Vic Echegoyen: "O terramoto de Lisboa antecipou a Revolução Francesa"

O terramoto de 1755 continua a impressionar autores e desta vez num relato inesperado com os acontecimentos descritos minuto a minuto durante as seis horas que se seguiram ao primeiro abalo. Uma narrativa que recupera importantes testemunhos de época e inéditos que permitem olhar a tragédia de forma mais íntima.

Nascida em Madrid, com ascendência húngara, a escritora Vic Echegoyen revisitou o grande terramoto que marcou a história da capital portuguesa nos últimos duzentos e sessenta e seis anos e que ainda assusta os portugueses pela hipótese científica de voltar a acontecer e "afetar toda a península ibérica". Em Ressurrecta - 1755. Lisboa Treme, além de estudar toda a documentação da época e posterior, a autora teve acesso em Viena a "fontes inéditas" e "nunca transcritas", como são as cartas do marquês de Pombal em que este descreve à família o que viveu na primeira pessoa naquele dia. A inspiração para este romance surgiu numa visita a Portugal por ocasião do seu 50º aniversário, mês durante o qual percorreu o país. Com a ideia em mente e sem fugir da estrutura a que se propunha, começou a escrever e ao fim de cem dias estava pronta a primeira versão. Enviou o rascunho ao seu agente, perguntando: "Deito para o lixo ou vale a pena continuar?". A resposta foi para seguir em frente.

Comecemos pela pergunta mais tradicional. Porque se lembrou de escrever sobre o terramoto de 1755?

Há duas razões: a primeira, uma recordação muito forte da infância, de quando tinha uns seis anos e passava férias na Isla Cristina (perto de Aiamonte), quando reparei como todos tinham presente os efeitos do terramoto de 1969, que não só fez tremer a terra como arrasou grande parte das edificações e matou muita gente. A segunda, o abalo não ficou na memória só enquanto era menina mas manteve-se enquanto adulta. Ao visitar Portugal, tudo voltou a estar presente. Quando, por exemplo, estava no Convento do Carmo e vi as ruínas do que teria sido uma obra maravilhosa, construída com tanto esforço e que foi abaixo em poucos minutos. É impossível não nos sentirmos insignificantes e vulneráveis naquele lugar. Fiquei emocionada e não pude evitar uma necessidade de falar do terramoto, bem como de quem estaria no edifício naquele dia, como viviam, como reagiram, e como podemos vivenciar os momentos de há 250 anos que nos continuam a marcar. Então, imaginei o que poderiam contar os personagens daquela tragédia e foi então que decidi dar a cada uma delas um minuto para contar a sua história. Era essa a forma como queria recordar o terramoto.

São muitos personagens que convoca para a sua narrativa. Foi fácil reuni-los?

Bastante fácil, porque são todos tão extraordinários cada um à sua maneira; uns pelo seu humor, outros pelo talento ou sofrimento. Lisboa era visitada por gente de todo o mundo e para ela convergiam pessoas ilustres e foi difícil deixá-los de fora: embaixadores, aristocratas, pobres, prostitutas, amas, até um macaco. Não resisti a tornar todos eles personagens numa Lisboa protagonista absoluta.

A ideia de dar um minuto a cada um durante as seis horas em que o livro se passa é o grande achado!

O livro começa quinze minutos antes de se dar a catástrofe, porque esta não necessita de apresentações. A partir daí, cada personagem descreve um momento, a sua reação, a forma de ver a vida, as influências culturais da época por parte dos habitantes e dos estrangeiros e, após seis horas, era o momento de parar. Preferi concentrar-me na essência e no mais importante. Aliás, o romance na versão espanhola está escrito sem nenhum adjetivo, de modo a focar-me numa crónica dos factos e do que aconteceu ser mostrado pela voz dos personagens. Eu não acrescento nada, apenas transcrevo.

Há muitos testemunhos de estrangeiros e também de portugueses. Quais eram os mais interessantes?

Todos eles. Cada um é uma peça indispensável do quebra-cabeças final porque cada um traz a sua própria visão. Tanto pode ser o religioso, o nobre, o popular, o poeta, aqueles que estavam no Terreiro do Paço e que observaram os acontecimentos e contaram o que viveram. Ao reunir todas estas visões imitava um caleidoscópio que ao ser rodado narram à sua maneira tudo o que cai à sua volta.

Tem um personagem preferido?

É difícil escolher qual o mais importante, pois cada um traz um contributo pessoal, mas se for obrigada a escolher optaria por Carlos Mardel. Estava cá há muitos anos ao serviço do rei e do exército e tinha uma perspetiva dupla: europeia iluminista e também já portuguesa. Não foi por acaso que o investiguei com mais atenção, até porque ele é meu compatriota pelo lado húngaro e assim tornou-se uma entre todas as personagens com que me confrontei por tudo aquilo que lhe permitiram construir no país.

"O pastor protestante achou - escreveu isso no seu relato - que o iam linchar. No final, deu-se conta que aqueles católicos fanáticos apenas o queriam tornar um deles e, se iam todos morrer, então que tivessem feito algo que agradasse a Deus nos seus últimos momentos."

A repercussão internacional do terramoto foi muito grande. Surpreendeu-a?

Não, porque estava-se num momento de inflexão entre o Antigo Regime e a Idade Moderna que estava a anunciar-se e foi como que um catalisador para essa nova era. É minha opinião de que o grande terramoto de Lisboa e toda a corrente de pensamento crítico iluminista que se verificou em seguida, até porque muitos dos testemunhos são de estrangeiros, proporcionou uma interpretação singular. Não foi um tremor que se verificou no vazio, foi interpretado face a outros eventos em curso por toda a Europa e daí ter tido uma grande repercussão. Penso que o terramoto de Lisboa antecipou a Revolução Francesa e que sem ele não teriam surgido certas correntes de pensamento que foram decisivas para as mudanças da história nessa época.

Não foi uma simples tragédia natural, também um terramoto ao nível do pensamento e destruidor de barreiras para o conhecimento da época?

Sim, designadamente o pensamento teocêntrico, centrado sobre a obediência aos desígnios divinos e resignado à vontade de Deus. Muitos perguntaram-se o porquê da tragédia, por que aconteceu isto? Quais as causas, principalmente porque houve sinais precursores na natureza que ninguém interpretou a tempo ou de forma correta. Podia-se ter antecipado parcialmente uma tragédia se se desse importância aos avisos e essa situação não poderia fazer-se através da Bíblia, mas da observação empírica que começava a destacar-se ao nível da ciência.

Sinais que recupera na narrativa.

Sim, mesmo que fosse difícil a sua interpretação à época. No último terramoto que tinha ocorrido duzentos e vinte anos antes, em 1531, a destruição fora em muito semelhante e também se tinham notado essas alterações, mas até então não se lhes dera importância como também no caso do de 1321; Só que em 1755, esses sinais foram recordados a posteriori. O embaixador de Hamburgo, Christian Stocqueler, referiu que tinha visto uma névoa diferente, muitos marinheiros observaram uma alteração no nível da maré, os pescadores repararam em peixes que subiram o Tejo fora do habitual, alguns poços ficaram sem água. Este último caso até chamou a atenção do marquês de Pombal, que questionou Mardel sobre a razão de poder acontecer num bairro mas estranho verificar-se em meia dúzia de outros locais diferentes da capital. Ele pediu para Mardel investigar porque achava que poderia ser grave e não fruto de uma coincidência.

O relógio que referiu de a cada 220 anos poder haver um grande terramoto em Lisboa parece estar avariado...

É verdade, apesar de ter havido um em 1969 menos grave. O que não significa ser impossível acontecer uma réplica tão violenta como o de 1755 no futuro. Essa questão deveria preocupar tanto os portugueses como os espanhóis, porque a pergunta não é se irá ocorrer mas quando. Estaremos preparados, não só tecnicamente, mas a nível de mentalidade. Agora há outros meios, helicópteros, jipes todo-o-terreno, ambulâncias, mas saberá a população como reagir face a um abalo como o anterior, em que houve uma reação instintiva de sair à rua e de salvar os vizinhos. Essa situação regressou à minha cabeça, porque se houve então uma empatia e um espírito de sacrifício e de heroicidade - isso está descrito na maioria dos testemunhos - isso poderá não se repetir. Foi o caso da condessa de Atouguia e das suas amigas que não fugiram de Lisboa, mas foram para o Rossio ajudar as vítimas. Isso foi extraordinário e uma lição. Teríamos uma reação igual hoje? Esta pergunta intriga-me, e acho que a resposta será sim, mas não sei.

Basta lembrar as imagens do tsunami na Tailândia e pensar no que poderá suceder na marginal entre Lisboa e Cascais...

Sim, porque não há estradas capazes de permitir uma evacuação das populações nem pontos elevados o suficiente para proteger tanta gente. Veja-se o caso de Setúbal, que é uma região plana, como uma ilha no Pacífico. As perdas humanas seriam incontáveis!

Todas as personagens são reais. Não foi preciso recorrer à ficção?

Não, mesmo que seja possível ficcionar uma história destas. Mas não o quis fazer, por que é tão forte que devo respeitar todos os descendentes e não é preciso acrescentar nada à realidade - a tragédia e os seus protagonistas são suficientes.

Houve situações radicais. Qual a impressionou mais?

Um dos meus episódios favoritos é a conversão à força do vigário protestante Richard Goddard. Ele estava na Baixa e um grupo de cidadãos em pânico ao reparar nele disse "temos de fazer qualquer coisa para aplacar este Deus furioso" e nada melhor encontraram do que converter um pastor protestante. O homem achou - escreveu isso no seu relato - que o iam linchar. No final, deu-se conta que aqueles católicos fanáticos apenas o queriam tornar um deles e, se iam todos morrer, então que tivessem feito algo que agradasse a Deus nos seus últimos momentos. Há uma outra história que considero como um modelo, a do general Manuel da Maia que está em casa e olha para a destruição do castelo de São Jorge, onde estava a Torre do Tombo, e sente que é o fim da obra de toda a sua vida. Então, ele, que tinha 80 anos, percorre a distância a pé, atravessou toda a Baixa em ruínas, subiu ao castelo e organizou os soldados que ali estavam de forma a salvar a memória da cidade e à qual tinha dedicado tanto tempo da sua vida. Ou a do tenente de 17 anos que defendeu o tesouro do reino a todo o custo. Esse tipo de situações espantaram-me, até porque hoje é raro vê-las.

As descrições de época são exageradas ou muito reais?

Pode-se usar aquela frase: "Se non è vero è ben trovato (Se não é verdade é bem inventado). Temos os testemunhos e creio que não mentem, podem omitir alguns detalhes por pudor ou por horror a contarem certas cenas, até acharem que tinha tido alucinações. Mas os relatos são tão homogéneos e encaixam-se como se fizessem parte de uma engrenagem, o que só quer dizer serem verídicos. Aliás, face à morte não se mente e neles há uma tentativa de descrever a verdade do que se viveu. Os testemunhos da época têm ainda uma ligação especial, pois um leva a outro e este a outro também e por aí em diante. Pode-se ler o que se está a passar numa rua de um bairro, depois há outro que narra o que aconteceu na rua seguinte, tornando-se num relato que encandeia os acontecimentos. Estão todos relacionados de alguma maneira.

Os historiadores portugueses aprofundaram o suficiente este acontecimento?

Sim, há sempre novas leituras da tragédia e de vários ângulos, como é o caso do Pequeno Livro do Grande Terramoto, de Rui Tavares, que foi uma revelação para mim devido ao seu humor e ternura nos pequenos detalhes que nos situam no grande contexto. Ou de Mary del Priore, O Mal Sobre a Terra, bem como outros estudos académicos que descrevem perfeitamente tudo o que aconteceu. Como a destruição da biblioteca do marquês de Louriçal, que foi uma espécie de repetição da destruição da Biblioteca de Alexandria.

Até que ponto os leitores ainda têm interesse nesta tragédia?

Acho que têm. Após a publicação do livro em Espanha é agora a vez da edição portuguesa e segue-se a italiana. O interesse deriva, pelo menos, de estas tragédias poderem acontecer a qualquer um, em qualquer lugar e em qualquer altura. Basta lembrar que a maioria das vítimas do tsunami na Tailândia foram turistas. Tragédias como estas interessam a todos os leitores, até por quererem saber como aconteceram e protegerem-se.

Vic Echegoyen

Editora Suma das Letras

519 páginas

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