tema recorrente no debate político americano em relação à dívida nacional e às despesas militares.Citando os Monty Python, o que é que os romanos fizeram por nós?Vivemos num mundo “romano”, só que com melhor tecnologia. Herdámos muitas coisas deles - não apenas as estradas e os banhos mencionados em A Vida de Brian, mas também em muitos casos a nossa língua (80 a 90% das palavras portuguesas, por exemplo, vêm do latim), o traçado urbano em forma de grelha, o calendário, os nomes dos meses e dos dias da semana em várias línguas, as estruturas governamentais, os nossos conceitos de direitos e de censo, e os nossos sistemas jurídicos - incluindo coisas como “inocente até prova em contrário”. Portanto, a grandeza de Roma pode ter desaparecido, mas Roma continua presente de muitas formas no nosso quotidiano.