Viagem aos continentes do cinema. A Ásia no feminino

Inês N. Lourenço percorre o continente asiático com a câmara apontada à realidade das mulheres.

Na próxima quinta-feira chega ao circuito português um filme com características pouco comerciais: é japonês, as protagonistas são quatro mulheres, e tem no total quase 5 horas e 20 minutos de duração (será exibido em partes). Chama-se Happy Hour: Hora Feliz, e o realizador é Ryusuke Hamaguchi. Vale a pena fixar. Estamos perante uma estreia que merece todas as atenções, desde logo pelo seu perfil raro de exibição, que desafia o espectador moderno a parar e partilhar o seu tempo com estas mulheres. Mas sobretudo porque é um magnífico exemplo de como o cinema oriental - em particular, o japonês - se esmera na representação do feminino.

De olhos postos neste acontecimento, e numa altura em que as mediáticas questões feministas continuam na ordem do dia, propomos um itinerário por dez filmes, entre clássicos e contemporâneos, com a câmara apontada à realidade das mulheres.

Charulata (1964), de Satyajit Ray

É uma das mais inefáveis obras de Satyajit Ray, e certamente um dos grandes filmes da cinematografia indiana. Adaptado de um conto de Rabindranath Tagore, Charulata fala-nos de uma mulher casada com um cosmopolita, responsável por um jornal político em Calcutá, nos finais do século XIX. Apesar da vida abastada, a consciência da solidão doméstica levará o marido a pedir a um primo, amante das letras, que faça companhia à esposa, incentivando a sua aptidão natural para a literatura. É então desta beleza da mulher que vive o amor através da poesia e da sensibilidade intelectual, que Ray nos quer falar, optando por enaltecer a postura feminina culturalmente emancipada, em vez de enveredar pela crítica de uma condição social subalterna. Num filme anterior, A Grande Cidade (1963), o cineasta já refletia sobre a aventura feminina no mundo do trabalho.

Esposas e Concubinas (1991), de Zhang Yimou

Viajamos até à China, para auscultar o drama de uma jovem de dezanove anos, que, depois da morte do pai e sem dinheiro para continuar os estudos, decide aceitar a proposta de casamento do chefe de um clã. Será a sua quarta esposa, e terá de conviver com as outras três sob os estritos rituais e tradições que regem a vasta residência da família. Neste Esposas e Concubinas, Zhang Yimou filma a rotina destas mulheres, e suas intrigas, como um verdadeiro cerimonial chinês: esse que está explícito no acender e apagar das lanternas vermelhas (que indicam com quem o "mestre" passa a noite). No amplo espaço dessa residência, que contém várias habitações e pátios, é a angústia feminina, cantada como uma ópera, que fica a ecoar entre os telhados cobertos de neve. Belíssimo e trágico filme.

A Senhora Oyu (1951), de Kenji Mizoguchi

Não podia faltar nesta lista um título de Kenji Mizoguchi, muitas vezes identificado como cineasta das mulheres e um dos nomes maiores do cinema japonês. A história de A Senhora Oyu é a de um comovente triângulo amoroso: uma jovem casa com o homem por quem a irmã viúva (Oyu) está apaixonada, apenas para que esta possa estar próxima dele, contornando os costumes rígidos da sociedade japonesa, que não lhe permitem voltar a casar antes de criar o filho pequeno. Quão admirável e tremendo é este sacrifício feminino? O retrato do amor proibido torna-se aqui uma elegia encantadora. Mizoguchi contrapõe a tradição ao desejo, e através de tal embate faz florescer o drama numa mise-en-scène avassaladora, entre a suavidade da Primavera e o tecido apertado das tradições.

A Criada (2016), de Park Chan-wook

Quando chegou no ano passado às nossas salas, já trazia aclamação da imprensa internacional. Este regresso do realizador de Oldboy - Velho Amigo é um delicioso jogo de travessuras narrativas, com invólucro de romance vitoriano. A história passa-se durante a ocupação japonesa da Coreia (década de 1930), e retrata a "aventura" de uma jovem empregada numa mansão onde se esconde um grande segredo. Ela foi enviada por um impostor que quer casar com a herdeira que vive nessa residência, para lhe roubar a herança, mas as contorções deste episódio levarão a outros muito pouco convencionais... Com sangue na guelra, Park Chan-wook ergue o filme através de uma voluptuosa arte de contar, em que as duas mulheres em cena - a senhora e a sua criada - protagonizam o êxtase feminino. Um conto de transgressão à coreana? Sim, com muito gosto.

Quando Uma Mulher Sobe as Escadas (1960), de Mikio Naruse

Este bonito título, que corresponde a um detalhe da narrativa, é um dos mais graciosos olhares sobre a mulher japonesa no pós-guerra em Tóquio. Mikio Naruse filma as atribulações íntimas de uma já não muito jovem (e viúva) anfitriã de bar, que se depara com as dificuldades de manter a sua independência numa sociedade controlada pelos homens. Com a modernização da vida noturna, esta mulher vai assistindo às mudanças que acontecem à sua volta, observando as colegas mais jovens que arriscam no negócio individual, ao mesmo tempo que considera também ela abrir o seu próprio bar. Nesse impasse da realidade social, Naruse aproveita para examinar a tessitura psicológica deste ser feminino que se esconde numa aparência de autocontrolo e serenidade. E o que fica mais presente é a firmeza dos seus passos: ela continua a subir as escadas íngremes, apesar de tudo.

O Círculo (2000), de Jafar Panahi

Não é Abbas Kiarostami, mas não deixa de ser um dos nomes incontornáveis da cinematografia do Irão. Em O Círculo, Jafar Panahi concretiza um filme-coreografia. Tudo começa numa mulher que é rejeitada depois de dar à luz uma menina, em vez de um filho varão. A câmara sai do hospital para a rua e fixa-se em três mulheres em fuga da prisão, que procuram dinheiro para ir mais longe. Só uma delas prossegue, mas sozinha será muito difícil porque no Irão, como a certa altura alguém diz, "a mulher não pode ir a lado nenhum sem ser acompanhada por um homem"... O círculo narrativo de Panahi continua, num registo a meio caminho entre o documentário e a ficção, mostrando a fatalidade de se nascer menina - e voltamos ao início -num país culturalmente cimentado na profunda desigualdade de género.

Lola (2009), de Brillante Mendoza

Um dos momentos mais poéticos deste filme acontece logo no princípio, quando uma senhora idosa, que leva pela mão o bisneto debaixo de vento e chuva forte, tenta acender uma vela no local onde o seu neto foi assassinado. Lola (que significa "avó") é a obra-prima do filipino Brillante Mendoza. Esta é a história de duas mulheres pobres e de idade avançada que fazem tudo pelos seus netos: uma endivida-se para lhe pagar um funeral digno; a outra, que é da parte do jovem suspeito do crime, vende o que pode para o tirar da prisão. No meio deste quadro dramático, a paisagem social filipina entra-nos pelos olhos como uma crónica geográfica e humana, sustentada pela subtileza da câmara que se agarra à pele destas mulheres maiores do que vida.

Poesia (2010), de Lee Chang-Dong

Aqui temos mais um olhar sobre a grandeza das avós, desta vez assinado pelo coreano Lee Chang-Dong (que é o extremo oposto do garrido Park Chan-Wook). Centrado numa mulher de 60 e tal anos, que vive sozinha com o neto numa pequena cidade da Coreia do Sul, Poesia mostra-nos o bucólico e trágico retrato de alguém à procura de inspiração para estar neste mundo, apreciando a sua essência no dia-a-dia. A heroína matriarca inscreve-se então num curso de poesia, mas os acontecimentos que tomam conta da sua vida - o Alzheimer e um crime cometido pelo neto - põem à prova essa disposição para pesquisar à sua volta um qualquer sentimento do belo. Estamos perante um conto oriental de grande densidade melodramática.

Primavera Tardia (1949), de Yasujiro Ozu

Regressamos por uma última vez ao Japão para encontrar o cinema de Yasujiro Ozu. Primavera Tardia será um dos preciosíssimos olhares do cineasta sobre o contexto da família, colocando o ângulo sobre uma jovem mulher (Setsuko Hara, a sua atriz musa), que apesar de levar uma vida doméstica tranquila com o pai viúvo, já está a ultrapassar aquela que se convencionou ser a idade certa para casar. Apercebendo-se disso, o pai será o primeiro a incentivar a filha ao próximo passo do curso normal da vida, e a aceitar a solidão como destino... Cineasta de emoções recatadas e de uma extraordinária delicadeza formal, Ozu concentra-nos numa atmosfera íntima e zen (por isso, verdadeiramente japonesa), em que cada plano nos conforta a alma. Nem de propósito, Primavera Tardia acaba de ser lançado em DVD.

Shirin (2008), de Abbas Kiarostami

Um filme que olha espectadoras de cinema e que nos põe a olhar para elas. Assim se pode definir Shirin, obra do mestre iraniano Abbas Kiarostami que se afigura como um tratado sobre a nossa relação com o grande ecrã. Mas é mais do que isso. Como já se deu a entender, o que esta plateia tem de particular é o facto de ser composta só por mulheres (114 no total) - todas iranianas, à exceção de uma estrela do cinema francês, Juliette Binoche -, que supostamente estão a assistir a um filme baseado numa antiga lenda persa sobre um triângulo amoroso. E, com esta peculiar encenação, o que Kiarostami concretamente faz é um magnífico filme sobre o rosto feminino. Filme esse que contém em si um enorme elogio às mulheres, sobretudo as iranianas, colocando-as em primeiro plano, num fabuloso escrutínio do seu mapa de emoções.

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